Uma coisa em comum em todas as mitologias é que existem deuses específicos para certas coisas. Deuses da luz, da escuridão, do amor, da cura…. As possibilidades são infinitas. Mas há uma característica que todos eles compartilham (ou grande parte deles), a beligerância. Seja as constantes traições e punições da mitologia grega, as guerras travadas entre os nórdicos ou os conflitos tribais africanos, em todos esses panteões e mitologias, há sempre o conflito, interno e aparentemente imortal.
Os Estados Unidos da América é, talvez, o país mais beligerante da história do planeta. Com a mania de se intitular o “bastião da democracia mundial”, eles se envolvem nos mais variados conflitos e quando estes não existem eles os inventa. Praticamente todas as guerras modernas tiveram a presença dos EUA em suas fileiras, que mantem uma indústria bélica capaz de controlar governos e manter uma máquina gigantesca se movendo a todo vapor. Uma cidade como Vulcan, com suas ruas idílicas em torno de um grande negócio armamentista e uma população beirando o histerismo coletivo pode parecer algo da ficção, mas é algo bem mais comum do que se pensa. Um país onde se compra fuzis em lojas de departamento é então o ambiente perfeito para um deus como Vulcan (Corbin Bernsen).

Muito da relação paradoxal que serve como energia para a existência dos deuses é advinda do sacrifício. Alguns preferem sua atenção, outros a alma em troca de uma vida melhor no pós-vida, mas os mais antigos e poderosos necessitam de sangue. Vulcan é um daqueles que soube se vender perante a modernidade (não sem uma grande ajuda é claro). Seus sacrifícios são praticados em todos os continentes, suas orações tem um poder de destruição além do imaginável, pois além de matar dão a ilusão de poder e com ela a capacidade da perda da humanidade. Não há deus mais americano do que Vulcan, com sua pompa prepotente e a sede eterna de poder e sangue, globalizando a violência como forma de controle e admiração.
“Coming to America”

Talvez o mais crítico e ácido deles. Numa releitura da história de Pedro que é salvo por Jesus do afogamento, conhecemos o Jesus Mexicano (Ernesto Reyes). A pluralidade de versões de um mesmo deus é talvez uma das coisas mais interessantes existentes. Na corrente aqui da série, se cada povo tem sua própria versão, haveria então múltiplas encarnações do mesmo deus (um Jesus mexicano, um ortodoxo e assim por diante). Mas o que mais chamou a atenção foi a questão da fé como justificativa para atos hediondos, a fé como arma (literal e figurativamente). Claro que houve um certo exagero dos fatos. Não digo aqui que imigrantes não sejam recebidos a balas pela patrulha da fronteira, mas a série usou da hipérbole para demonstrar mais uma vez o sacrifício de Jesus por seus algozes. Mas se antes eles usavam de outra fé, desta vez eles se utilizam da mesma.

E na órbita de tudo temos Sweeney, Laura e Salim. Este episódio é na verdade uma (das) digressões que serão feitas na adaptação do livro. Os três personagens não são muito presentes em grandes momentos da narrativa, somente em passagens chave. Nada mais condizente do que aproveitar o formato seriado e dar mais contexto, mais background e assim enriquecer personagens que eram subaproveitados no livro. Meio como uma deturpação do termo “estranhos numa terra estranha”. Laura, uma morta-viva que não vivia nem amava em vida e que agora persegue tais coisas em morte, estando do outro lado da moeda, na posição em que ela colocava Shadow. Salim está em busca do Jinn, na esperança de encontrar talvez o amor ou a realização de uma plenitude qualquer. E fechado com Sweeney que aqui é meio como um acompanhante dos dois, mas que demonstra, em meio a toda verborragia insultante, uma figura tragicômica.
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Sacrifício e poder. A Murder of Gods é mais um passo de American Gods em direção a perfeição nessa primeira temporada, repleta de crítica e um visual arrebatador.
Pequeno Panteão
– Vulcano (interpretado por Corbin Bernsen)
Origem: Romana/Grega
Vulcano (ou Hefesto para os gregos) é o deus do fogo, filho de Júpiter e Juno (Hera). As versões variam na mitologia, mas Vulcano foi atirado de seu local de nascimento devido a sua feiura (para os romanos foi o mar, para os gregos foi o topo do Monte Olimpo), o que o deixou coxo em vida adulta. Apesar de ser feio casou-se com Vênus (Afrodite para os gregos), deusa da beleza e do amor. Era responsável por forjar os raios atirados por Júpiter (ou Zeus), sendo sempre representado pela figura de um ferreiro.
Anotações de Ibis 1: Vulcan não existe no livro, foi criado especialmente para a série. Neil Gaiman, ao visitar uma cidadezinha no interior americano que era vizinha a uma metalurgia, teve a inspiração para o personagem. Nessa cidade existia uma estátua do deus e os acidentes que aconteciam na fábrica eram acobertados com grandes somas de dinheiro, já que era mais vantajoso do que parar a fábrica para reformas;
Anotações de Ibis 2: A bala que mata o Jesus Mexicano é uma das fabricadas por Vulcan. Há uma irônica sensação de encerramento quando Wednesday mata ele no final das contas. Isso é o que pode explicar o nome do episódio, que pode se referir tanto as mortes como o ato de assassinato do nosso co-protagonista;
Anotações de Ibis 3: Na mitologia nórdica Odin realmente rinha uma espada chamada Gram, que significa “dor”;

Anotações de Ibis 4: Muitas culturas consideram o ato de urinar nos mortos como uma espécie de maldição ou mal agouro para o finado no pós-vida;
Anotações de Ibis 5: A árvore na delegacia no episódio passado era realmente Mr Wood, só que gostei bem mais da persona dele na série. Há uma grande relação de árvores como figuras de grande poder com aspectos de várias mitologias, principalmente na nórdica e na céltica.















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