Um dos grandes problemas que as vítimas de bullying sofrem e que os abusadores não conseguem perceber, é justamente que uma vez alvo sobre determinado assunto, a pessoa passa a ser atormentada por TUDO o que ela faça. Nesse 5º episódio de 13 Reasons Why já é palpável o fato de que não foi só a lista, a foto de Justin ou a briga com Jessica que fizeram Hannah se matar. Pelo contrário, a tragédia aconteceu justamente porque as situações foram se acumulando, muito em virtude do que a personagem fala para Courtney ao descobrir a “traição” da amiga: como ela própria já estava queimada, uma mentira a mais na conta de Hannah não faria diferença para preservar o seu próprio segredo.
Courtney, por sinal, tem uma história bastante dramática, se analisada por um segundo olhar. Criada com base no mais firme liberalismo e com um fardo enorme nas costas (de mostrar que um casal gay pode criar uma criança sem problema nenhum, e, mais importante, sem necessariamente torná-la gay no processo, algo repetido por muitos ativistas anti-LGBT), Courtney se vê em uma sinuca de bico sem tamanho. Aluna exemplar e claramente engajada, a exploração da sua sexualidade seria como um tapa na cara do movimento que tanto defende, e que carregou em sua vida. É CLARO que essa problemática não nos é explicada, mas não é difícil entender o quanto aquele personagem deve ter sofrido, em sua vida, e o quanto essa dúvida é difícil para ela.

Mas não só de personagens profundos como Courtney sobrevive a série. Ainda assim, “13 Reasons Why” continua sendo uma série surpreendente pelo ritmo imposto em cada episódio, ainda que nenhum tenha sido assim tão regular. Da mesma forma, a série nos apresenta personagens tão complexos quanto Courtney, e tão rasos como Bryce ou Montgomery, duas folhas de papel absolutamente unidimensionais, personificações perfeitas dos Bullys americanos.
O mais interessante é o toque onírico instituído em alguns momentos, e nesse quinto episódio era sempre impossível dizer se o baile era real ou apenas mais um sonho de Clay. O que nos leva justamente ao personagem misterioso de Tony, e sua função na trama. Tony é o amigo “durão” de Clay, não está na “lista das fitas”, mas tem todo o conhecimento da história e é um grande incentivador para que o amigo continue explorando a narrativa de Hannah. Tony representa aqui o papel de um “mestre” para Clay, e será que a sua tatuagem de estrelinhas não pode sugerir que ele é uma espécie de “fada” que guia o personagem principal? Tony permanece como um dos personagens mais misteriosos da série, e estou curiosíssimo para entender como ele entra nessa trama.
Alex, por outro lado é outro garoto profundamente atormentado com o que pode ter feito com Hannah, e a revelação sobre seu pai só nos dá noção do tipo de pressão que ele sofre em casa. Não é por acaso que enquanto todos os seus amigos estão rindo e achando divertida a situação, Alex está com o semblante tenso o tempo inteiro. É justamente esse tipo de construção de “13 Reasons Why” que torna a série tão interessante: boa parte dos personagens são tão profundos que mesmo sem o desenvolvimento desses dramas em tela, nós conseguimos extrapolar um pouco o que nos é apresentado e fazer esse tipo de suposição.

A contratação da mãe de Clay para trabalhar em prol da própria escola, traz um plot twist inesperado à trama, uma vez que agora a política instituída em sua casa de “portas abertas” deverá ter um limite, para que ele consiga respeitar a memória de Hannah. Não que alguém pareça estar muito preocupado com isso, levando em consideração que ela foi enterrada em um túmulo sem lápide por enquanto, como se todos quisessem esquecer e minimizar o que houve, em prol da sanidade coletiva da cidade.
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Além disso, é curioso como em vários episódios, Clay já apareceu chorando no chuveiro, como se esse fosse o momento para processar o que aprendeu ao longo daquela fita e pedir perdão, limpando a “sujeira” em seu corpo. Clay já está entendendo que de fato todos parecem ter influenciado para que sua amiga tomasse aquela fatídica decisão. É difícil pensar que todo o potencial contido em uma pessoa foi exaurido a esse ponto, e no fundo ele sabe, todos sabem, que Hannah nunca conseguirá se tornar o que Jessica comentou: Uma excelente “soccer mom”.















