Em contraponto ao episódio anterior, Painful Evacuation começa com uma conversa entre Hannah e uma escritora. O diálogo entre as duas, no qual se desfaz a visão romântica que temos sobre a profissão de escritores e uma vida calma e silenciosa, é a ponte para a semana passada. Com autoridade sobre sua área, Ode Montgomery (interpretada pela comediante Tracey Ullman) fala sobre alguns aspectos que nos lembram a conversa que a protagonista teve com o escritor na semana passada e que levou àquele estranho desfecho. Assim como American Bitch apresentou dois lados sobre a questão do homem em posição de poder e seus relacionamentos, aqui vemos o que uma profissional do ramo tem a dizer e isso complementa as lacunas que faltavam — ou pelo menos algumas, pois o restante fica sempre com o público.

Dialogando ainda com episódios anteriores, o que mostra uma temporada consciente, temos a participação de Patrick Wilson em uma cena decisiva para a série e a trama que seguiremos nos próximos domingos. O tão citado episódio da segunda temporada com sua participação, One Man’s Trash, relembrado na mídia em comparações com American Bitch, aparece por aqui de forma definitiva e para selar as conexões que fizemos entre as subtramas. Assim como à época, Joshua aparece para ser uma fonte racional para Hannah e lhe mostrar opções para seu modo de vida: enquanto no passado ele mostrou uma opção à esquisitice que ela caçava, fazendo-a assumir que só queria ser uma pessoa normal e ter uma vida normal, aqui o médico não só dá a notícia sobre a gravidez como conversa de forma madura a respeito.

O modo mais óbvio de analisar esse episódio é pensar na questão da morte e da vida, afinal, enquanto uma personagem lida com uma vida crescendo dentro de si, da qual não tinha consciência, outra lida com algumas mortes repentinas e questiona o modo como tem vivido. Há esse aspecto por trás das questões, mas não reconheço aí o aprofundamento do episódio. Creio que nas próximas semanas, quando Hannah precisará decidir o futuro de sua gravidez, essa questão será colocada. Por enquanto, creio que Lena Dunham e Jenni Konner, que assinaram o roteiro, tenham focado em coisas reais e irreais e a projeção delas em nossa vida.
Nesse caso, a série fala sobre como visualizamos alguns problemas e situações como muito real e doloroso até que algo nos tira o foco disso e nos faz assistir de fora. Quando olhamos de novo, percebemos que aquilo não era real, não era um problema real, não era uma questão real a ser considerada. O exemplo maior está na própria Hannah que, ao descobrir a gravidez, se perde dentro de si, pois assume a grandiosidade que isso tem para ela. Essa é uma questão real — algo sobre o qual Ray fala. Os conflitos com o ex-namorado, e com a ex-amiga (que talvez nunca tenha sido uma amiga de verdade) são diminuídos diante desse fator e somem como hologramas, sem consistência para que possam ser tocados.

Jessa e Adam, que tanto deram importância a terceira figura na história deles, também deixam isso de lado quando o grande empreendimento que planejam toma formas diante deles. Para Adam, o real de verdade é a arte e a seriedade de sua carreira. Perto de sua profissão, todo o restante se torna efêmero, irreal. Para Jessa, uma vez que um plano é elaborado, por mais inusitado que ele seja, todo o resto desaparece. Diante de seus olhos, o real é o plano, o real é aquele momento.
Falando no casal, é ainda estranho observá-los juntos. Entre uma cena e outra ainda permanece a pergunta sobre como isso aconteceu. A série, entretanto, sabe abordá-los e apresentá-los como casal de forma que não nos aborreça — ou não nesse episódio, pelo menos. Por mais que todas as garotas estejam perdidas (algumas mais perto de se encontrarem do que outras), acho que Jessa é a mais sem rumo. Gosto da atriz e gosto da personagem, então sempre espero grandes coisas. Há muito potencial ali e pelo menos mais seis episódios para criar uma subtrama independente que faça jus ao número de fãs conquistados durante a trajetória de Girls.
Marnie, enquanto isso, está em busca de descobrir o que é real e o que não é real e faz diversos experimentos em sua pesquisa, mesmo que não saiba que está em busca de responder essa pergunta. Seu investimento na música, por mais que tenha que lidar com esse ex-marido problemático, demonstra que ela acredite em seu talento e na música como algo real, no qual pode se segurar. A música e seu futuro na indústria acabam por diminuir Ray, que lhe parece algo pequeno, irreal. Ele está longe de alcançar o ideal romântico que ela tem para si, o que justifica os versos poéticos que ela deixa escapar, mas que jamais sairiam da boca dele nas circunstâncias por ela propostas — se é que sairia da boca de alguém. O que me incomoda na personagem é que ela está sempre batendo de frente com as mesmas coisas, sempre se dando conta dos mesmos defeitos, mas nunca dá um passo para uma mudança perceptível. Isso é preocupante porque até Hannah tem demonstrado sinais de alterações em sua personalidade.

Shoshanna teve uma participação pequena e, como não apareceu no episódio anterior, fica a sensação de abandono à personagem. Ela teve bons momentos no segundo episódio, mas é preciso um investimento constante do roteiro para que não se perca entre os dramas e questões das outras garotas.
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Algo que tenho conferido em Hannah desde o episódio passado e que apareceu timidamente nos anteriores é uma expressão de fragilidade que Lena tem empregado à personagem. Talvez seja a abordagem certa para os temas tão delicados que a temporada vem explorando. Talvez seja a percepção de que é preciso diminuir um pouco de si ou despir-se completamente para que a metamorfose de ser adulto tenha espaço para acontecer.

Ao contrário dos três primeiros, Painful Evacuation parece um episódio de transição e que estabelece uma trama que será explorada depois. De uma forma ou de outra, ele cumpre sua tarefa de entregar minutos de reflexão, incômodo e constrangimento; bem cara de última temporada; bem cara de Girls. A série abre mão da beleza e da simplicidade para falar de temas reais, daquilo que é real no que se refere aos relacionamentos e à mulher em geral. Isso justifica todas as referências estranhas e frases que soam desnecessárias: não importa que seja bonito, importa que seja real.















