Uma das melhores jogadoras da história do Big Brother Brasil veio para mostrar como é que se faz reality show de verdade.
Acredito que a maioria dos leitores aqui do Série Maníacos já tenha visto um reality de convivência que se passe em terras estrangeiras. O público regular, aquele que se foca mais nas edições nacionais e não vasculha muito por informações da internet, fica mais dentro desse universo da interferência externa: assiste os programas e telefona para salvar seus favoritos ou eliminar seus desafetos. O BBB, assim como muitos outros realities da televisão brasileira, vive de julgamentos, vive sendo movido por esse tribunal de impressões, que pelo custo de uma ligação local, determina quem continua ou interrompe o curso do sonho.
O Big Brother em seu formato clássico, por exemplo, não depende do público para seguir. O melhor exemplo para falar desse assunto, contudo, é o Survivor. Para quem não conhece o formato, o Survivor é o pai do nosso saudoso No Limite. Aqui no Brasil, embora a primeira temporada tenha sido um fenômeno, o No Limite capengou nas edições seguintes e a direção da Rede Globo provavelmente achou que parte desse fracasso se devia ao fato do público não se sentir participativo dentro do formato. O programa comandado por Zeca Camargo foi um dos poucos que não foi adaptado para receber a interferência do espectador.
Nos EUA, entretanto, o Survivor é um sucesso absoluto. Com mais de 30 temporadas no ar, o show revela a cada temporada como é impressionante a capacidade do ser humano de flexibilizar a cultura da moralidade quando se trata de vencer. E ganhar não só dinheiro não, mas vencer intelectualmente. Sem precisar se preocupar em ser salvo pelo público, o jogador do Survivor precisa jogar com todas as armas para não ser votado pelos próprios companheiros, o que significa lançar mão da relativização da verdade e da justiça, de forma a abrir caminho no decorrer da competição e conseguir manter-se salvo até a semana final. Dentro do Survivor, mentir, enganar, blefar, manipular, são aspectos essenciais da sobrevivência (o que se correlaciona lindamente até com o título do produto).

Em dado momento da edição da última terça-feira, um VT mostrou Ilmar perguntando a Elis se ela seria falsa para ganhar um milhão e meio de reais; e ela respondeu sem hesitação: CLARO. Ele aproveitou para ficar bem na fita e disse que não faria o mesmo. Elis riu, daquele jeito cínico que se tornou sua maior característica lá dentro. Enquanto os colegas se engalfinham para mostrar como são maravilhosos moralmente, ela se diverte movendo as peças, plenamente ciente de que não está cometendo nenhum pecado e com isso, honrando cada minuto de sua permanência ali. Elis entrou para jogar forte e fez um baita de um jogo bonito.
Seu maior erro foi não ter sido atenta ao que dizia e perto de quem dizia. Alguns de seus blefes e algumas de suas mentiras puderam ser desmascaradas e foi isso que a impediu de evitar o paredão. Mulheres que jogam aberto dificilmente são aprovadas pelo público e Elis devia saber que não tinha muito tempo de vida lá dentro, seu jogo kamikaze a impediria. Mas, ela não estava nem aí e articulava movimentos de uma forma admirável, destemida, quase louca. Poucas participantes foram tão ousadas e se assemelharam tanto ao jogo feito em Survivor. Elis deu uma aula de como agir dentro de um universo paralelo como ele sendo exatamente o que é: paralelo.

Já falei muitas vezes aqui sobre como a maioria brutal dos participantes dissimula e mente sobre si mesmos exatamente por saberem que estão sendo assistidos e julgados pelo público. Frases de defesa da verdade, da moral e dos bons costumes são recorrentes lá dentro, porque no fundo eles estão fazendo exatamente o mesmo que Elis: mentindo para ganhar dinheiro. Mas, sem metade da coragem que participantes como ela têm. Aqui fora, quando liga para eliminar a “falsa e fofoqueira”, o espectador também está se expurgando de culpas e afastando de si a possibilidade de compartilhar “defeitos” com aquele participante amoral. A pessoa não elimina Elis apenas, ela elimina resíduos de seus desejos e pensamentos mais obscuros. Eu já ouvi de um namorado que ele tinha medo de quem eu era porque sou o tipo de pessoa que torce pelos participantes “vilões”. Entendam como tudo é uma questão de julgar para o espectador brasileiro, que usa o telefone como o martelo do júri.
Elis errou feio quando insinuou para Marcus a possibilidade de Daniel gostar de Emily. Não é uma questão tão impossível assim, mas tornou o jogo dela menos elegante, mais alcoviteiro. As pessoas começaram a falar sobre ela umas com as outras e o engodo todo foi sendo percebido. Marcos – que entrou num modo “paladino da justiça” bem insuportável – achou que a moça precisava de uma acareação e lá foi Elis passar por isso da forma mais sensacional possível: sentou na cadeirinha, ouviu todas as teorias e acusações da forma mais paciente do mundo e ainda fazia interferências irônicas e debochadas que deixaram Marcos & Cia a ponto de arrancarem os cabelos de ódio. Se antes eu já admirava a forma como ela agia, depois disso ela virou musa.
Tiago Leifert fez outro discurso de eliminação muito bom. Deu o recadinho perfeito de que o BBB não está ali para julgar as pessoas por mediocridades domésticas ou mesmo por amoralidades sociais que não se aplicariam na vida real. Eles estão ali para jogar com aproximações e alianças, onde vale a guerra fria da dissimulação. Não é feio combinar voto, não é feio desestabilizar o adversário, não é feio prometer proteções que não dará, não é feio quebrar acordos ou refazer alianças. A beleza do jogo é o comprometimento com ele, não a constante tentativa de usá-lo como escada para a santidade.

E com os participantes fazendo cara de “não estou gostando desse discurso”, Tiago eliminou Elis e estragou mais um pouco desse BBB. No ranking abaixo estão os reflexos dessa péssima decisão do público (E do público mesmo, viram? Acham mesmo que se a Globo pudesse manter Elis lá dentro, ela não manteria? Chega de teorias de conspiração!).

Como protesto por essa eliminação, sublinho que ninguém mais ali merece ganhar essa joça.

Marcos e Emily: Ela antes passava o tempo no discurso do “eu”. Todos a invejam, invejam sua beleza, seus seios, sua “maturidade” e seu homem carinhoso que todas querem. É chato demais. E ele agora deu para fazer monólogos sobre lições de vida. Que casal enxaqueca.
Daniel: Um tremendo maria-vai-com-as-outras.
Ilmar: Que criatura chata, sem carisma, sem luz… A única narrativa possível ali para ele era a amizade com Marcos e ele vem se esforçando para acabar com isso também.






















