Mentir é errado. Certo?
The Good Place continua explorando sua criatividade por um nível surpreendente. A série desde o início abraçou uma identidade “bobo-da-corte” (com alguns defeitos) e se definiu irreverente, divertida e com linguagem flexível. Outro ponto importante é a capacidade em prender o público toda vez que um episódio termina. Imagine essa dinâmica se a série fosse disponibilizada no Netflix? Provavelmente eu assistiria a primeira temporada em 1 único dia (ou final de semana). O show tem um formato rápido e que garante maior liberdade para o público decidir se continua acompanhando ou se espera um momento para assistir os episódios em contextos mais tranquilos. E isso é ótimo para o cenário de comédia atual, que cada vez mais precisa fidelizar o telespectador com artifícios viciantes.
O sétimo episódio focou em dois personagens: Michael & Chidi.
Com o anúncio de Michael (de que teria que sair do Lugar Bom por conclusão de que seria ele o problema de tudo) Eleanor enxerga a possibilidade de relaxar com toda aquele fingimento e finalmente descansar eternamente. Acontece que a despedida de Michael não era temporária. Como arquiteto da vizinhança ele teria que sofrer uma punição eterna que incluía sua alma desintegrada com cada molécula sendo colocada para queimar na superfície do sol até que sua essência fosse totalmente retirada do seu corpo e derramada sobre diamantes flamejantes. Sem falar no detalhe que envolve uma corda em volta do seu saco escrotal segurando todo o peso do seu corpo.
Claro que tudo isso não foi nada interessante de saber, nem mesmo pra Eleanor & Chidi. A batalha ética que os dois enfrentam continua sendo hilária e recheia o episódio de forma excepcional. Eleanor encara toda a situação como oportunidades para continuar mentindo, enquanto que Chidi relembra um caso da vida passada sobre uma mentira inofensiva que ele teve que acumular acerca do par de botas ridículo que seu colega usava. Os flashbacks foram ótimos para contextualizar Chidi nesse enfrentamento com Eleanor e renderam diálogos inteligentes. Principalmente as que envolveram Janet e sua bipolaridade robótica.

Após discutirem os melhores caminhos para ajudar Michael, o casal chega a conclusão (com divergências claro) de que matar Janet seria a melhor distração contra a decisão do arquiteto, já que ela dirige o trem que leva e trás as pessoas para o Lugar Bom (captou a referência ao filme Um Visto para o Céu aí?). O problema é que Chidi possui uma concepção máxima em decidir o que é certo e errado, e mentir sobre o assassinato de Janet seria o topo da lista de mentiras que ele não suportaria sustentar. A ironia do episódio só cresce com os flashbacks sobre o ridículo par de botas, revelando que Chidi não conseguiu ser 100% honesto quando se tratava de mentiras inofensivas, mesmo que esse comportamento durasse 2 ou 3 anos.
Agora vamos falar sobre a cena do assassinato de Janet.
Literalmente foi a melhor coisa que The Good Place já fez até aqui! Janet evocou diversas personas em questão de segundos para tentar salvar (como modo de segurança automática) sua existência e isso foi ótimo para rir do quão ridículo uma pessoa pode ser ao implorar por sua vida – ou melhor dizendo – o quão ridículo isso pode ser estereotipado nas telinhas e o resultado foi hilário! Teve comédia, horror e tragédia em poucos diálogos que realmente eram convincentes e até mesmo o coração frio de Eleanor foi derretido. O mais legal é que em questão de segundos ela voltava para o seu estado robótico de relembrar que toda aquela cena era irreal e é nesse contexto que tornava tudo mais engraçado ainda.
E por fim, outra performance que preciso elogiar é a de Kristen Bell. A sua capacidade de sintetizar Eleanor com toda corrupção que um ser humano comum pode ter é extremamente satisfatória. A protagonista é cheias de falhas, mas são essas falhas que cooperam para transformá-la na melhor pessoa daquele lugar (ironicamente falando). E por conta disso que sua culpa recai e ela precisa – como redenção própria – revelar que não pertence ao Lugar Bom. Até esperava que essa revelação seria o principal gancho para a próxima temporada, mas fico mais tranquilo em saber que eles vão resolver esse arco o quanto antes e agilizar com mais plots e situações inusitadas nesse paraíso que está sendo assistir The Good Place.
What the Fork 1:
Chidi “Há um velho provérbio chinês que diz: Mentiras são como tigres, eles são ruins. ” Eleanor: “Só isso?”
Chidi: “É mais poético no Mandarin.”
What the Fork 2: A primeira Janet era operada com botões. Nao consigo imaginar isso.
What the Fork 3: A cor favorita de Michael (que os humanos não conseguem identificar) se chama “plueragloss”, que ele descreve como “a cor quando um soldado chega em casa da guerra e vê o seu cão pela primeira vez”. Palpites?
What the Fork 4: A série já está caminhando para o final da temporada (sem renovação confirmada ainda). O que estão achando de tudo até aqui?















