Em mais um season finale com cara de meio de temporada, Lie to Me corre grande risco de se despedir de seu público de maneira triste e incompleta.

Spoilers Abaixo:

Desde a sua primeira temporada, os roteiristas de Lie to Me parecem ter dificuldades em entender que os episódios que iniciam e os que finalizam uma temporada precisam ter elementos que prenda a atenção do espectador, seja para o restante do ano ou para a temporada seguinte que está por vir. O resultado? Perda significativa de audiência, uma vez que o público perde o interesse pela série ao ver que a mesma não tem a intenção de criar um cenário mais empolgante. Killer App é mais um exemplo dessa tese, com um agravante: pode se tornar o último episódio da série.

Inspirado no sucesso de A Rede Social, o caso da semana trata do criador de um site de relacionamentos, o SeekOut, que está sendo processado na justiça por seu sócio, Kyle. A outra parceira, Claire, pede ajuda a Foster para que o Lightman Group descubra se Zach tem a intenção de excluí-la da sociedade, até que a empresária aparece morta. Lightman passa então a investigar o assassino dela, apontando como principais suspeitos Zach e Kyle, mas sem excluir outras possibilidades. Enquanto isso, Lightman enfrenta problemas com a ousadia de Emily e seu namorado Liam.

Sem um episódio de House para se inspirar, Lie to Me resolve aproveitar-se da ideia de um dos maiores sucessos do cinema em 2010, A Rede Social. O problema é que ao contrário do belíssimo filme de David Fincher, Killer App não consegue envolver o espectador e investe em elementos básicos demais, como triângulos amorosos, e acaba se perdendo na tentativa de impor Zach como um grande obstáculo para Lightman. Os roteiristas da série perderam há algum tempo a criatividade para desenvolver histórias e tentam pegar carona no sucesso de outras obras, quase sempre sem sucesso. Enquanto Lie to Me não recuperar a criatividade, não há meios de conseguir melhorar seus índices ou mesmo sua qualidade.

Apesar da falta de criatividade, alguns momentos do caso envolvendo Zach e seus sócios conseguem ser eficientes. Mais uma vez, o roteiro não busca envolver uma enxurrada de personagens que podem ser considerados suspeitos, procurando focar-se no relacionamento dos três sócios, principalmente Zach e Kyle. Enquanto a história consegue manter a natureza dúbia do relacionamento dos dois, o mistério de quem é o assassino de Claire é mantido com qualidade. Quando o roteiro evidencia a inocência de Kyle a coisa começa a desandar um pouco, fazendo com que o episódio perca o ar de dúvida proposto pelos roteiristas desde os primeiros minutos.

Além dos erros já citados, a estrutura escolhida para o episódio é completamente equivocada, a começar pelo flashforward mostrado na primeira cena, em uma desesperada tentativa de manter a audiência pela curiosidade. É o tipo de recurso mais difícil de ser utilizado sem parecer artificial, e Lie to Me quase nunca conseguiu utilizá-lo com qualidade. Aqui é só mais um exemplo de como o desespero pode afetar a qualidade de uma produção. Além disso, o episódio peca por não conseguir ser ágil quando precisa ser, se prendendo demais em momentos desnecessários, como a cena de Emily fazendo ginástica com seu namorado, que apesar de divertida desperdiça muito tempo de tela.

Aliás, Emily acabou tornando-se o personagem mais interessante da série nessa terceira (e provavelmente última) temporada. Há algumas semanas eu tenho dito que a série investe nela como a sucessora de Lightman, chegando a um ponto em que há uma inversão de papeis entre os dois, quando ela começa a cuidar do pai. Além disso, sua relação com Liam, claramente provocando Cal, trouxe momentos relaxantes para a série. É triste que esse desenvolvimento da personagem (e até da atriz, que melhorou muito seu nível de atuação nessa temporada) não possa ser concluído devido ao iminente cancelamento da série. Seria muito bom se pudéssemos vê-la no auge de sua maturidade, adentrando o Lightman Group ou trabalhando em algum outro lugar.

E não é só a personalidade de Emily que deixaremos de ver se a série realmente for cancelada. Ignorando todas as possibilidades, os roteiristas resolveram investir em um gancho para a quarta temporada, quando Lightman finalmente admite seu amor por Foster e provavelmente investiria em um romance com a amiga. Não considero a ideia dos roteiristas desrespeitosa com o espectador, uma vez que a série ainda tem chances de permanecer, mas talvez fosse mais inteligente não deixar pontas soltas, uma vez que a série nunca buscou investir em grandes cliffhangers.

Sem conseguir atrair grande atenção do espectador, Lie to Me se despede de sua terceira temporada com um balanço bastante negativo, além de muito provavelmente ter se despedido de seu espectador definitivamente, de forma melancólica e sem dar a ele a chance de sentir alguma saudade. É uma pena.

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