Depois de um excelente episódio, 90210 não consegue manter o nível com Mother Dearest, mas ainda assim apresenta alguns pontos bons.

Spoilers Abaixo:

Quando uma série perde, mesmo que provisoriamente, seu arco principal, a tendência é que se perca por algum tempo, até que recupere suas energias para desenvolver um novo. O ideal é que se construam histórias paralelas capazes de substituir a principal quando essa vier a encontrar seu desfecho, mas nem sempre isso é possível, ou às vezes a nova trama não tem tanto peso assim. É assim que 90210 se sente nesse momento, e em Mother Dearest não consegue prender o espectador com tanta eficácia como antes.

Iniciando-se com um flashforward, o episódio foca-se principalmente nas vidas de Ade e Navid, não só como casal mas em seus problemas individuais. Ade continua com sua empreitada rumo ao sucesso, e fazendo para isso absolutamente tudo que Victor manda, inclusive trazendo como par para sua gala ninguém menos que Joe Jonas. Navid não fica nada feliz com isso e para completar seus problemas, ainda descobre que o pai contrata menores de idade para atuarem em seus filmes pornô sabendo da condição das garotas. O rapaz briga com o pai e recebe um imenso sermão como resposta, o que o faz contar para sua conselheira o ocorrido e quase beijar Silver em um momento de fraqueza. Jen, por sua vez, começa a se sentir uma péssima mãe após cometer uma série de erros em um encontro de mães e acaba deixando Ryan sozinho com Jack (ou Jacques, como preferirem).

Começo minha análise pelos estranhos primeiros minutos do episódio, com narração de Annie em flashforward. O primeiro pensamento que veio à minha mente foi uma tentativa de imitação de Gossip Girl, e nada tirava isso de minha cabeça. Até os minutos finais, em que se explica o porquê da narração da garota, além de formar uma bonita rima temática, fechando o episódio de maneira emocionante. Gosto quando o roteiro busca construir seus episódios de maneira diferente, principalmente quando isso é feito eficientemente. Aliás, a história da descoberta do novo affair de Harry e a pequena desestabilização de Deb pode não ter apelo dramático significativo, mas confere ao episódio um bom momento devido justamente às belas palavras de Annie, que ultimamente tem tido destaque mesmo sem um plot para ela. Os roteiristas aparentemente entenderam que a garota se sai melhor como coadjuvante.

Enquanto Annie parece finalmente ganhar papel secundário, Navid ganha seus minutos de fama e recebe grande destaque no episódio. O personagem é um dos que mais me agrada no que diz respeito à construção. Um rapaz de princípios fortes que nunca se contradisse durante toda a série, algo raro em uma série que costumava ignorar os princípios de seus personagens. E seu plot com seu pai parece ter um bom potencial. É verdade que ainda estamos no começo de seu desenvolvimento, mas acredito que veremos uma boa trama por ali. Não acredito que vá durar muito, uma vez que não existe um grande leque de coisas a acontecer, e enrolar a trama só trará prejuízos à série, mas acredito que nos próximos três ou quatro episódios essa história renderá bons frutos. Além disso, o fato da Ferrari de Navid aparecer tanto aqui coloca em contraponto justamente a escolha entre a riqueza e a ética. O rapaz, condizente com sua personalidade, escolheu a segunda. Aliás, confesso que morri de medo dele destruir seu belo conversível, admirador de carros que sou.

Já que falei de Navid, aproveito para falar de Ade, o ponto central do episódio. Lembro que há algumas reviews citei que a decisão da garota em continuar com Victor independente das coisas que o empresário a manda fazer abria um arco com um excelente potencial, dramaticamente falando. Pois bem, me enganei. A série encontrou um desfecho para o arco sem sal e abraçando clichês, apesar de condizer com a boa índole da garota. É verdade que o sucesso dela abre uma gama enorme de possibilidades para a série, mas por enquanto Ade perdeu um pouco de seu impacto. Apesar disso, a maneira como o roteiro nos conduz para a decisão dela de dar um ultimato em Victor é interessante, embora bastante óbvia. Nos próximos episódios devemos descobrir se o empresário de fato vai obedecer a ela ou se ela exagerou no tom da ameaça.

Se por um lado Ade vive as glórias de sua fama, Jen parece ir do céu ao inferno. Quando Jack nasceu, tudo parecia ser alegria na vida da nova mãe. De repente, ela se vê criticada por outras mães e comete o grave erro de confundir seu filho com outro bebê. Como se não fosse o bastante, ainda derruba a criança ao tentar trocar fraldas. É normal cometer erros quando se é mãe de primeira viagem? Sim, mas não para Jen, que, mimada como é, não está acostumada a falhar em nada. Seu repentino abandono é a maior prova de que ela não suporta admitir que não é boa o suficiente, preferindo fugir à encarar a verdade. É fato que não é a primeira vez que a loira deixa a série, e imagino que ela deva retornar nos próximos episódios, mas a desconstrução do caráter de vilã para construir uma personalidade frágil foi algo bem feito, e o choque de realidades ocorre no meio dessa transformação. O colapso é inevitável. Ryan, coitado, ficou com o abacaxi.

A outra irmã Clark, no entanto, não recebeu para si uma história de muita qualidade. Eu ponderava de que maneira Oscar poderia estragar a vida de Naomi, e o que aconteceu foi o contrário. Planejando com Ivy uma vergonhosa vingança, a série mostra nos momentos em que os três se reunem suas piores cenas. Admito que ver Oscar impotente diante da situação me trouxe um certo prazer, mas isso acontece simplesmente porque Ivy é uma personagem pela qual tenho apreço. É muito pouco para Naomi, que até episódio passado tinha para si um excelente arco, que insisto em dizer que espero que não tenha encontrado seu desfecho.

O pouco aproveitamento de Naomi nesse episódio tem um motivo. A série desde sua segunda temporada investe num bem-sucedido esquema de rotação de personagens. Contando com um elenco bastante inchado, é impossível criar boas tramas sem que alguns personagens acabem ficando apagados. A solução para isso é fazê-los transitar entre o protagonismo e um pouco de ostracismo, criando dessa forma arcos importantes para todos, mas não ao mesmo tempo. A dificuldade em manter esse recurso é exatamente a que víamos na temporada passada, quando o roteiro mostrava certa pressa em concluir suas histórias. Aqui, vemos que a série começa a se entender com isso.

Sem conseguir ser divertido como o episódio passado, Mother Dearest sente muita falta de uma trama principal, mas ainda assim traz bons momentos. A série não pode cair no erro de achar que conseguirá manter um bom nível por muito tempo sem definir uma boa história, porque as chances disso acontecer são próximas a zero.

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