José Luis Torres Leiva | Chile, 2016, 103’, Documentário

Há uma regra não dita que rege a feitura dos filmes documentais. Todos as grandes obras do gênero, sem exceção, fazem, da maneira que for, com que o sujeito daquele registro torne-se único, excepcional, e, consequentemente, interessante. A 5ª edição do Olhar ficará marcada como uma de grandes documentários, dos mais diversos assuntos, estilos e nacionalidades, e mesmo aqueles que partem de situações banais, como o excelente ‘Um Outro Ano’ de Shengze Zhu, o qual não canso de citar, encontram em meio à normalidade algo particular.

‘O Vento Sabe Que Volto À Casa’, novo longa chileno do já experiente José Luis Torres Leiva, parte de uma premissa intrigante. Ignacio Agüero, veterano documentarista, está trabalhando em seu primeiro filme de ficção, nascido das ruínas de um documentário por ele idealizado mas nunca realizado, sobre a vida na Ilha Meulin, na região chilena de Chiloé. O que Leiva planeja, portanto, é acompanhar o processo de pesquisa feito por Agüero durante a preparação de seu filme, desde as entrevistas com a população local e busca por locações até os testes de elenco. A ideia é engenhosa, terreno fértil para um estudo metalinguístico sobre o fazer cinema, já que o que é documentado são, na realidade, três filmes diferentes. E ainda assim, o longa de Leiva não parece muito interessado em explorar esse aspecto da produção, presente, de fato, apenas nas cenas de entrevistas com os alunos do colégio que se candidataram para estrelar a ficção de Agüero, e frequentemente durante o filme esquecemos que o protagonista dessa história não é um mero entrevistador, mas um diretor planejando sua obra, e é inevitável indagar se o resultado não seria igual tivesse Agüero persistido e concretizado seu projeto abandonado.

Pretendendo capturar o espírito da pesquisa de Agüero, Leiva permite que o filme respire em seus cento e tantos minutos, mas o ‘O Vento Sabe…’ certamente se beneficiaria de uma edição mais incisiva, já que muitas dessas entrevistas não são particularmente interessantes, repetitivas entre si, e o próprio Agüero parece entediado em algumas dessas conversas, desviando o olhar, puxando assuntos quaisquer. Há certamente muito que se explorar na ilha, e a temática do embate histórico entre mestiços e descendentes de indígenas, bem como entre os setores da ilha, são um prato cheio para a história de amor proibida que é a raíz do filme que Agüero está idealizando, mas parecem não ser o bastante para dar brilho às histórias contadas pelos moradores de Chiloé, e Leiva não é bem sucedido em traduzir para a tela o fascínio que ele e sua equipe claramente tem por aquele lugar. A primeira entrevista inteiramente cativante, com uma senhora mãe de oito filhos, cujo mais velho não dá notícias há mais de trinta anos, revela a incompatibilidade entre tradição e modernidade, entre os que ficam na ilha e os que se vão, mas não é de todo explorada, e é insuficiente para compensar a gritante necessdade de coesão que permeia o filme.

‘O Vento Sabe…’ parece ser um caso de potencial gigante mal direcionado. Incontáveis vezes o filme parecia decolar, com perguntas certeira de Agüero, geralmente ligadas à história de sua ficção em produção, que resultam em respostas fascinantes, mas que são rapidamente abandonas em detrimento de argumentos incansavelmente reforçados. Longas cenas em que  Agüero e companhia pedem informações, compram comida no supermercado ou caminham em volta dos rios tranquilos, miram na simplicidade poética, mas acabam apenas por engessar o filme. Ao final do longa, fica fácil entender o porquê de Ignacio ter feito da Ilha de Meulin o terreno para sua primeira ficção, e não um novo documentário: as numerosas lacunas de Chiloé, evidenciadas por Leiva, anseiam por algo maior do que a mera realidade.

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