‘‘Há dois tipos diferentes de morte: Se você tiver sorte terá uma vida longa até seu corpo parar de funcionar. Mas se não tiver sorte, você vai morrer um pouco de cada vez até perceber que é tarde demais’’.

Finalmente, a redenção.

Em seu penúltimo episódio, 13 Reasons Why conserta alguns dos principais erros de sua trajetória e abraça de uma vez por todas o tom adequadamente pesado com o qual, até agora, apenas flertava cuidadosamente. O drama aqui é elevado ao seu ponto máximo (ainda mais do que no episódio 9).

A Hannah das fitas finalmente deixa de ser alguém que sempre tem uma tirada inteligente na ponta da língua e passa a adquirir traços de uma pessoa depressiva, desacreditada, cansada. Pela primeira vez acreditamos que ela seria capaz do ato extremo que conduz a narrativa.

O retorno do tema estupro – de forma ainda mais chocante do que retratado anteriormente – também é um ponto positivo. É louvável que uma série voltada ao público adolescente toque nessa ferida de maneira tão sincera e explicita. Sim, ser explicito é bom. Quando algo se torna tão socialmente nocivo é importante que se fale a respeito com toda a clareza, abordando todos os lados e retratando todo seu potencial destrutivo. E essa é a maior virtude da série.

Aqui todos os aspectos são abordados. Desde o discurso machista que sempre começa com ‘‘Ela queria’’ até o inevitável – apesar de injusto – sentimento de autoflagelo da vitima, expressado quando Hannah diz ‘‘Graças a você, Bryce, fiz jus a minha reputação’’. A verdade é que mesmo se reconhecendo como vitima inegável da situação, o contexto social no qual Hannah é inserida não permite que ela não se culpe. Um contexto no qual a mulher já nasce culpada do próprio pecado original.

No fim das contas não foi o bullying ou a solidão que matou Hannah. Foi a culpa. Isso fica evidente quando, nas próprias fitas, ela tenta justificar o fato de não ter gritado para que Bryce parasse, mesmo sendo obvio que não havia nada a ser feito naquele momento. E a câmera focalizando seu rosto e mãos imóveis no momento do estupro passam a mensagem: Ela já está morta.

13 Reasons Why 1x12: Fita 6, Lado B
13 Reasons Why 1×12: Fita 6, Lado B

Outro ponto alto da série continua sendo as complexas interações entre os personagens, e nesse episódio há três cenas que exemplificam isso. As duas primeiras dizem respeito à dinâmica Bryce-Justin. Numa delas, Bryce liga para o amigo e diz ‘‘Você não falar comigo está me matando. Fala comigo. Por favor. Eu te amo, cara’’, frase esta que revela – se formos bem inocentes – uma relação de dependência emocional muito forte entre os dois. Essa impressão é reforçada cenas mais tarde quando Justin fala para Jéssica que não conseguiu impedir que Bryce a estuprasse pois sempre que precisou ‘‘Bryce estava lá por ele’’. Inclusive financeiramente, o que reforça a idéia de dependência.

A terceira cena é entre Hannah e Jéssica. Mesmo com tudo que aconteceu entre as duas, com a amizade abalada, com a experiência traumatizante compartilhada – ainda que até aquele momento a mesma fosse ignorada por Jessica – é notável a expressão de felicidade no rosto de ambas ao se encontrarem na festa de Bryce. Fica mais do que claro que as duas se gostam muito, mas a imaturidade de Jessica e o isolamento emocional de Hannah as impediram de retomar esse laço.

Alguns defeitos ainda permanecem: continuam ridículos os encontros entre os personagens envolvidos nas fitas tramando uma forma de se safar da terrível acusação de… praticar bullying no colégio (não que isso não seja algo reprovável, mas sério que eles são tão egocêntricos a ponto de pensarem que alguém se lembrará deles após ouvir a fita de Bryce?). Já o fato do próprio Bryce cair no velho golpe de confessar seu crime enquanto está sendo gravado nos faz pensar que a série não é apenas dirigida ao público adolescente, mas também foi escrita por um.

Outra incoerência que incomoda é a maneira como a série retrata seus personagens gays masculinos. Nas duas únicas cenas em que contracenam no episódio, o casal Tony e Brad se trata com uma frieza absoluta mesmo quando estão sozinhos. Alguns podem justificar dizendo que eles estavam passando por uma crise, mas absolutamente nada justifica a reconciliação surgir através de um fraterno abraço digno de novela das 7. É claro que nenhuma produção é obrigada a levantar bandeiras, mas é de se estranhar que uma série que prega a diversidade (é da Netflix, caramba), que teve o cuidado de reunir um elenco que contemplasse múltiplas etnias e que busca passar aos jovens uma mensagem contra o bullying trate o tema da homossexualidade masculina com mais ‘‘cuidado’’ do que o tema do estupro.

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Mas, apesar dos pesares, é inegável o salto de qualidade que a produção deu neste episódio quando, retomando o excelente ritmo do nono, finalmente diz a que veio e esclarece as reais motivações de seus personagens. Finalizando com um excelente gancho para a season finale, 13 Reasons Why caminha para escapar do esquecimento graças a relevância de seu tema.

REVISÃO GERAL
Nota:
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13-reasons-1x12-fita-6-lado-bApesar dos avanços dramáticos e de ter alguns de seus erros consertados, este episódio mostra que o que impedirá a série de cair no esquecimento será a maneira eficaz como traz um tema tão urgente para o publico adolescente.