Não pedimos este salão ou esta música. Mas já que estamos aqui, vamos dançar

11.22.63 chegou ao seu fim e embora tenha cometido alguns erros no desenvolver da história, deixou um gostinho de quero mais e aquela lágrima no canto dos olhos de alguns. No último episódio, ficou clara a motivação verdadeira de todo o esforço de Jake e que tanto Lee quanto Kennedy, eram apenas pontos fixos no tempo que serviam como o pior aviso para Amberson: O seu nome é Epping e você não deveria estar aqui.

A princípio, o Yellow Card Man parecia um instrumento do passado ou o “vilão” da história, que não permitia Jake realizar uma ação que somente traria bons frutos. Contudo, como visto na distópica 2016, não é porque aparenta que realmente seja. Não é porque Epping e Al acreditavam que salvar JFK, uma pessoa boa e um político bom, iria beneficiar muitas pessoas, que isso realmente era verdade. E não é porque alguém era assassino, que matá-lo antes da realização dos crimes iria resolver os problemas e prevenir outros. O Yellow Card Man, no final de tudo, era apenas alguém que queria mostrar para Jake que independente da forma de agir e das intenções, a utopia sempre tenderia para o lado negativo.

Não foi explicado quem era esse homem misterioso ou como 2016 se tornou um ambiente tão caótico como aquele, pois isso não importa. Não há porque saber e não há como mudar. Desde o princípio, quando Al ainda explicava para Jake o que era aquilo dentro da despensa, ninguém sabia o motivo de Lee ter matado Kennedy, assim como no final, em que depois de 3 anos com escutas na casa, conhecendo sua família e um pouco sobre ele, o motivo continua nebuloso. Seria para ser lembrado? Para deixar uma marca no mundo? Para sair da zona de desconhecimento após ter feito tanto por seu país? É possível criar essas e muitas outras hipóteses com suas falas, fotos e ações, porém, não há como saber a verdade e não existe um objetivo nisso, afinal, não fará diferença.

11.22.63 utilizou de um momento histórico extremamente importante para relacionar com pequenos momentos da vida. O encontro de Jake e Harry foi de longe um dos momentos mais tristes e significantes da série. Embora a família dele estivesse morta na primeira realidade, estando com pessoas boas e estudando ele pelo menos havia encontrado uma paz; por outo lado, na segunda realidade, além de ter sido isolado de sua família, seu mundo era caótico, solitário e uma lembrança viva de que ao lado só existia tristeza e destruição. Encontrar o lado positivo dentro de uma situação negativa nunca esteve tão presente e por pior que pareça, às vezes, o que parece ser o pior cenário é na verdade o melhor que se podia concretizar. Jake teve que resetar e aceitar que não era possível ajudar Harry, porém, o que ele não percebeu foi que embora não se possa mudar o passado, é possível ajudar no presente para um futuro melhor. Epping chorou por carregar todo o peso de não ter conseguido proteger o amigo, porém como mostrado na cena na escola, sua preocupação e sua indicação já foram responsáveis por um sorriso no rosto de Harry e uma centelha de paz no seu coração.

E falando finalmente da pessoa mais importante da história, Sadie indiscutivelmente foi o foco desde o episódio que se tornou regular e foi a grande responsável pela maior lição que a história nos deixou. Já era esperado que sua morte acontecesse no dia do atentado, afinal, além de conhecermos o jeito Stephen King de ser, o Yellow Card Man havia deixado claro que alguma tragédia ocorreria. Entretanto, sua morte impactou e foi ao mesmo tempo bonita e extremamente triste. Sarah Gadon encarnou perfeitamente a personagem e nos fez por meio de sorrisos e um brilho nos olhos sincero, apaixonar por Sadie a cada episódio, o que não poderia ser diferente no momento de sua morte. Não houve sangue jorrando, desespero para tentar salvá-la ou qualquer artifício para gerar uma dramaticidade maior ao momento. Sadie simplesmente pediu para Jake segurar sua mão e às vezes, como bem representado nessa cena, menos é mais.

Porém, é no reencontro dos dois (pelo menos para ele), que a maior lição se encontra. Embora ele não fosse mais salvar JFK, a interferência na vida de Sadie a faria ter o mesmo fim sempre. Ele poderia tentar modificar, mas valeria a pena criar um loop infinito e assistir a pessoa que ele mais ama morrer diversas vezes? Se uma vez já foi o suficiente para gerar em nós, meros telespectadores, uma sensação de coração partido, imagina rever e rever o falecimento de uma pessoa que você queria passar o resto da vida e sabe que se ela pudesse escolher, também escolheria. No momento que Jake pega na mão de Sadie, é possível remeter diretamente ao momento em que ela pediu para ele não abandoná-la enquanto em seus olhos sua vida esvaía. No futuro ela não seria uma pessoa internacionalmente ou nacionalmente importante, porém cada pessoa dentro do seu mundo e do seu contexto tem uma importância insubstituível. Sadie não era presidente, mas o passado a considerava tão importante quanto. E quando Jake percebe que é melhor deixá-la viver sem ele e ser feliz do que lutar contra algo maior do que ele, que vemos a maior prova de amor dentro da história dos dois.

Todo mundo é importante. Ser indicado como a mulher do ano em Jodie ou se tornar o presidente dos Estados Unidos. Para alguns, Sadie não era e nem foi nada; para outros, ela foi outra vida. Talvez as pessoas pensem que porque não movem montanhas e não são conhecidas, não fazem diferença no mundo, mas mal elas sabem que algumas trocariam a própria felicidade pela alegria delas. Uma mera conversa de 5 minutos com uma pessoa desconhecida, um abraço, um beijo, podem parecer insignificantes e até descartáveis em um mundo em que cada segundo é uma oportunidade de ganhar dinheiro, porém são pequenas ações do cotidiano que são capazes de mudar as pessoas e assim as relações humanas. É aquele famoso parafuso minúsculo do relógio que impossibilita que o resto da engrenagem funcione. Talvez esse foi o motivo de Lee Harvey Oswald. Talvez ele seja a representação daquelas pessoas que acreditam que é necessário ser conhecido no mundo para ser relevante, mesmo que seus entes queridos já o amem. E por mais clichê que soe e seja, talvez tudo aconteceu, porque ele não percebeu que importância é um sentimento abstrato e na abstração, objetos que aparentam ser pequenos por fora, como o coração, são de uma imensidão admirável por dentro.

Curiosidades e outros comentários:

– Jake foi ótimo em quase todo o episódio, mas não procurar pelo Bill foi um absurdo. Primeiro joga a missão toda pra ele, depois o quebra colocando em uma instituição para loucos e ainda dá a mínima para a morte dele. Pra finalizar, nem mesmo pesquisa o nome dele? Que amigo!

– Quando Jake reseta 1960 e volta para 2016, em cima da mesa há o livro que Sadie estava lendo quando se conheceram pela primeira vez, “A um passo da eternidade”. E a música que ele dança com ela na última cena é a mesma que eles dançaram no baile em 1962.

– Que final bonito!! O poema encaixou perfeitamente ao momento e ver os dois dançando foi o necessário para termos que usar a desculpa “caiu um cisco no meu olho”.

– Esse último episódio foi um dos mais fiéis ao livro, porém não explicou sobre o Yellow Card Man. Para quem tiver interesse, informação com spoiler do livro abaixo:

Resumidamente, o Yellow Card Man era uma espécie de guardião dos portais. No fim é explicado para Jake que existem diversos portais, porém eles são temporários e podem desaparecer se houver uma mudança no ambiente físico em que residem.  Além disso, ele explica que ao viajar no tempo, não se modifica o passado, mas cria-se uma nova “realidade” do futuro, dessa forma, quanto maior a interferência, mais instável a realidade fica. Contudo, até mesmo pequenas mudanças, ao longo do tempo, tomam proporções imensas. Dessa forma, o homem misterioso serve como um medidor da exposição que a linha do tempo sofreu. Se o cartão fosse verde, significaria que o tempo está fluindo bem; se fosse amarelo, significaria que o tempo está pendendo entre a estabilidade e instabilidade; se fosse preto, significaria que o tempo está instável. Por isso, às vezes o homem misterioso fica alcóolatra ou tem um problema mental, como o da história. No final, ele pede para Jake desfazer as modificações, pois a realidade estava quase sendo destruída.

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