A verdade continua lá fora (e logo abaixo).
Imaginem se vários dos mitos que cercam as civilizações, pudessem ser analisados seguindo as perspectivas abstratas e as perspectivas científicas… Imagine se houvesse uma preocupação governamental em esclarecer alguns dos mistérios que se escondem na humanidade em forma de mitologia… Bom, isso é exatamente o que a série The X-Files faz. Criada por Chris Carter e lançada no ano de 1993, a série se tornou um dos maiores fenômenos da história da televisão mundial e durante seus nove anos, desafiou seus espectadores com roteiros baseados em mitos e teorias conspiratórias que apareciam sempre sendo tratados com seriedade e muita inteligência.
Esse ano – mais precisamente em 24 de janeiro – a Fox trará o programa de volta para uma minissérie de 6 episódios e o que o Série Maníacos precisa recomendar VEEMENTEMENTE aos seus leitores é que corram e maratonem as nove temporadas e os dois filmes. Porém, se o tempo está corrido e você precisa saber ao menos o básico para entender esse retorno, preparamos esse Top com 10 tópicos imprescindíveis a isso. Há MUITOS spoilers de tudo que aconteceu no show em seus nove anos, então, sejam sábios sobre continuar a leitura. O que posso dizer antecipadamente, é que com spoilers ou não, The X-Files é obrigatória para qualquer série-maníaco e para qualquer pessoa interessada em conhecer um pouco sobre narrativas ficcionais que transformaram o curso da cultura pop.
Então, vamos ao top:
1 – Os Arquivos-X
Para começar, precisamos primeiro saber do que se trata esse tal de Arquivo-X. A ideia do criador, Chris Carter era criar uma série com influências de coisas como Além da Imaginação e Demônios da Noite, mas com uma linha central explorando assuntos ufológicos. Assim, a Fox deu sinal verde para a produção do piloto, que foi ao ar em 1993 e mostrou o Agente Mulder cuidando de um departamento chamado Arquivos X. O departamento era responsável pelos casos inexplicáveis que chegavam até o FBI. A série começa com Mulder descobrindo que a Agente Scully havia sido designada para acompanhar seu trabalho e invalidá-lo pela perspectiva científica. Esse episódio piloto apresentou a mitologia alienígena que costuraria as temporadas, mas logo episódios procedurais começaram a conquistar o público também. A série se popularizou com sua abertura sinistra, tomada de uma trilha assustadora e uma tagline que se tornou icônica: The Truth Is Out There. Eventualmente, em episódios muito importantes, essa frase mudava, ajudando a dar ao show uma identidade própria.
https://youtu.be/rbBX6aEzEz8
2 – A Mitologia
Cada temporada do show era dividida da seguinte forma: um ou dois episódios iniciais falando da trama central da série (que chamamos de “mitologia”). Logo depois, uma série de episódios procedurais com histórias isoladas. No meio da temporada, mais dois ou quatro episódios mitológicos, geralmente apresentados como duplos. Mais alguns procedurais apareciam antes do finale, que como os iniciais, era obrigatoriamente mitológico. É essa mitologia que o show vai trazer de volta na minissérie e ela precisa ser, então, entendida em um aspecto mínimo. Se você não quiser saber do que ela se trata porque ainda pretender ver o programa, pare por aqui. Um dos maiores prazeres da série é vê-la desenvolver essa trama ao longo de seus anos. Porém, se você não quer ficar perdido, aqui vai um resumo básico, contado de forma linear e não fragmentada, como visto nos episódios (um detalhe interessante é que a história toda só conseguiu ser vista panoramicamente na sexta temporada):
“A queda do OVNI em Roswell, no ano de 1947, deixou o governo americano com uma imensa bananosa nas mãos, já que a prova de existência extraterrestre também levava a uma inevitável paranoia acerca da ameaça de colonização. Temendo por isso, um grupo de homens do alto escalão de várias áreas do governo, uniu-se numa ação fora do âmbito governamental e manteve contato com as entidades alienígenas, que estavam realmente preparando uma invasão. Esse grupo de homens, chamado de “O Sindicato”, formulou um “projeto”, que significava colaborar com os alienígenas no processo de colonização. O que esses homens pretendiam era a própria salvação e a salvação de seus entes queridos, aproveitando que teriam acesso ao material alienígena para fazer uma vacina contra o vírus colonizador, em segredo.
O problema é que para manter essa “parceria”, os alienígenas exigiram que cada um dos homens do sindicato cedesse um parente para ser cobaia dos testes. Todos eles obedeceram, com exceção de um: Bill Mulder. Ao se recusar, os alienígenas lhe tomaram a filha menor, Samantha, à força, enquanto ela brincava com o irmão Fox, que a viu ser abduzida e transformou essa experiência no centro motor de sua vida. Mais tarde, quando se tornou agente do FBI, Fox começou a buscar respostas e foi se aproximando cada vez mais do “projeto”, obrigando os homens do sindicato a providenciarem a difamação do trabalho dele, o que levou Scully até o departamento. Eles só não contavam que ela acabaria se envolvendo com os Arquivos-X e seguindo com Mulder numa jornada para a exposição dessa conspiração”.
3 – “Monstros da Semana”
Numa época em que a TV americana era dominada por procedurais (séries com episódios independentes um do outro), The X-Files chamou a atenção ao criar uma linha dramatúrgica central que precisava de complementos constantes ao longo das temporadas. Porém, para garantir o sucesso e aumentar a abordagem do show, a maioria dos episódios de um ano era formada pelo que chamávamos de “monstros-da-semana”. Os casos investigados pelos agentes não consistiam apenas em “monstros” ou anomalias propriamente ditas, mas em todo tipo de sobrenaturalidade ou bizarrice. A série ficou famosa por sua abordagem embasadíssima a mitos como o do vampiro, do lobisomem e do chupa-cabras. Tudo era sagazmente apoiado em discussões científicas e mitológicas; e de repente o episódio revelava lógicas admiráveis. A minissérie desse ano trará um episódio independente, por exemplo, que é uma continuação de Home, da quarta temporada. A história em questão fala de uma família de aberrações provocadas pelo incesto. Na época, o episódio escrito por Glen Morgan e James Wong (atualmente na equipe de American Horror Story) chegou a receber um aviso de alerta antes da exibição (e foi proibido em alguns estados) por conta de seu teor altamente chocante.
4 – Quem é Mulder
A trajetória de Mulder em The X-Files é tomada de amargura e tragédia. A experiência de ter visto a irmã sendo abduzida lhe tornou um homem obcecado e sua família, ligada a aspectos sombrios do governo, não trabalhou para dissuadi-lo desse destino. Ele se tornou um expert em assuntos ocultistas e ufológicos; e assim que começou a chegar muito perto da verdade, recebeu Scully como a cientista que invalidaria seu trabalho. Da primeira até a quarta temporada, ele encontrou diversas pistas sobre o paradeiro da irmã abduzida, no meio dos detalhes acerca da conspiração. Os homens por trás dela o provocavam constantemente com “aparições” da menina e o manipulavam de acordo com seus interesses. Mulder chegou a ser contaminado com uma entidade alienígena chamada “Óleo Negro”, tornando-o artificialmente híbrido. Quando Scully desenvolve um câncer, ele consegue ir fundo nessa busca pela verdade e a descobre logo após o quinto ano. No sétimo ano ele também conseguiu descobrir a verdade sobre o paradeiro da irmã e isso coincidiu com a saída parcial de David Duchovny do show. Os roteiristas providenciaram uma abdução para ele, que foi devolvido na metade da oitava temporada. A Fox, porém, quis um nono ano e Duchovny não assinou mais. Assim, Mulder precisou fugir para não ameaçar Scully e nem o filho recém-nascido deles. No Series Finale, ele retornou e trouxe consigo a revelação de que a data da colonização já estava marcada. Essa data (a mesma da profecia do ano de 2012) já passou e esse é um dos pontos que a minissérie pretende esclarecer.
5 – Quem é Scully
Como uma boa e competente cientista, Scully é cética e quando aparece para trabalhar com Mulder, debate contra ele em todas as suas teorias. A série mostra brilhantemente como os dois acabam se complementando, fazendo com que o conhecimento dela sirva para embasar os mistérios que eles desvendam. Na segunda temporada a gravidez da atriz Gillian Anderson obrigou Chris Carter a pensar numa saída para a ausência de Scully e uma abdução foi providenciada. Isso acabou servindo genialmente para o show, porque ao ser devolvida, Scully descobre um chip implantado em seu pescoço e resolve removê-lo. Isso faz com que um câncer comece a se desenvolver, o que termina ratificando a parceria entre ela e Mulder na busca pela verdade. No início do quinto ano, já em estado terminal, Scully recebe o chip de volta como única forma de cura. Depois da saída de David, o oitavo e nono ano do show se voltaram totalmente para ela e sua gravidez inesperada, sendo o paradeiro do pequeno William um dos pontos mais esperados do retorno.
William
A relação entre Mulder e Scully sempre foi platônica na série. Até a sétima temporada eles trocaram apenas dois beijos apáticos. No final do sétimo ano, porém, um episódio escrito e dirigido por Gillian Anderson mostrou Mulder deitado nu na cama da colega; e mais tarde, no Season Finale, Scully anunciou uma gravidez. Foi uma notícia grande, já que o câncer que a agente desenvolveu acabou com suas chances de concepção. Porém, acredita-se que ao ter seu chip devolvido e o câncer curado, algumas de suas outras faculdades físicas podem ter se restaurado. Além disso, a exposição que Mulder sofrera à entidade alienígena chamada “óleo negro”, aparentemente também mudou parte de sua fisiologia. Assim, o nascimento de William no oitavo ano foi cercado de mistérios. O bebê foi perseguido constantemente e para protegê-lo, Scully decidiu entregá-lo para o serviço de adoção. Assim, a minissérie vai finalmente falar sobre como os dois agentes lidarão com a perspectiva de rever o filho 15 anos depois.
6 – Pistoleiros Solitários
Ainda na primeira temporada, Mulder leva Scully para conhecer três amigos seus que publicam uma revista chamada Pistoleiros Solitários, que tem ideias conspiratórias tão malucas quanto as de Mulder. Eventualmente, eles ajudavam o agente com parafernálias tecnológicas necessárias para as investigações. Por serem muito carismáticos, a Fox topou produzir um spin-off só sobre eles e o projeto foi um imenso fracasso, não durando nem uma temporada inteira. Assim, na última temporada de X-Files, os três ganharam um episódio solo de despedida, onde elementos de sua série individual foram usados para conclusão dos respectivos enredos. A questão é que nessa despedida eles morreram e não posso imaginar porque foram anunciados no retorno. Acredito que apenas num sonho isso seria minimamente aceitável.
7 – O “imortal” Canceroso
Uma das coisas mais geniais de The X-Files foi o desenvolvimento do Canceroso no show. Ele apareceu nos primeiros episódios da temporada sem dizer uma só palavra. Era um homem num canto, fumando ou levando evidências para o longo corredor secreto do Pentágono. Ele só começou a falar no ano 2 e logo ascendeu como o nome principal por trás do “sindicato”. Aliás, o “sem-nome” principal por trás do “sindicato”. O Canceroso era também um amigo próximo dos Mulder e mais tarde, revelou-se que ele teve um caso com a matriarca da família. Não demorou para que fosse revelado também que ele era o verdadeiro pai de Mulder. Inescrupuloso, vaidoso e disposto a tudo para manter sua importância no “projeto”, o personagem começou a perder seu rumo quando Carter passou a “matá-lo” inúmeras vezes. Quando a série terminou, em 2002, o Canceroso surgiu de mais uma “ressuscitação” e “morreu” de novo, dessa vez com direito a fogo queimando até a gente ver a caveira. Não posso imaginar qual será a relevância desse personagem sendo trazido de volta e nem como isso será explicado de modo satisfatório. Mas, o fato é que ele definitivamente estará de volta.
8 – Skinner
O Diretor Assistente Skinner apareceu pela primeira vez na segunda temporada, para ocupar o lugar do chefe mandão que persegue os agentes (esse papel também já foi de James Pickens Jr. que todos conhecemos como o Dr. Webber de Greys Anatomy; e que também foi convidado a voltar se quisesse). Skinner passou anos sendo ambíguo, mas sua paixão platônica por Scully o redimiu de suspeitas a partir do ano 5. Skinner, ainda assim, sempre se manteve no meio do caminho entre a lealdade ao FBI e a lealdade aos amigos. Na oitava temporada ganhou seu nome na abertura, finalmente, e também fez uma ponta no segundo longa, I Want To Believe.
9- Monica Reyes Resiste ao Futuro
Uma das participações anunciadas para a minissérie foi a da Agente Reyes, que é a personagem que entrou na oitava temporada do show – aquela sem a presença de David – para dividir a cena com Robert Patrick, também escalado para assumir aos poucos o protagonismo da série. Ele e Anabeth Gish (Monica), surgiram como uma infeliz ideia da Fox de substituir os protagonistas originais. Dogget (personagem de Robert) e Monica entraram com a mitologia original já resolvida. Então, os roteiristas tiveram que começar a criar uma outra, que foi pelo pior caminho possível. A conspiração dos “supersoldados” (alienígenas formados a partir de cópias humanas, com super força e invencíveis) era uma bagunça e não tinha nada do charme artesanal da primeira. Acredito que nada dela será ressuscitada na minissérie, mas vale lembrar que nenhuma ponta ficou solta (não havia nada de interessante para ser terminado, aliás). Robert Patrick e Anabeth foram chamados para voltar, contudo. Ele não pode aceitar por estar envolvido em outro show, mas ela dará as caras. Monica Reyes era uma agente especialista em ocultismo e tinha um grande apreço pelo trabalho nos Arquivos-X. Ela esteve muito próxima de Scully durante as questões envolvendo William e talvez seja a partir disso que ela retornará.
10 – Os Filmes
Com o sucesso da série em constante ascensão, a Fox permitiu a produção de um primeiro longa-metragem, chamado Fight The Future e situado no hiato entre a quinta e a sexta temporada. O longa é mais saboroso para quem conhece coisas sobre o programa, mas foi produzido de forma a ser compreendido pelo público leigo. Ele é muito cheio de ação e deu importantes passos na mitologia, passos que até irritaram alguns dos fãs. Na história, a descoberta acidental de uma entidade alienígena leva Mulder e Scully até muito perto de algumas importantes provas dos planos de colonização.
Alguns anos depois, após muita pressão dos fãs, a Fox cedeu de novo, mas deu à produção do segundo longa a metade do orçamento do primeiro. E foi categórica: nada de mitologia. Carter precisou pensar numa história independente que fosse sombria, emocional e barata. Ele resolveu então criar uma trama sobre paranormalidade, apoiada na ambiguidade entre fé e charlatanismo, fazendo com que o FBI voltasse a procurar Mulder e Scully (que fugiram da agência ao final da série) para ajudarem no caso. Esse retorno mostrou os dois ex-agentes como um verdadeiro casal, pela primeira vez, precisando lidar com um passado de sacrifícios e perdas. Porém, o filme funciona mais em teoria. O resultado foi frio, previsível e nada acrescentou para a história do show.
Em 24 de Janeiro todo esse universo incrível e maravilhoso estará de volta e agora sim, do jeito que todos os fãs queriam, com uma abordagem incisiva aos aspectos mitológicos que ficaram mal resolvidos e que precisam ser revisitados, já que a data da colonização descoberta por Mulder no Series Finale já passou. A presença dos Pistoleiros e do Canceroso, que já tinham sido mortos no show, me preocupa. Mas, voltar a falar do filho dos agentes, entregue para a adoção, me anima. É como voltar às emoções de ter acompanhado a série no seu tempo… Para mim, inclusive, através da Rede Record, trocando cartas com fãs ao redor do Brasil através de endereços publicados em revistas como a extinta Sci-Fi News. Uma emoção quase artesanal, naqueles tempos impopulares da internet, ansioso com cada vez em que o carteiro apontava na rua.
Essa é verdade definitiva desse top, senhores… A chance de rever The X-Files é épica e emocionante. E vocês ainda têm tempo de se juntarem a nós nessa incrível experiência. Não percam tempo… Devorem o show.
Nos vemos nas reviews.
Forever Excer






















