The Flash entrega um final interessante para uma temporada desajeitada.
Não é fácil comentar a respeito de The Race of His Life, o último episódio da segunda temporada de The Flash. É difícil porque a série criou uma expectativa muito grande para o encontro final entre Flash e Zoom, e apesar de ter dado um desfecho interessante para o vilão, muito do que aconteceu pode ser considerado como um desserviço para o mocinho após dois anos de crescimento e uma viagem para dentro da força da aceleração. Muitos elementos foram jogados para o telespectador. Corrida, revelações “surpreendentes”, uma crise em infinitas terras, reestruturação da linha do tempo, mais mitologia da força da aceleração, e o principal, a prova definitiva de que Barry Allen ainda não é o super-herói que muitos pensaram que este ano o transformaria, incluindo o roteiro.
Zoom não foi um bom vilão. Sua motivação final não representou absolutamente nada do que foi prometido em Enter Zoom. Suas maquinações e ações terminaram por deixar a impressão de que nunca existiu um planejamento antecipado, mas sim que a trama foi sendo encaixada conforme a história estava sendo desenvolvida. É muito fácil associar a motivação do vilão a um dispositivo do roteiro, utilizado para dar sentido após o ocorrido. No início uma ameaça, depois um homem complexo, no final, uma corrida. Com certeza o desfecho foi bem mais satisfatório que o embate contra o Reverso na primeira temporada, mas infelizmente a motivação não soou tão rica assim e as explicações demasiadamente apressadas. Ver Barry lutando, correndo, utilizando a sua inteligência e se sacrificando, compete uma importância muito grande para o manto do herói. Contudo o plano final soa extremamente apressado, criado para entregar um ápice emocional para o último episódio e só. Tivesse o vilão desenvolvido este plano no decorrer de uma temporada, faria bem mais sentido, além de elevar a tensão para a possibilidade de uma verdadeira Crise nas Infinitas Terras. Só que o foco nunca foi bem definido: fazer com que o time desenvolvesse a velocidade 9, curar o Zoom, roubar a velocidade do Barry, destruir todas as Terras, exceto uma, apostar uma corrida.
Porém o aspecto emocional do herói foi completamente compreensível. Após ter se conformado com a morte da mãe, perder o pai com certeza representou uma mudança brusca na compreensão de mundo que Barry pensava que tinha. Explica bem o excesso de otimismo explorado no episódio passado, mas não encaixa tão bem assim quando lembro de sua viagem dentro da Força da Aceleração, em The Runaway Dinosaur. Neste ponto faria mais sentido ter Barry voltando no tempo para salvar o pai e não a mãe, até mesmo pelo impacto que representaria na linha do tempo. Mas a beleza de uma série de super-herói em sua segunda temporada é que não dá para cobrar um comportamento coeso de um homem que tem, literalmente, o poder de um deus nas mãos.
Toda a interação entre o time Flash e Zoom também agradou bastante, até mesmo “casando” com a devoção que Wally sente pelo Flash e justificando sua atitude de libertá-lo do cativeiro. Ouso dizer também que o plano de tentar impedir o Zoom foi o mais inteligente já colocado em prática pela equipe. A utilização do holograma, a ação do Harry, até o uso dos poderes do Cisco ajudaram bastante a dar algo útil para todo mundo fazer. Só me senti um pouco incomodado com o excesso de explicações, porque é um forte indicador do roteiro pouco preparado. Foram várias falas dedicas apenas para salientar o que alguém estava fazendo, praticamente uma legenda para uma conversa dublada. E ainda não me desceu toda a antecipação em cima de uma reunião de velocistas, com Wally e Jesse, para não ter acontecido nada.

Quanto a descoberta da verdadeira identidade do homem da máscara de ferro, não existiu surpresa. É uma pena que The Flash não tenha aprendido nada com a sua primeira temporada. Criar um tipo de expectativa é interessante, mas viver dela não é. Já era de senso comum que aquele homem era o doppelganger do Henry. Foi sim ótimo ter John Wesley Shipp como outro corredor, afinal ele foi o Flash da década de 90, mas a série sabotou a surpresa quando entregou há alguns episódios a identidade do personagem. E o mesmo vale para a antecipação que circulou ao redor do grande vilão. Espero que a próxima temporada não inclua nenhum velocista como antagonista, assim como também prefiro não ter que passar alguns episódios tentando adivinhar a identidade do vilão, montando teorias e criando expectativas apenas para os roteiristas revelarem tudo com uma cena desprovida de emoção.
Imaginar que a produção está disposta a reescrever toda a sua linha cronológica na próxima temporada é um passo ousado. Mas também é um que destrói praticamente dois anos de histórias desenvolvidas e avanço pessoal. Sem a morte da mãe e a prisão do pai, Barry nunca teria se transformado no Flash, Harrison Wells não teria morrido, e vários outros pontos seriam afetados, incluindo para os habitantes de Star City, em Arrow. Exatamente por isso é compreensível que os roteiristas tenham decidido trabalhar esta questão agora. Seria muito mais complicado após quatro temporadas, por exemplo, mas não retira o peso em cima do assunto proposto. Da mesma maneira que a promessa da Terra-2 e de Zoom foram muito fortes, a de uma nova linha do tempo também será. Resta saber se a nova tentativa será mais agradável do que a atual, um pouco decepcionante em alguns aspectos.
É uma conclusão agridoce, que apesar de carregar uma enorme promessa para a segunda temporada, também aproxima cada vez mais The Flash de Arrow, uma série sobre um herói cabisbaixo, carregado de culpa, entristecido e que parece mais preocupado com seus problemas pessoais do que com a cidade que ele jurou proteger. Não vou mentir, como fã de histórias em quadrinhos eu fico muito animado para o que será desenvolvido, mas como telespectador de The Flash, também fico bem preocupado. Ponto de Ignição, que é o nome do arco em que Barry volta no tempo e salva sua mãe, criou toda uma nova Terra, com mudanças significativas para o universo da DC. Este passo foi o início do reboot chamado de Novos 52. Ter essa possibilidade na televisão com certeza é um presente para qualquer fã, mas também é algo arriscado. Quando a proposta da Terra-2 começou eu pontuei que era preciso muito planejamento e cuidado na hora de trabalhar com realidades alternativas. Reitero aqui, lidar com uma mudança na linha cronológica requer preparo e esmero do roteiro. Talvez uma maratona de Fringe na sala dos roteiristas ajude bastante. Eu recomendo. E para não perder o padrão, julgo que a segunda temporada da série foi muito válida, com pontos altíssimos, mas também com outros bem abaixo da média. Então ao contrário do que imaginei, escolho a primeira como minha favorita. E a de vocês?
Easter eggs e outras informações
– Para quem ainda não conhece, recomendarei mais uma vez: vá fazer sua tarefa, leia e assista Ponto de Ignição/Flashpoint Paradox.
– Stephen Amell informou que não tem informações a respeito da influência do finale de Flash em cima de Arrow. Mas que a quinta temporada do Arqueiro Verde será bem mais independente.
– A morte do Flash “resquício do tempo” foi algo muito similar ao que aconteceu em Crise nas Infinitas Terras – que é a segunda parte da tarefa. Lá Barry também terminou se sacrificando para impedir a destruição de todo o multiverso.
– Talvez a existência do evento criado por Barry seja responsável por trazer Supergirl para a Terra 1. Mas eu acho bem difícil.
– Com a mudança na linha do tempo, a terceira e quarta temporadas de Arrow nunca existiram. É pedir muito?
– Barry e Iris se beijaram. Seria uma pena se o Barry voltasse no tempo e apagasse tudo. Ops!
– Zoom não poderia ter criado um remanescente do tempo para apostar corrida com ele e ativar a máquina?
– Olha que interessante. A série inverteu a Terra 2 e a Terra 3. Nos quadrinhos a 2 é o lar da Sociedade da Justiça, e a 3 da Sociedade do Crime. Na série a Terra 2 terminou como um lugar onde todo mundo que é herói na Terra 1, é vilão. E a Terra-3, lar do verdadeiro Jay Garrick, é onde fica a Sociedade da Justiça que (possivelmente) será explorada em Legends of Tomorrow.















