Vou aproveitar a vibe católica para confessar que parei de ler Preacher relativamente cedo. Não porque eu não estava gostando dos quadrinhos, mas porque fui atingido com uma chuva de spoilers e as revelações mais legais que eu poderia imaginar estavam agora estragadas para sempre. Depois disso, acabei ficando desanimado e deixei tudo para lá. E é exatamente por isto que eu fiquei animado com a série. Assumi que seria bacana pelo menos uma vez acompanhar uma adaptação com um conhecimento limitado do material original. Talvez eu gostasse mais de The Walking Dead se não acompanhasse as histórias em quadrinhos. Quem sabe.

Preacher é a nova série da AMC produzida por Seth Rogen e Evan Goldberg inspirada na história em quadrinhos homônima de Garth Ennis e Steve Dillion. Quando o projeto foi anunciado (após diversas tentativas falhadas de uma adaptação) o nome de Rogen empolgou os fãs porque ele parece ser o tipo de idiota (no melhor sentido possível) que se divertiria traduzindo as bizarrices da mente de Ennis para a televisão. Só que é da AMC que estamos falando. O mesmo canal que nos trouxe Breaking Bad e Mad Men, mas que também parece ser comandado por executivos sem qualquer interesse em se comprometer a algo tão ousado. O que acontece aqui é que essa suposição não está muito longe da verdade. A série tira algumas ideias e os arquétipos dos personagens do trabalho de Ennis, mas foge de tudo que tornaria Preacher algo único na televisão.

O protagonista é Jesse Custer, um pastor com um passado sombrio que tenta pregar a palavra do Senhor numa pequena comunidade do Texas. Jesse está perdendo a fé nas pessoas ao seu redor e considerando a hipótese de deixar o lugar. Enquanto isto, nos confins do espaço, uma força celestial escapa e vem em direção à Terra. Essa força é o Gênesis, que acaba entrando no corpo de Jesse e conferindo ao pastor o poder da Palavra de Deus. Com esse poder, Jesse se torna capaz de convencer qualquer um a fazer qualquer coisa em seu nome.

A ideia parece bem legal e elástica, não é? Você poderia fazer algo bem profundo e sóbrio com essa premissa. O problema é que não é essa a proposta de Ennis. E embora eu não esteja exigindo alguma fidelidade com o material original (que, repito, eu abandonei), era de se esperar que ao menos o espírito da coisa fosse o mesmo. Preacher é um dos quadrinhos mais excêntricos e grotescos que existem. A mente de Ennis é extremamente suja e isto faz com que Preacher seja algo imundamente divertido. Se a AMC estivesse interessada em seguir o espírito da obra, a série seria algo como Misfits (de onde saiu o meu amado Joe Gilgun, curiosamente).

Isso acaba gerando o maior problema do piloto: ele se leva a sério demais. E quando não se leva, as coisas não são tão excêntricas. Preacher parece estar lutando consigo mesma para descobrir quem ela é. Se por um lado você tem o surreal e divertidíssimo vampiro Cassidy saltando de um avião com um guarda-chuva, no outro você tem a típica história do homem perturbado que defende os mais fracos e todo esse blá-blá-blá. Poxa, Jesse acaba o piloto prometendo que vai se esforçar para ser o melhor pastor para a sua comunidade quando o personagem deveria odiar o que faz. Ao invés de tentar ser um herói, ele deveria estar começando a sua jornada para encontrar Deus… e matá-lo! É isso mesmo, Preacher é sobre um ex-pastor que quer encontrar o Criador e dar um tiro na sua cabeça. Isso não parece muito mais original e divertido do que mais um dramalhão sobre um anti-herói?

Apesar de tudo, eu me entreti bastante com o piloto porque vejo potencial nos personagens (que são só as camadas mais superficiais das figuras em que eles se baseiam).

Me diverti muito com o Cassidy, porque eu realmente adoro o Joe Gilgun. Mas não me iludo: o cara não é exatamente o ator mais completo do mundo, mas consigo contar nos dedos os atores que conseguem fazer esse tipo de papel de um jeito tão divertido quanto ele. Só não sei ainda como me sinto sobre o sotaque, vou esperar o próximo episódio para ver. É sempre difícil fazer um personagem desse tipo que não seja o favorito da audiência. A sua briga no avião foi ok, mas eu preferia uma pegada um pouco mais crua e com mais momentos de cansaço. Ficou um pouco superestilizado demais.

Achei a Tulip mais charmosa do que a sua contraparte nos quadrinhos, mas isto também faz dela uma personagem muito mais problemática e sem intensidade dramática, já que… pô, ela é o MacGyver. E ela também vem de Misfits! Ela curiosamente fazia uma personagem que eu detestava. Também achei bem chatinho carregarem tanto no discursinho de empoderamento. Se queriam que a personagem chutasse bundas, que só mostrassem ela chutando bundas. Não precisavam mastigar porcamente a coisa e colocar a colher na nossa boca, a gente entende que ela é uma mulher forte (demais).

Coloquei fé no Dominic Cooper como Jesse, mas tenho a certeza de que ele vai ser bem prejudicado pelo roteiro pasteurizado da série. Esse trope do anti-herói cabisbaixo da voz seca que desce o cacete nos rednecks é um saco e não poderia ser mais diferente do que o Jesse deveria ser. É tão chato ficar vendo o mesmo protagonista de novo e de novo. Em algum ponto os roteiristas têm de entender que isso já perdeu a graça e que não podem simplesmente escrever o mesmo anti-herói de sempre e parar por aí como se o jogo estivesse ganho.

Tudo indica que o primeiro ano da série deve continuar na cidade. O que já é uma ideia terrível, porque tira o charme de road movie que combina tanto com Preacher. Me pergunto se essa terá sido uma decisão criativa por parte de Rogen e Goldberg ou uma decisão executiva da AMC. Seja como for, é uma decisão terrível. Fico bastante confuso com isso tudo. Por que aprovariam um projeto baseado numa história em quadrinhos e propositalmente fugiriam dos princípios básicos dela? Sempre apoio as adaptações que se distanciam do material original porque acho genuinamente idiota que as pessoas queiram acompanhar as mesmas narrativas duas vezes, mas está aí um canal que parece não entender as coisas para que compram os direitos de adaptação.

Preacher deve ser uma série bem morna, com sorte. Vou acompanhar com muito gosto para ver como esses personagens vão interagir e se, quem sabe, os roteiristas consigam acrescentar algumas coisas bacanas. Potencial para ser uma das coisas mais estranhas na TV a série já tem, só falta a coragem por trás do pessoal dos bastidores. A única coisa que espero dela, e com alguma sorte não sou o único, é algo divertido e bobo com algumas boas sacadas e excessos. 

Algumas coisinhas: 

– O tema da série vai ser Son of a Preacher Man da Dusty Springfield. É tão óbvio que não sei como não pensei nisso antes.

– Rogen é o maior ativista de canábis que eu conheço, o cara não resistiu e teve de colocar alguém fumando já no piloto.

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