Mais do embate entre Flash e Zoom em um episódio que poderia ter sido melhor.
Como parte de uma sequência direta ao episódio passado Escape From Earth-2 funciona bem. Ele cumpre a proposta de finalizar a viagem da parte relevante do time Flash para a realidade alternativa e entrega bastante do vilão. Porém, se considerarmos as expectativas levantadas a simplicidade do roteiro pode ter deixado um resultado um pouco agridoce no paladar de quem queria ver algo inesquecível. A trama do episódio foi bem simples e sem nenhum grande momento, como foi a primeira com a morte do Deathstorm, Reverb e a aparição do antagonista da temporada. Tanto é que a primeira cena de Escape From Earth-2, com o Zoom correndo pela cidade e deixando mensagens de fogo pelos prédios, foi um dos pontos altos. De forma geral aquele momento e o final com Jay foram os mais visualmente provocantes de todo episódio.
Quem deu um show foi Grant Gustin. Achei a forma com que o ator trabalhou suas duas versões extremamente válidas e bem competentes. Barry da Terra-1 é o herói, o homem que coloca o uniforme e tenta impedir o vilão, por isso sua posição de liderança é mais forte. Já sua contraparte é bem menos confiante e de menos presença do que ele, além de ser extremamente mais nerd. São pequenas mudanças que fazem toda a diferença. O jeito de falar, de se comportar, a constante reclamação e evidente falta de vontade adiciona camadas que separam um do outro. Tudo bem que a série poderia deixar o Flash mais confiante, afinal, estamos presos em um loop de “não consigo” e “você precisa ser mais rápido, basta acreditar” desde a primeira temporada. Troca o disco, roteiro. Desprezando este detalhe, porém, o ator conseguiu trabalhar bem as duas vertentes de si mesmo.
É bem óbvio que esta não foi a última visita de Barry e companhia à Terra-2. Ainda teremos um crossover com Supergirl, já anunciado e vislumbrado durante a primeira incursão no vórtice do tempo e também precisamos lidar com o caso do homem da máscara de ferro. Contudo a sensação de aparente paz deverá imperar durante o próximo episódio, em que o Rei Turbarão retorna e marca a participação do casal Diggle a cidade do Corredor Escarlate. Será mais um retrocesso no arco principal do vilão, mas que se bem trabalhado poderá render ótimos momentos para a série, especialmente quando pensamos o apelo estético de uma série que às vezes é praticamente uma transposição direta das histórias em quadrinhos.
As teorias a respeito do Zoom ficam cada vez mais complicadas, mas já começam a ganhar alguma definição depois deste episódio. O fato de o prisioneiro ter soletrado J – A – Y pode ter inúmeros significados. O primeiro é o mais comum em toda produção: a boa e velha cortina de fumaça, em que o roteiro ou a montagem das cenas deliberadamente apontam para algum personagem em momentos de tensão. É falar do vilão para logo em seguida ter o close da câmera em um dos suspeitos, é mencionar o nome de um aliado como possível traidor para logo em seguida tê-lo falando frases inteiras com dúbia intenção. Toda série faz algo do tipo, mas Flash deu um twist interessante para a proposta. Ao mencionar Jay em um momento em que todos nós estamos acompanhando suas atitudes na Terra-1, a produção não está querendo de verdade a nossa desconfiança para com o personagem, mas sim a descrença que serve para despistar. Quantos personagens com o mesmo rosto realmente existem? Quantas realidades alternativas serão incluídas neste ano? Soletrar três letras não significa a entrega da identidade de ninguém, apenas atiça a curiosidade e nos leva a percorrer outros caminhos.

O mais difícil é ter que dizer adeus para Iris e Killer Frost, duas personagens que apareceram por pouco tempo, mas que conseguiram suprir a falta de uma boa história para as coadjuvantes da série. A impressão que tenho quando penso no papel de Caitlin e Iris durante a primeira temporada, comparando-as com o ano atual, é a tentativa de não repetir o padrão de Arrow em The Flash. Para tentar não criar uma nova situação ‘Oliver e Felicity’ os roteiristas barraram qualquer desenvolvimento para Caitlin e lavaram a imagem da Iris. Se a cientista não recebe destaque, não sobra espaço para torcer por uma substituição do casal. Então entra Patty, saí Patty, surge o casal West Allen e a paixonite por Jay, tudo para nos desviar totalmente de qualquer tipo de pressão imposta por aqueles que torcem por seus casais com mais empenho do que pela trama. Não existe nada de errado nisso, não existe nenhum problema em querer que seus personagens favoritos fiquem juntos, mas evidentemente não é algo que os produtores querem.
O mesmo vale para a motivação do Zoom. Nós sabemos que ele quer roubar a velocidade de velocistas através das dimensões e mais das diversas Terras, algo parecido com o que Homem Aranha fez em seu ‘Edge of Spider-Verse’. Mas ainda não sabemos o que está motivando o vilão. É para ganhar poder? Mas poder para fazer o que? Por enquanto Zoom tem agido de uma maneira bem superficial. Ele é um vilão ameaçador, mas tê-lo apenas por alguns minutos não é o essencial por enquanto. O que os heróis fazem quando não existe Zoom? É nesse momento que The Flash derrapa e acaba entregando fillers pouco intrigantes. Também imagino que existirá um desafio muito grande para a terceira temporada da série. O inimigo com identidade secreta e as teorias a respeito de quem ele realmente é já foi utilizado por dois anos seguidos.
Por mais que eu tenha gostado muito do episódio ainda existiram tropeços durante o trajeto. Se a ameaça do Geomancer estava fadada a terminar pelas mãos de Caitlin e da tecnologia criada por Cisco, por que não o fizeram logo em Welcome do Earth-2? Todo o crédito que Jay poderia ter recebido e toda a história ao redor da velocidade 9 foi desprezada para que Iris e Caitlin encerrassem o vilão em uma cena bem anticlimática. Aquele tempo poderia ter sido utilizado para algo mais relevante. Também existiu uma preguiça bem grande dentro do roteiro, que enfiou o vilão no laboratório por uma mera conveniência. Segurança do laboratório e que foi motivo da meta piada no começo da temporada? Ninguém liga. O que importa é finalizar o problema criado no episódio anterior o mais rápido possível, sem que haja algo que retire o protagonismo de Barry. Ou seja, criar a história da Terra-1 foi só para gerar a cena chocante do final do episódio, nada mais.
Este décimo quarto episódio não supera o anterior, mas continua bem forte dentro da segunda temporada. Obviamente a grande parte do orçamento foi direcionada para Welcome to Earth-2, o que minou consideravelmente a quantidade de momentos de “cair o queixo”. Por enquanto ainda estamos longe do final deste arco, mas já próximos o suficiente do momento em que herói e vilão deverão entregar mais do que apenas alguns diálogos soltos e inconclusivos. The Flash está no caminho certo e tirando alguns pequenos escorregões permanece como uma das adaptações mais fiéis ao material de origem no ar atualmente. Pode não ser aquilo que muitos querem ver, mas definitivamente é uma excelente abordagem do “homem mais rápido vivo”, entre aspas mesmo.
Easter eggs e outras informações
– Na parede do escritório do Barry, na delegacia, é possível ver vários pôsteres de vilões procurados, entre eles a Linda Park aka Dr. Light.
– Patty já é uma CSI de sucesso na Terra-2. Imagino que seu pai não tenha sido assassinado pelo Mago do Tempo nessa realidade.
– Existem várias referências ao título do episódio em outros filmes: Escape From the Planet of the Apes, Escape From Witch Mountain, Escape From New York…
– Cliffs of Insanity é uma menção ao filme ‘A Princesa Prometida’.
– “Whoa, this is heavy”. Cisco e sua paixão por Back to the Future.
– No filme o Homem da Máscara de Ferro o gêmeo do rei tem o rosto escondido forçadamente para que ele não reclame o trono. Poderia aquele ser o gêmeo/doppelganger do Zoom?
– Velocidade 9 é o nome da droga desenvolvida por Vandal Savage nos quadrinhos. Ela confere a quem a utiliza a habilidade de viajar na supervelocidade. Na nona arte a fórmula tem efeitos perigosos para quem a usa, como por exemplo: envelhecimento precoce, exaustão, olhos vermelhos e eventualmente a morte. Na série ela estava conseguindo reativar a cura acelerada do Jay.
– Existe um personagem da DC com uma máscara de ferro e que se adequaria a um item que visualizamos durante a vigem do Barry pela força da aceleração: o anel legião. Andrew Nolan é conhecido como Ferro Lad e faz parte da equipe de Legião de Super-Heróis.
– Nos quadrinhos o Barry aprende a vibrar de forma a viajar entre as dimensões. Agora que as 52 fendas foram fechadas, poderá a primeira tentativa de adentrar a Terra-2 com essa habilidade ser a responsável pela visita ao mundo da Supergirl?
– Cisco chamando a Killer Frost de Elsa. <3















