Seria essa uma series finale?
Como previsto, Code Black utilizou como plot principal em sua Season Finale um caso chocante e interessante, enquanto as histórias dos personagens ficaram em segundo plano. Embora a parte procedural da série tenha impactado e solucionado algumas tramas em desenvolvimento, fica a dúvida se ter feito um episódio cauteloso e sem cliffhanger foi uma decisão inteligente dos roteiristas.
O desconhecimento sobre o futuro da série gera uma questão difícil de ser decidida e julgada: Criar cliffhanger e plots que necessitam de desenvolvimento, arriscando não ter um final fechado se ocorrer o cancelamento ou deixar poucas histórias abertas, sendo aceitável o desfecho como season finale e possivelmente, series finale?
Em minha opinião, devido o cancelamento de The Good Wife e Angel from Hell, e disputando semana a semana os números de audiência com Limitless, Code Black deveria ter feito mais e lutado para valer.
Blood Sport instala o caos já no início do episódio ao mostrar uma explosão no meio de um debate presidencial, trazendo aos cuidados de Angels Memorial um senador, um governador, suas famílias e um homem engravatado em cada canto do hospital. A presença do serviço secreto, retirando quaisquer aparelhos eletrônicos que pudessem tirar fotografia, até mesmo dos médicos, mostrou desde o início que esses pacientes não eram meros pacientes. Continuando a crítica já presente no último episódio, “Love Hurts”, a presunção de que ser rico significa ser tratado melhor e como melhor aprofunda nesse episódio. Alguns momentos como a frase de Angus – “Malaya, é a filha do Senador”- , um dos agentes do Serviço Secreto mandando Leanne mover o Senador para uma “área segura”, que seria longe de outros pacientes e a escolha de Neal pela mulher do governador em vez do zelador, nos mostra que a política não é só capaz de tirar sangue dos candidatos, mas de outras pessoas de fora também. Embora os médicos aparentem terem feito escolhas baseadas apenas em fatores medicinais, paira a dúvida de se esses atos realmente não tiveram influência do status quo. Se fosse uma pessoa qualquer, Campbell teria deixado Neal operar sozinho? Se fossem dois indivíduos ordinários, a escolha de Neal seria a mesma?
Nesse momento Code Black introduz um questionamento presente no cotidiano e que mexe com uma das características que o ser humano dá mais primazia, a moral, e assim, a série ganha um ponto ao usar o caso da semana de maneira extrapolada.
Em segundo plano, o plot de Angus com o Aderall é desenvolvido e abismadamente solucionado. Após 3 semanas utilizando abusivamente do remédio, sua “necessidade” por mais clama e o deixa desorientado, realizando uma ressuscitação cardiopulmonar em uma paciente que não estava tendo uma parada cardíaca e quase contribuindo para a sua morte. Era de se esperar devido tal situação, que Angus ainda tivesse vários problemas decorrido do vício de tomar as “vitaminas”, entretanto, após conversar com Mario e Mike, Leighton aceitou facilmente começar a conversar com alguém e parar de tomar os remédios. Um pouco surreal e estranho? Sim. Mas, além disso, foi um plot totalmente mal trabalhado, surgido em um episódio, terminado no outro, sem causar qualquer consequência grave, ainda que se trate de um dos remédios mais abusados nos Estados Unidos e em constante crescimento na América, afetando jovens e adultos. Por medo de não fechar uma história e se for cancelada ter um personagem no meio de um plot grande, a série infelizmente pegou um assunto importante, que poderia ser exemplar e educativo e transformou em algo fácil de ser contornado.
Por outro lado, o plot de Adderal gerou a Heather um problema e um embate com Campbell. Ironicamente, a série ao tratar dessa personagem, deixou que sua história ficasse aberta caso ocorra o cancelamento, possivelmente por não configurar ainda como um dos principais e não ser amada pelo público. Contudo, o que pode acontecer se houver a renovação, é um desenvolvimento maior de Heather, enquanto Angus e Mario lutam por um plot interessante, visto que já estão solucionando o trauma da morte de Gordon. Achei oportuno focarem nesse lado “ruim” da personagem, encontrando um modo de silenciar a ameaça de um personagem odiado pelo público com outra ameaça, alternando na boca e na mente do público nas áreas de amor e ódio. Acho bem inteligente quando uma personagem consegue se posicionar nessa linha tênue entre o bem e o mau, agindo uma hora de acordo com a moral social e em outra de um jeito totalmente oposto, pois o público adora “odiar amar” e “amar odiar” alguém, ainda mais quando esse dois sentimentos se resumem a apenas uma pessoa.
Voltando a falar de plots mal trabalhados, a crise das enfermeiras foi possivelmente a minha maior tristeza do episódio. Desde o primeiro indício de que Jesse lideraria uma “greve” das enfermeiras, comemorei e fiquei ansioso pelo que ocorreria, e, infelizmente, só veio decepção. O episódio já mostrou Jesse pedindo um aumento de salários, horas extras garantidas e mais profissionais, sem nem mesmo ter antes um desenvolvimento de como surgiu todo esse sentimento mútuo de insatisfação. Tirando uma frase aqui e ali em uns 2 episódios, não houve nada que justificasse esse insurgimento repentino. Ainda assim, minhas expectativas continuaram altas para o que poderia decorrer dessa situação, hipotetizando com os médicos tendo que trabalhar sem enfermeiros, o hospital não conseguindo atender os pacientes, o caos se instalando de uma forma que Code Black não conseguisse caracterizar mais o status quo da série, todavia, fui apresentado a Leanne conversando com Mark e achando uma pilha de dinheiro em alguma coisa relacionada a Silver Lake. Depois de ficar embasbacado por um momento com o que estava vendo e tentando apagar da mente ou pelo menos ignorar, uma mistura de raiva com tristeza ficou em mim. Um plot que tinha potencial para causar reviravoltas no hospital e poderia gerar excelentes cliffhangers e plots twists foi resumido em duas conversas e uma lida em algumas páginas escritas? Por qual motivo? Para que fim? Por medo de não ter um arco fechado caso ocorra um cancelamento? Será que os roteiristas e produtores da série ficaram com as pernas tão bambas assim e possuem outras ideias tão maravilhosas que não puderam arriscar e agora se conseguirem a renovação trarão plots tão promissores quanto esse? Não consigo entender.
E, por último, o plot mais chato e desnecessário da série continua. Já havia reclamado na última review de terem criado rixas entre Grace e Christa por causa da relação das duas com o Neal. Entretanto, esse episódio conseguiu pegar um barco que continha apenas um furo e o afundar até Atlantis. Christa no início do episódio diz para Neal não fazê-la parecer uma “neddy girlfriend”, ou seja, uma namorada que é desesperada por atenção, carente e que fica, por exemplo, mandando mensagens como, “por quê você não me ligou?”, “eu fiz algo errado?”, sendo que o namorado apenas estava ocupado com algo ou tinha esquecido de retornar. Entretanto, no final do episódio, ao vê-lo de mão dada com Grace, após se sentir mal por “ter deixado” o zelador morrer, diz para ele que não quer ser a segunda opção de ninguém. Para aqueles que possivelmente irão defende-la, sim, ele já a amou a ponto de pedir em casamento, sim, foi ela que terminou e não ele, sim, é difícil não ter ciúmes, mas nada, nada justifica ela ter dito que ele o considera como segunda opção apenas porque ele acabou dando as mãos para a ex quando ela o estava consolando. Com isso, além de ser uma trama batida e que não parece encaixar com o clima pesado da série, começou a configurar como um romance teen, cujo público com certeza não é o de Code Black.
Dessa forma, a SF foi um episódio seguro, que não gerou qualquer trama propulsora de ansiedade pela próxima temporada, mas conseguiu fechar uma temporada sólida e interessante. Espero que Code Black seja renovada e que assim, os roteiristas e produtores se soltem e arrisquem, nos proporcionando ótimos plots para discutirmos aqui.
Considerações finais e curiosidades:
– Em um hospital em que há uma recorrência grande de Código Preto, apenas existem 2 cirurgiões disponíveis pro Center Stage? Acho que houve um falha aí.
– Será que Kevin Dunn (Mark) voltará? Gosto bastante dele, mas esse cargo de administração para Leanne está sendo bem trabalhado e acredito que poderá gerar um desenvolvimento pessoal para a personagem e para o hospital.
– Ainda será tocado o assunto de Leanne ter quase saído do hospital? Será que a veremos pelo menos uma vez mais na terapia?
– Guthrie teve uma participação mínima nos últimos episódios. Se houver uma renovação poderemos contar com o ator novamente? Será que ele será melhor desenvolvido?
– Em 3 semanas Angus fez uso de Adderall em uma média aproximada de 2,5 comprimidos por dia.
– “O HVAD é uma bomba de fluxo contínuo, mas em menor tamanho que as outras. Isso permite que parte dela seja implantada diretamente na câmara de bombeamento principal do coração, o ventrículo esquerdo, com o restante do dispositivo sendo colocado no espaço ao redor do coração. Os outros dispositivos de fluxo contínuo disponíveis são colocados no abdômen dentro de uma bolsa criada cirurgicamente.”
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