“Horror” e “Hollywood” começam com a mesma letra… E dividem os pavores de serem crueldade e imagem na mesma medida em Chapter 8.
Hollywood é uma terra de sonhos e de muitos pesadelos também. A cidade da vaidade, da luxúria e do hedonismo é cercada de detalhes trágicos a respeito de si mesma, sempre envolvida em escândalos de sangue e intriga. Numa biografia de Marilyn Monroe, certa vez, li sobre a conclusão de um dos poucos amigos que ela tinha a respeito de como ela estava emocionalmente no dia de sua morte. Ele disse: “Ela não tinha mais vida, Hollywood devorou-a por dentro”. É uma descrição extremada, mas também completamente justa. Sempre pareceu que a dois passos adiante na fama, estava também o abismo da loucura.
O horror sempre foi subestimado porque era imagem demais. Você pode ter um amiguinho que reclama dessa temporada do show porque ela é agressiva demais, violenta demais e geralmente essa é uma impressão acompanhada da ideia de que horror demais representa o mesmo que intelectualidade de menos. E não é um julgamento muito justo, já que nessa temporada onde o horror está sendo apresentado sob os contornos do torture porn, Ryan Murphy encontrou uma maneira velada e esperta de incutir profundidade dramática.
Acho a coisa toda extremamente admirável… Quando a temporada se dividiu entre a “dramatização” e o “reality show”, a equipe de roteiristas viu aí a brecha para que tudo não fosse só sangue e vísceras. Depois que passamos a conhecer os bastidores de My Roanoke Nightmare, vimos como as histórias passaram a ser contadas pelos dois estereótipos básicos da dinâmica entre TV e espectador. Os “retratados” agem como se tudo na televisão fosse maldade e mentira; e os “atores” se acham maiores do que realmente são, espalhando egocentrismo por onde passam, nunca se esquecendo que as câmeras estão em todo lugar.
Horrollywood
O capítulo 8 de Roanoke estava cheio de pequenas referências críticas ao mundo do entretenimento. Algumas vezes de modo claro e objetivo, como quando Audrey vai lamentar a morte de Shelby e com o maior ego do mundo, diz que “é como se tivesse morrido também uma parte dela” ; e em outras de modo velado, como quando Dominic, sempre atuando, despe-se de seus maneirismos e fala a verdade sobre como Shelby morrera. Então, justamente nesse momento, quando ele não atua, os outros não acreditam em sua palavra e o enviam para a morte. É como uma metáfora cínica para como funciona o mundo de hoje: aquele que atua resiste e aquele que diz a verdade, perece.
Essa noção crítica, ácida mesmo, do que a indústria produz sempre esteve presente nos trabalhos de Murphy, mas vê-la contornando os horrores literais de AHSRoanoke é muito instigante. É ele, o suposto prazer da fama, que está presente na história dessa semana de formas transfiguradas. Audrey vê Dominic morto e a primeira coisa que diz é que “ele era um ótimo parceiro de cena, oferecia muito com o que se trabalhar” e quando o desconhecido Jether Polk decide conversar com a mutilada Lee, ele revela sua “mágoa” por não ter sido retratado no “documentário” e seu orgulho por ser descendente de um homem que acabou se tornando uma “lenda urbana”. Mesmo ali, na sujeira, na podridão, com as piores condições, os Polks são parte da América “porque eles têm uma TV”.

O sangue, as tripas, as mutilações, tudo isso está presente, mas até nesses momentos é possível notar como há um pensamento ideológico por trás. O roteiro faz Lee conseguir salvar Shelby, só que não a Shelby de verdade. E mais tarde, a Shelby falsa também esmaga uma cabeça, tal qual sua “personagem” homônima. Essas dinâmicas vão se repetindo o tempo todo, aumentando o senso de competência dramatúrgica provocado pela bifurcação da trama desse ano. Lee, quando expulsa Dominic do quarto, mata o irmão, mas não o irmão de verdade… Monet abandona Audrey, assim como Shelby (que Audrey vivera), abandona Lee (vivida por Monet)… É uma distribuição de camadas maravilhosa, que deixa a narrativa mais inteligente, mais provocativa, afastando qualquer possibilidade de “vazio”.
Piggy Piggy
No episódio 6 da temporada 1 de American Horror Story, o personagem de Eric Stonestreet contava ao psiquiatra vivido por Dylan McDermott sobre seu medo do temeroso Piggy Piggy, o homem com cabeça de porco que matava todos que o invocassem. Nesse episódio, ele conta a história do açougueiro que vivia em Chicago e que passou a assombrar pessoas após sua morte. Anos depois, no episódio 1 da temporada 6 (o exato inverso da primeira menção), o Pigman apareceu de novo no show, dessa vez supostamente afastado da mitologia previamente apresentada. Isso até o capítulo 8, quando as coisas voltaram a convergir.
Jether conta a Lee sobre Kincaid Polk, seu ancestral que fora parar em Chicago e lá acabou se tornando a origem da lenda urbana mencionada em Murder House. Jether também adiantou que Kincaid adquiriu a ideia por causa da Açougueira e seu hábito de colocar uma cabeça de porco em suas vítimas. A história também revelou como os Polks passaram a comer gente. Contudo, nada veio de forma burocrática ou cheia de didatismos. O episódio fez fluir os detalhes em meio aos gritos, as torturas, as linhas invisíveis que costuram essas temporadas a cada novo ano. O que American Horror Story parece preparar é uma convergência impressionante.
Todas as sequências foram de tirar o fôlego. Coisa linda ver os Chens sendo representados como os clássicos fantasmas de filmes asiáticos (tortos, cabeludos e de cara branca), a perseguição dos “monstros” pela casa, a forma incrível como Sarah Paulson vive uma Audrey que chora falando, implorando pela vida e ainda nunca esquecendo de reafirmar seu papel de atriz. Sarah é tão brilhante que me choca… Vimos a Shelby dela em pânico na primeira parte da temporada e era completamente diferente. E a parceria com Adina Porter foi uma grande decisão de casting. Adina já é nossa conhecida de True Blood e está dando outro show.
Continuamos com a violência on point, mas também temos planejamento, referência, correlação, naquela que é, sem dúvida, a temporada mais organizada, mais “simples”, dramaturgicamente falando. E não é curioso que a temporada mais “simples” também seja a mais violenta? Até mesmo o movimento imbecil de Lee em querer voltar aos Polks (de fato para pegar a fita de sua confissão, que ela não quer assumir para o mundo) está conectado a outras coisas: ao movimento constante dos personagens de sempre voltar ao terror e ao argumento preferido de tantos espectadores de reality show: tudo é sempre culpa da edição. Lee matou, mas culpa o programa pelas suspeitas que recaem sobre ela. Enfim, realmente incrível.
A chegada de Dylan no episódio 9 vai encerrar os “três dias de inferno” e ainda acho que há uma grande possibilidade de ainda ser tudo encenação (qual rede de televisão teria coragem de exibir filmagens de gente morrendo de verdade?). Mesmo assim, a notícia de que Lana Banana voltará no Season Finale coloca um alerta de que pelo menos algo daquilo é verdade. Lana deve voltar mais velha, autora renomada, atraída pelas histórias de Roanoke. A volta também inaugura outra tradição: Sarah Paulson vivendo vários personagens numa mesma temporada. Ela sim, a “musa” de Ryan Murphy, a verdadeira Rainha da Porra Toda.
> Veredito da 3ª temporada de Black Mirror!
Roanotes: E a decisão de chamar gente que mora na floresta de Os Outros continua em pauta. Lost, Game of Thrones, AHS… E sempre funciona.
Roanotes 2: Minha amiga Lena Gronchi achou que talvez a Bandeira dos Confederados vista na sala dos Polks seja uma pista da próxima temporada. A bandeira representa um pensamento reacionário e racista e um ano sobre Klux Klux Klan seria um sonho. Mas, estou mais inclinado a achar que é uma cutucada no conservadorismo americano, e uma cutucada no melhor estilo Murphy de ser: comparando seus extremistas a canibais.
Roanotes 3: Adina Porter também já apareceu no show e também na primeira temporada. Ela era uma das pacientes de Ben.
Roanotes 4: Foi com grande alegria que recebi a notícia de que haverá uma temporada crossover entre Murder House e Coven. Provavelmente será algo insano, bizarro e completamente maluco. Ou seja, maravilhoso. E lembrando que Jessica Lange morreu em uma, mas não na outra… Acho que será uma temporada de muitas alegrias.
E sim, ainda acho que é Audrey quem vai sobreviver…















