A Grande Mãe das Sombras.
Em sua série de Crônicas Vampirescas, a escritora Anne Rice incutiu na propagação do “dom negro” um forte senso de maternalismo. Todos vocês devem conhecer ao menos o trabalho mais famoso dela, o icônico Entrevista Com o Vampiro, que foi adaptado para o cinema com Brad Pitt e Tom Cruise nos papeis principais. Porém, há mais de dez outros volumes que continuam com aquela história sobre os renascimentos de indivíduos que abandonam a vida mortal e se tornam recém-nascidos no reino da escuridão.
A transformação vampírica é exatamente isso, um outro “nascer”. A mitologia criada por Anne Rice é a que considero mais coesa no que diz respeito a isso. Ao invés do clássico “mordeu virou vampiro”, as criaturas da escritora só se alastram depois de doarem, elas mesmas, uma parte de si – o sangue – para o “feto” escolhido. É um enlace biológico-sobrenatural. Virar “sangue do meu sangue”. Metaforicamente, aquele novo ser que nasce, tem uma nova origem e uma nova progenitora. Assim, tanto entre os vampiros de Rice quanto no mundo de AHSHotel, sempre há “bebês” novos saindo da incubadora.
Mommy foi mais um episódio preocupado em criar uma teia de eventos que sustentem a dramaturgia da temporada. E também foi um episódio preocupado em traçar uma analogia muito bem definida e necessária para manter nosso envolvimento. Por todo o tempo, vimos as relações maternais precisas e implícitas entre os personagens, conduzirem os acontecimentos que fortalecem a mitologia desse ano. Já se pode vislumbrar motivações claras em alguns núcleos e isso diminui a sensação de aleatoriedade.
Por isso começamos com Alex, a mãe que teve seu filho roubado e luta para sofrer a tão bem-vinda ação do tempo sobre sua dor. Um alívio que não vem e que a faz entender que a vida só será possível em outra perspectiva. Estou bastante intrigado com essa personagem, porque não pode ser que Chloe Sevigny vá fazer uma pessoa normal pela primeira vez na vida logo em AHS. Algo fica me dizendo que não é só isso, embora haja muito valor em vê-la servindo como antítese de Iris, que também perdeu o filho, só que aparentemente por culpa própria.
Foi muito boa a cena entre Bates e Bomer… Fiquei surpreso que os ressentimentos de Donovan com a mãe sejam tantos e tão intensos a ponto dele pedir para que ela morra. Sem dúvida haverá alguma resposta nesse sentido. Na longa cena, Iris se colocou como uma mulher que vê na própria vida apenas o sentido da maternidade, o que foi responsável por fazê-la ficar por ali, com aquele filho que a despreza, cercada de morte por todos os lados. Também havia uma tristeza muito grande na forma como Donovan confrontou-a com a verdade a respeito das razões para tê-lo cedido à Condessa. Ela queria seu motivo para viver, vivo. Após a partida de Donovan do hotel, ela não precisa mais continuar insistindo.
Sally entrou em cena como a “filha postiça”, aquela que tem o laço involuntário com a mulher que tirou-lhe a vida. Sensacional o diálogo das duas, com Sally preocupada que Iris também não fique vagando eternamente no hotel. Foi preciso que Donovan ouvisse algumas verdades sobre a Condessa para que percebesse que o amor viciado da mãe por ele, talvez fosse sua única opção de existência segura. Então, ele decide transformá-la e a possibilidade de ver Kathy Bates como vampira já fulgura entre os melhores cliffhangers da série. Ela trouxe o filho de volta, ele trouxe a mãe de volta. Sally presenciando a ironia daquela justiça poética.
As coisinhas que Donovan ouviu sobre a Condessa vieram da nova personagem. Ramona é a nova Wonder Woman vivida por Angela Basset. Uma das companhias que a Condessa manteve perto de si até que se cansasse. Isso me fez pensar novamente nos livros de Anne Rice, quando a decisão de transformar alguém sempre vinha acompanhada de um imenso amor entre criador e criatura, assim como também vinha cheia de amargura. Ramona quer vingança por ter sido punida ao criar uma companhia pra si… Desse jeito, descobrimos uma das regras da Condessa. Imagino o que ela não pensará da transformação de Iris.
Por fim, Will também acabou sendo contextualizado. Ainda é nebulosa a forma como ele adquiriu o hotel, mesmo com a Condessa ainda morando nele. Creio que Will não tenha chegado até essa posição por acaso. O fato é que mesmo sendo uma imortal, a Condessa está falida, numa daquelas piadas de Ryan Murphy que só confirmam a forma como a cabeça insana dele funciona. Imortal sim, poderosa talvez, rica… nem tanto. A vampira quer somente dar o golpe do baú e depois fatiar o marido gay sem dó nem piedade. Uma das histórias mais velhas do mundo, mas absolutamente revestida de elegância e deboche.
Mommy terminou com os filhos agindo sobre suas progenitoras. Donovan transformando Iris (e passando a ser ele, uma “mãe”), Holden se relevando para Alex, Ramona esgueirando-se contra a Condessa e Tristan sendo reeducado. Hotel cheio de filhotes famintos. E tudo, tudo em convergência com a personagem de Gaga. Isso deixa tudo ainda mais excitante, porque num episódio em que o sangue dela, enquanto criadora, moveu todos os outros personagens direta ou indiretamente, nada sabemos sobre como a Condessa foi criada. Ela é como a Grande Mãe, só que da noite, como se tivesse nascido de uma invocação e andasse entre nós semeando sombras.
Check Out: Naomi Campbell foi vítima do homem costurado no colchão e acabou virando fantasminha de estimação do Hotel. O que raios Sally queria com aquilo?
Check Out 2: Lady Gaga dando uns malhos com todo o elenco, sem distinção de sexo. Achei digno.
Check Out 3: Mostre o que é certo com a coisa errada.















