Laços de ternura.
Muito antes de acabar se tornando reconhecido por seu impecável trabalho na adaptação de O Senhor dos Anéis, Peter Jackson tirou meu sono com um filme chamado Almas Gêmeas (Heavenly Creatures, num título em inglês bem mais condizente com a proposta), em que o amor de barreiras inexistentes entre duas amigas termina com o planejamento do assassinato da mãe de uma delas. A história é real e se passou na Nova Zelândia, em 1954. O filme envereda por uma inesperada exploração do lúdico, ainda que saibamos que o resultado final é uma poça de sangue e 45 pancadas com um tijolo na cabeça de Honora Parker, desferidas pela própria filha, que planejara tudo depois de ser proibida pela mãe de mudar-se com a amiga para a África.
Com um roteiro muito bem embasado, o filme não se nega a reconhecer a obscuridade da mente de Pauline Parker, mas aproveita o “talento” da menina para criar mundos fantásticos, indo junto com ela à construção desses universos. A história dela com a amiga/amante se pauta num amor que começa como qualquer outro, mas que passa a exigir sacrifícios para continuar existindo. E se um ser humano pondera o nível de sacrifícios a que está disposto, geralmente está no conceito de “amor” o mais intenso propulsor desses comportamentos. Matar, então, passa a ser uma concessão permitida se for para proteger o amor, o que é, por correlação, o mesmo que proteger a si mesmo.
Blood Bath me fez pensar nesse longa justamente porque foi tomado desses mesmos impulsos. Ligações paternais e maternais foram desfeitas em cima dessa justificativa questionável da “legítima defesa”. Freak Show fez um episódio de exaltação da morte através da orfandade provocada. “Filhos” e “Filhas” desferindo golpes derradeiros contra os que supostamente deveriam amar acima de tudo, apenas para que suas vidas de privações de juízo fossem mantidas a qualquer custo.
Como Dandy é o maior exemplo dessa analogia, o passado dele foi abordado logo no teaser de abertura. Melancólica, Gloria fazia confissões a um profissional sobre como se apavorava com a perspectiva de ter gerado um criminoso potencial. Como fazem todas as mães, ela escondia extremos recentes, reconhecendo que a busca pelo tratamento mental era uma espécie de “última tentativa”. O problema é que Dandy já atravessou os últimos limites e estava muito claro que não ia ceder.
A chegada de Regina piorou o quadro, porque a morte de Dora é praticamente impossível de ser justificada e mãe e filho precisariam começar a matar todos os parentes que aparecessem. De certa forma, a maximização da melancolia de Gloria (num trabalho novamente genial de Frances Conroy) funciona como uma espécie de percepção definitiva: Não há para onde correr. Ou eles matam Regina ou se entregam. Enganados pela promo, que mostrava uma imagem de Gloria investindo contra a filha da empregada, fomos seduzidos pela ideia de que a matriarca da casa cederia aos impulsos criminosos do filho. Mas, a culpa pela geração daquele psicopata perseguia Gloria e isso, obviamente, era o maior sinal de que a empatia que faltava ao filho, existia de sobra nela.
Os Roosevelts foram realmente uma família de grande influência nos EUA e que manteve um compromisso de perpetuar uma linhagem pura, nem que para isso os casamentos ligeiramente incestuosos fossem necessários. Não creio que haja estudos sérios sobre a produção de psicopatas como resultado de casamentos entre consanguíneos, mas vale aqui a percepção de Gloria a respeito. Então, com uma trilha sonora cheia de ternura, Dandy tem seu último ato de “compaixão” para com aqueles que “sofrem essa existência dolorosa”. Matar a mãe proteje a descoberta de seu maior dom e a livra da obrigação de ser humana, denunciando ou até mesmo matando-o ela mesma. Ficar sem Frances no elenco será difícil, mas a morte de Gloria é uma das coisas mais coerentes que essa temporada já fez.
No entanto, boquiaberto mesmo, chocado mesmo, vidrado mesmo, eu fiquei quando Kathy Bates disse adeus antes da metade do episódio. Eu sabia que um episódio escrito por Murphy ia me reservar grandes momentos, mas jamais achei que teriam culhões para matar Ethel ainda no episódio 8. E que cena INCRÍVEL!! Eu nem sei por onde começar… Acho que as tensões em torno de Ethel e Elsa vieram sendo construídas de modo muito coeso, provando que Freak Show é uma temporada que deu adeus às decisões emergenciais que vimos em Coven. Aqui, o planejamento da trama é muito evidente e os limites atravessados por Elsa e reconhecidos por Ethel estiveram na tela, aos pedaços, desde o início do ano.
De forma muito esperta, Murphy fez com que a dor real de Elsa fosse confundida com suas dores encenadas. Quando eles encontram o rastro de Ma Petite, confirmando sua morte, Ethel constroi o quadro derradeiro em sua cabeça. Ela acha que o plano de eliminações de Elsa inclui qualquer um que roube sua cena e por um senso de dever que não é capaz de abandonar, a mulher barbada decide que já chega de ignorar os desconfortos que aquela vida lhe provoca.
Por mais de 10 minutos, a sequência entre Jessica Lange e Kathy Bates consegue demonstrar a latência dessa relação nos mínimos detalhes. Ryan Murphy fez tudo que queria… Ethel dissimulou suas intenções, acusou de modo velado, depois evidente, levou um tapa e empunhou sua arma realmente disposta a dar um fim naquilo tudo. Porém, no meio daquele discurso todo estava implícito um lamento decepcionado de uma “filha” que percebia os desajustes daquela ligação maternal esquisita. Ela primeiro fala de Elsa como a amiga com quem se sente mal o tempo todo (sem saber porquê), mas que ama do mesmo jeito (também sem saber o motivo), enquanto fica muito claro que ela suporta aquela amizade vampírica apenas porque encontrara alguém que a acolhera como uma “mãe”, do mesmo jeito que o médico que a tratava, a acolhera como um “pai”. As coisas com Ethel eram assim… Ela era movida pela devoção e essa devoção se estabelecia de acordo com o nível de aceitação, de acolhimento. Não podemos esquecer que TUDO a respeito das aberrações é pautado pelo olhar do mundo, pelo sorriso de um terceiro.
Com a mulher barbada realmente decidida a tirar Elsa do mundo dos vivos, ela acabou assinando sua sentença. E se já não bastasse os gritos, as lágrimas, o tapa, o tiro na perna de pau, ainda somos presenteados com Elsa colocando em prática seus talentos de atiradora de facas e acertando Ethel bem no meio do olho. Simplesmente sensacional! A partir dali, então, a dor de Elsa passa a ser ambígua. Metade é teatro, metade é verdade. Para ela, o crime foi motivado pelo desejo de continuar viva, então, ao mesmo tempo em que é monstruoso também é justificável e ao mesmo tempo em que ela encena as circunstâncias, chora lágrimas de verdadeiro sacrifício. Fica tudo assim, do jeito que eu gosto, sem vilões e sem mocinhos, porque não vamos esquecer que Ethel estava disposta ao crime antes mesmo de Elsa. E pra melhorar ainda temos Spencer encomendando um cenário de suicídio com direito a cabeças arrancadas, o que já perpetua o nome de Kathy Bates como a atriz mais degolada das temporadas de American Horror Story.
Toda essa questão com Ethel coloca as fragilidades de Jimmy em pauta, novamente. O rapaz, que sempre teve uma necessidade de seguir modelos e reforçar os valores familiares, perdeu a figura materna e já está lá, desesperado, projetando tudo na nova aquisição do circo. A Mulher Gorda é um clássico dos Freak Shows e o nome citado por Elsa foi o maior ícone desse tipo de “personagem”. Vale a pena, inclusive, dar uma passada rápida nessa história.

Ela nasceu Ruth, mas virou Ima Waddler depois que aceitou seu destino e passou a cobrar para ser observada por curiosos e fetichistas. Ima foi a mulher gorda mais pop de sua época, chegando a fazer fortunas com o que ganhava nos espetáculos. Ela resistiu muito a virar uma atração, mas ao passo em que investia em outras áreas, ganhava cada vez mais peso, chegando a mais de 500 quilos. Quando virou performer, vendia a ideia de que pesava 800 e logo começou a sentir-se mal com isso, passando a comer freneticamente até que alcançasse 815 e virasse uma verdade. Ima tinha uma peculiaridade: ela gostava de ser gorda, tinha espelhos em casa onde pudesse se olhar por vários ângulos e viveu um casamento muito feliz. Sua história como atração de circo é uma das poucas que não são ornamentadas por dores e tragédias. Baby Ruth, como também era conhecida, morreu em 1941, antes de realizar o sonho de chegar a ter 1.000 quilos e antes de ver a decadência total dos circos que a receberam tão bem.
Não se pode saber com certeza quais são os planos de Murphy para sua fat lady, mas percebe-se nela uma certa ingenuidade e pode ser que os caminhos sejam românticos ou simplesmente deturpados. Sobretudo, gosto de ver que o trabalho de recrutamento ainda faz parte da mitologia da temporada, provando que nada mesmo é aleatório.
O último passo na direção dessa jornada consanguínea foi dado por Penny, que com a ajuda das outras mulheres do circo, vingou-se do pai. O discurso girl power de Desi nos trouxe de volta ao mundo insano de Coven, mas acabou sendo descontextualizado. De fato, a decisão de vingar-se do pai colocava Penny absolutamente dentro do miolo dramatúrgico desse episódio. E a coisa toda foi bem bizarra… Se a subida de Penny pelas escadas, toda monstruosa, já soava bem aterrorizante, o nível de crueldade da vingança competia com o quadro. A intenção era matar o sujeito, mas com a interferência estranhamente consciente de Maggie, o homem acabou um pedaço de carne viva, que depois de livre da gosma e das penas, vai estar coberto de cicatrizes. A hora em que Eve tirou as mãos do rosto dele e fez a pele vir junto, foi enervante.
É muito interessante pensar que depois de um episódio como esse, Freak Show vai reajustando sua narrativa para lidar com outros pontos de tensão. Semana que vem as gêmeas voltam ao spot e bem possivelmente, vamos começar a ver o circo sendo desmantelado. A decisão de estacionar no ano derradeiro em que os espetáculos de aberrações se extinguiram, nunca foi casual. Também acho que esse final vai ser de Dandy, que no meio de sua psicopatia, também se comporta como se estivesse em busca de auto-conhecimento. Assim, verdadeiro mesmo, ainda que tomado de lógicas completamente distorcidas. Ao entrar na banheira cheia do sangue da mãe, ele invoca a comunhão perfeita entre as forças que ele pensa que o regem: o “pecado” do “incesto” que o gerara e a consumação do crime que o constituía. Escondido nesse ato, um elogio velado a Gloria. Ao tentar absorver a mãe, ele reconhece sua força. E é como se houvesse perdão no homicídio… Esse é o mundo maravilhoso de American Horror Story… Ternura e vísceras ao som de angelicais melodias.
Oh Gloria: Na sequência entre Elsa e Ethel vimos como a dona do circo conseguiu suas próteses. Foi um momento interessante, como adorno. E o Axeman virou entalhador.
Oh Gloria 2: Apostas para como Dandy vai se livrar de Regina também?
Oh Gloria 3: Não, os números musicais não são o mesmo que Glee. Não, a narrativa não é lenta, ela só é muito melhor planejada que em Coven. Não, eles não estão com medo de matar ninguém. E não, não é pior nem melhor que Asylum, só é diferente.
















