Para aqueles que não ostentam o estranho.
Acho que todos já sabemos que não é uma questão de ter membros distorcidos ou mesmo de não tê-los. Para aqueles que têm algo que transgride a natureza (sim, porque se trata exatamente disso), o olhar do mundo tem uma sombra de curiosidade mórbida que irrita exatamente pelo seu deleite histérico. É como quando paramos o carro no meio da estrada para observar os detalhes ensanguentados de um acidente. O coração acelera, os olhos mostram vísceras onde há apenas sombras, há uma excitação demente nisso, mas ela se manifesta de modo quase incontrolável. A transgressão da natureza é tratada sempre com ojeriza, mas nunca a ponto de abandonar o desejo de continuar tentando desvendar aquilo que somente alguns vivenciam nessa breve existência.
Nem sempre é uma questão de esgueirar-se em busca de sangue… Muitas vezes a curiosidade parte de um princípio abstrato, uma certa busca pela compreensão de sentimentos e sensações, como imaginar a experiência do que se pensa no instante da morte. O ser humano tem uma necessidade sensorial de tentar vislumbrar engrenagens e falo isso porque, infelizmente, o paralelo que American Horror Story fez entre ser uma aberração física e uma aberração social, faz parte da nossa realidade até hoje. Se você tem todos os membros perfeitos, pode até disfarçar sua “disformidade” agindo como um ser humano “normal”. Mas, se você ostenta aquilo que te diferencia, pode até cobrar ingressos aos dispostos a acharem que podem descobrir como é ser você.
Pink Cupcakes foi American Horror Story encontrando a excelência. Sei que esse é o tipo de coisa que vocês já esperam ouvir de mim (que já fui chamado de fanboy do Ryan Murphy), mas se tem uma coisa da qual não me envergonho, é da minha capacidade de me maravilhar com o mundo. Então, digo sem medo que esse episódio me encheu de orgulho, me deixou profuso de emoções e me revirou inteiro de suspensão e melancolia. Foi como embarcar numa mistura de premonição e delírio, enquanto no meio disso estavam as doses venenosas de realidade, oferecidas na forma do mais competente trabalho textual e imagético, como em alguns bolinhos cor-de-rosa.
Por todo o episódio vimos Stanley/Spencer jogar por cima de nós seus planos de transformar as atrações do circo em atrações de um museu. Por uma razão que talvez seja apenas a de tornar visuais algumas opções de futuro que não se concretizem, ou seja, simplesmente uma janela do futuro, os quadros de alguns dos freaks mutilados e mergulhados em formol foram bastante perturbadores. Especialmente o momento em que Bette comeu o bolinho envenenado e morreu, se tornando um apêndice apodrecido da irmã. Quando soube que haveria um personagem de duas cabeças na série eu comentei no twitter que queria muito ver uma das cabeças morrendo primeiro e ficando pendurada na cabeça viva por alguns dias. Pink Cupcakes me deu um gostinho macabro de como seria isso e eu já fiquei contente. Esses pequenos momentos ambíguos de morte ajudaram a sintonizar o episódio dentro de sua proposta de horror com bastante dignidade. Pergunto-me quando o super pênis do caçador de aberrações vai transformá-lo na caça…
Dot e Bette, aliás, que se cuidem, porque além de Stanley temos Elsa disposta a tudo pra se livrar das duas. Acho que a reação da plateia ao número de Miss Mars já confirmou pra nós que Ryan não está mesmo tentando romantizar a figura de Jessica. Elsa é péssima cantora e está sendo tratada assim pelo roteiro. Foi exagerado o momento da rejeição, mas precisava acontecer para manter a personagem na linha da ignorância e do nonsense. Ela não olha para si mesma e prefere eliminar as gêmeas “doando-as” para Gloria, o que já acho uma virada simplesmente sensacional.
Gloria, inclusive, começou a crescer… Tem sido um orgulho ver como os personagens têm sido dignamente tratados nessa temporada. Frances Conroy compôs uma aristocrata perfeita, oscilante entre a ternura e o cinismo, com um tom de voz infantil e uma histeria contida típica dessa caricatura dos velhos ricos. Ela começou seu processo de compreensão acerca de Dandy, que é o que ela mais ama no mundo, mas que perde cada vez mais o controle de seus impulsos assassinos. Toda a conversa sobre o “mal que acomete apenas as pessoas extremamente ricas” foi um deleite e encontra algum sentido histórico sim. No final do episódio, quando ela conversa com Regina (Gabourey Sidibe, essa linda), está tentando, desesperadamente, encontrar alguma responsabilidade em si mesma pelo que o filho se tornara. Sabemos que psicopatia não tem a ver com o meio (ou todos com problemas familiares ou amorosos sairiam por aí matando pessoas), mas sabemos que o meio pode facilitar a psicopatia… Pressinto momentos muito interessantes com Gloria e seu menino matador de gente.
E então temos o momento brilhante dessa semana, aquela decisão narrativa que inunda o episódio de superioridade dramatúrgica… Desiree é a mulher de três peitos. Ela também tem, segundo ela mesma, um “pinguelinho” de homem que faz a diferença (e toda vez que ela fala desse pinguelinho eu morro de rir). Visualmente falando, Desiree é o apogeu da transgressão natural. Ela é um meio-homem misturado com um exagero de mulher. Desiree é uma aberração existindo para ser molestada pelo mundo… E tem o Dell. Todos os membros em perfeito estado. Nada demais, nada de menos. Ele é grandalhão, forte, mas passa por qualquer rua sem atrair olhares de indignação. Ele é o ponto de neutralidade. Anda entre os freaks, mas apenas como um “artista” e não como parte de um séquito de desvios da natureza.
Mas então um dia Desiree vai parar no médico, aquele bem bacana, que trata aberrações como pessoas de verdade. É a primeira vez que ela faz isso na vida, o que só torna o diagnóstico ainda mais doloroso. A mulher de três peitos, vejam só, só tem um exagero bastante compreensível de seus hormônios femininos, desesperados para se imporem num corpo tomado de testosterona. Ela, enfim, é uma mulher completa. Pode engravidar, inclusive. Aquilo que a torna incompatível com o mundo é apenas estético e facilmente removível. Bom, sorte a dela, porque no caso de Dell, aquilo que o torna maldito aos olhos dos outros não sai com uma simples cirurgia.
Vou falar isso de boca cheia: a cena entre Michael Chiklis e Matt Bomer foi uma das coisas mais bem escritas e encenadas que já tive o privilégio de ver. Sobretudo porque Chiklis é conhecido por seu jeito durão e naquela longa cena, conseguiu levar à superfície de Dell, uma ternura e sinceridades que chegaram a me comover. Aquele “Eu te amo” tinha todos os pesares e poréns do mundo nas costas e esses sim, pesam muito mais que qualquer halteres. A dor realmente não é para muitos, mas alguns sabem carregá-la por toda vida. Sim, porque ser diferente tem como parte de sua essência, a dor constante de não estar ajustado ou de simplesmente não ser visto como um. Desse jeito, como no ato de ser observado mesmo. Dell não pode ter quem ama porque não é capaz de assumir sua “deformidade” e aí dói mais, cada dia mais, até que a alma inteira infla dentro do corpo, implorando por uma existência livre, nesse solo que só permite a vida dentro de específicas molduras. É de cortar o coração, e cortou o meu.
Andy, o alvo da afeição de Dell, é um apelo promíscuo. Tipos enrustidos tendem a se interessar por projeções do belo que podem ser encontradas nos guetos. Não daria certo jamais, mas todos tem o direito a fantasia. Quando Desiree descobre que pode ser uma mulher completa, ela perde o que acalenta o coração de Dell: sua parte homem. Ele, apavorado, age com a violência que lhe cabe. Ela, que no fundo sabe o que atormenta o marido, vai pra tenda de Ethel, dando início a essa que já considero uma parceria bastante promissora. Já Andy… Bom, Andy teve um destino bastante “especial”.
Num episódio que privilegiou o texto, esperei que nada de muito horrível fosse acontecer. Já estava bem feliz com a cabeça morta de Bette, quando Andy encontrou Dandy no bar e o levou para o trailer de Twisty (que a polícia não tirou de lá, sabe-se lá porquê). A brutalidade do assassinato do garoto de programa foi um desbunde visual. As roupas sendo tiradas, o sorriso do palhaço aparecendo de súbito, as facadas super-realistas, a mutilação e sobrevida de Andy, a qualquer custo, cuspindo sangue e implorando pela inconsciência. Todo aquele cenário de escuridão humana me fez pensar de novo nos crimes da Família Manson. Na noite em que invadiram a mansão de Sharon Tate, eles tiveram trabalho para assassinar o casal de amigos da estrela. Frykowsky foi esfaqueado 51 vezes e ainda levou um tiro. Abigail Folger também correu pelo jardim da mansão depois de ser muito golpeada e morreu dizendo “Please stop, I’m already dead”. Saber, enfim, que a brutalidade com que se tira uma vida sem NENHUM motivo existe além da representação cultural, pode ser devastador senhores. American Horror Story é uma obra perigosa para espíritos mais fracos…
Depois de um ótimo cliffhanger, chegamos ao fim… Dandy e Dell conectados pela figura de Andy não é coincidência. O assassino e o apaixonado tem latências incontroláveis, que, percebam bem, não são comparáveis por motivos humanos óbvios, mas que tem uma coisa em comum: o julgamento. Lá pelos 9 anos, brincando com amiguinhos no descampado do interior onde morava, um deles, desconfiado do meu jeito meio “delicado”, armou com os outros de me testarem. Fui pego por todos os outros meninos e meninas daquele “pique-esconde” numa situação bem comprometedora. Tomado de pânico, me encolhi enquanto eles se dividiam entre risos e escárnio. Um deles, porém, não riu nem zombou, ele só olhou pra mim, muito sério, e disse assim: “Ele é bicha”… A palavra era feia e eu detestava, mas não era o pior, o pior era o olhar. Nunca me esqueci daquele olhar… Era um olhar que queria ver dentro de mim, para tentar saber por que eu era capaz de tal abominação, pra tentar compreender porque eu era tão pior que qualquer desmembrado, tão pior que qualquer deformado, tão pior que qualquer assassino…
Horror Cupcake: Jimmy e seus dedinhos. Onde estão? Aqui estão.
Horror Cupcake 2: Dandy malhando e seus pensamentos surgindo numa narração IGUAL a que costumamos ver em Glee. Foi o momento Rachel dele.
Horror Cupcake 3: Cada vez mais maravilhado com o uso de canções contemporâneas nos episódios.
Horror Cupcakes 4: Vocês me orgulharam tanto na sessão de comentários, que resolvi abrir um espaço aqui pra sublinhar umas coisas.
@LenaGronchi, que é minha amiga do twitter, tem sido uma espectadora atenta e temos conversado muito sobre as teorias para o próximo ano. O Ryan andou dizendo que as primeiras especulações estavam erradas, então a coisa dos alienígenas pode estar fora da jogada. O HuffPost.TV publicou uma matéria longa nos mostrando a cartola aparecendo nos dois primeiros episódios e a Lena me mandou um print de um momento de Jimmy na primeira semana, que mostra a explosão de uma bomba nuclear ao fundo, reforçando o fato de que essas eram as verdadeiras pistas.



A matéria fala (como o João Victor destacou nos comentários) sobre o que ficou conhecido como Operation Top Hat, uma espécie de operação em campo, com testes de armas químicas e biológicas, que historicamente surge como algo que não foi aprovado pelo exército americano. A Lena mencionou a cartola do Tio Sam recrutando militares, então estamos dentro do contexto. As datas dessa operação e também da insinuação de que poderíamos ver uma temporada sobre as mutações provocadas pelos testes nucleares, ficam todas dentro da mesma década de 50. Lembrando que a Àrea 51 também poderia ser abordada por conta das constantes experiências entre humanos e extraterrestres. The X-Files está cheia desse tipo de material.
Alguns mencionam Lincoln e a possibilidade de falar de vampiros, mas acho que a cartola deve ser mesmo algo ligado às operações militares, já que isso se conecta ao universo de Asylum (como o Marcos destacou ao citar o Arden) e consequentemente, confirma a ligação entre as temporadas. As teorias de contos de fadas ou Alice estão na lanterninha, porque Murphy já disse que tudo vai acontecer nos EUA e será parte da história do país.
Por fim, quero compartilhar com vocês a identidade da pessoa que inspirou a mulher de três pernas da abertura (que sempre me dá calafrios):


Essa aí é a Blanche Dumas, que nasceu na Martinica, em 1860 e se tornou uma famosa cortesã francesa. Além dessa perna extra, ela tinha dois seios extras pendurados ali do lado da perna sobressalente e duas vaginas. Sim, duas vaginas. O melhor disso? Um homem com dois pênis e também com uma perna extra no mesmo lugar, nasceu em Portugal no ano de 1843. Ele tinha também três testículos e dois ânus, e Blanche tentou conhecê-lo.

Um detalhe? Os dois pênis eram FUNCIONAIS e ele conseguia transar usando um só ou os dois. Porém, o que ele costumava fazer era usar um e quando terminava com esse, continuava com o outro. Em ocasiões especiais, usava tudo ao mesmo tempo. É ou não é incrível??
É isso gente, ufa… Até semana que vem.















