Um conto sobre exploração na primeira parte do Halloween de Freak Show.

Lembro-me como se fosse hoje da primeira vez em que vi uma deformidade de perto. Eu era criança e ao passar férias na casa de uma irmã, conheci uma família de vizinhos dela, que tinha um filho que sofria de uma severa hidrocefalia. No nosso tempo, qualquer deformidade física é explicada com uma condição médica, mas o mundo infantil vive num universo atemporal, em que qualquer diferença tem justificativas sempre fantásticas. Aquela imagem me chocou imensamente e dentro de mim o que se debatia era uma junção de nervosismo com compaixão… Mais do que desnorteado pela visão, eu me sentia ferido ao imaginar a perspectiva de viver com tamanha provação.

É até desconcertante admitir certos sentimentos provocados pelos nossos mais mesquinhos instintos de morbidez, mas é fato, eles estão ali. O Museu Médico da Filadélfia, que aparece na primeira sequência desse episódio, é uma das grandes provas de que somos capazes de construir até instituições que sirvam aos nossos distorcidos sensos de voyerismo. Nessa sequência, quando conhecemos os pilantras vividos por Emma Roberts e Dennis O’Hare, o fígado dos gêmeos de Sião (que deram origem ao termo “siameses”), está ali para ser a simbologia emblemática do que significa esse episódio: mesmo tendo sido explorados a vida inteira, sobrou do legado desses irmãos, a exploração derradeira de um simples órgão.

AHS Siameses

Os episódios de Halloween são um clássico de American Horror Story, e quase sempre, invocam figuras históricas ou mitologias já estabelecidas. Em Murder House nós tivemos uma alegoria perfeita do conceito “A noite em que os mortos ganham a chance de caminhar pela terra”,  o que acabou se tornando uma espécie de regra definitiva de tudo que a série fez para celebrar essa data nos anos seguintes. Aqui, vale um pequeno reforço do que representa o gênero do horror, que volta e meia precisa ser reiterado para acalmar os fãs mais relutantes em desligar o programa de um suposto compromisso com o que seja aterrorizante. O horror, como bem se vê na síntese de American Horror Story, é uma junção de fantástico com sobrenatural, de medo com choque, de vísceras com folclore… O horror é uma identidade visual e não tem compromisso com a seriedade psicológica, ainda que a série se permita equilibrar-se entre todas essas coisas.

“… já no gênero do horror há a presença de tópicos sobrenaturais, normalmente ligados a elementos próprios da ficção científica. É o que ocorre com clássicos como Frankenstein. Mas este gênero pode igualmente incorporar temas folclóricos e outros típicos da cultura popular, sendo o maior exemplo a obra Drácula. O horror tem certo parentesco também com elementos religiosos (…) Criaturas são muito presentes no gênero horror, integrantes de uma galeria ancestral presente na cultura oral: lobisomens, vampiros, bruxas e espíritos que povoam o imaginário popular… “ (FONTE: InfoEscola) 

Dito isso, Edward Mordrake foi um episódio quase arrastado, com uma narrativa lenta e estranhamente cautelosa. Uso a palavra “cautelosa” porque acho que diante da insanidade de plots acelerados de Coven, o que vi nessa semana foi um cuidado em estabelecer as motivações dos personagens que já conhecemos, de tornar a trajetória deles mais cheias de detalhes e de estabelecer uma ligação entre eles e a audiência. Usaram para isso o trabalho fenomenal de Kathy Bates, que já no seu primeiro momento em cena (no diálogo com o médico) deixa claro o que é capaz de fazer. Me julguem, mas quando aos prantos, ela diz para o doutor que ele foi o único a tratá-la com respeito por toda a vida, eu me comovi de verdade. E por uma razão simples: dois segundos me colocando no lugar de alguém com uma diferença desse nível, e qualquer limitação vai ser praticamente palpável.

A melancolia de Ethel tem uma natureza muito dura… Por causa de um homem, ela foi tirada de um ambiente onde se sentia ajustada e jogada numa espiral terrível de exploração daquilo que a tornava diferente dos outros. Dell tem se revelado uma das piores figuras masculinas que a série já construiu, com sua disfunção erétil de razões claramente psicológicas e seu passado de frieza social, vendendo o parto do próprio filho para um show improvisado no meio do mato, numa das coisas mais tristes que já vi American Horror Story fazer. Um episódio e pronto… Ethel já está montada, cheia de substância e humanidade, mesmo que em dado momento da trama, ela receba a visita sobrenatural de Mordrake. Sim, porque os elementos aparentados do horror precisam voltar a pauta, sempre.

Sem dúvida o papel de Edward nesse episódio duplo vai ser mais efetivo na segunda parte e mesmo achando Bates fantástica em seu monólogo narrativo, não recebi bem o argumento jurídico do fantasma, que deu à Ethel a chance de contar sua história apenas como um artifício do roteiro para que ela pudesse fazê-lo. Mordrake é um dos casos mais assustadores de deformidade científica de que se tem notícia. Ele é real, tinha um título da nobreza inglesa, modos aristocráticos e um segundo rosto na parte detrás da cabeça, que tinha olhos, nariz, boca, que não comia e nem bebia, mas tinha a ASSUSTADORA capacidade de rir e chorar.

AHS Edward

O jovem realmente achava que seu segundo rosto tinha propriedades demoníacas e que sussurrava coisas terríveis para ele. Suicidou-se aos 23 anos, não aguentando mais conviver com tamanho sofrimento. Pediu que a face fosse arrancada de sua cabeça antes de ser enterrado, por medo de que ela lhe assombrasse no além vida. Toda a parte do papel dele na mitologia dos circos de horrores foi inventada por James Wong para o episódio, mas a atmosfera que o roteiro busca com essa junção psicológica e sobrenatural é a de que a exploração é, em qualquer instância, condenável. Edward vem para levar algum deformado, porque embora ofereçam “lares” aos freaks, ali eles também são usados para ganhar dinheiro. É uma conflituosa relação de acolhimento e servidão, que impede qualquer clareza na condução daquelas vidas.

Tivemos também a chegada de Esmeralda ao circo… Emma esteve muito bem na sequência com Jessica, mas precisamos esperar mais. A personagem escolheu bem como manipular Elsa, levando-a achar que o destino lhe reserva mais aplausos. Outro número musical aconteceu, o que vai levar mais alguns detratores a invocarem Glee pela enésima vez. Só tenho a dizer que é uma pena que as inserções musicais, totalmente diferentes do gênero musical, sejam reduzidas a uma tola comparação com um outro produto do mesmo criador. E vale dizer que Elsa não canta para que adoremos Jessica Lange, mas sim para que vejamos como a personagem está enganada sobre si mesma.

Por fim, lá estava Dandy querendo brincar de Palhaço Assassino. Conversei muito com algumas pessoas e várias teorias sobre o palhaço surgiram. A mais promissora delas é a de que ele quer destruir o circo, atribuir a ele a culpa pelos assassinatos, e no meio do percurso, conseguir uma plateia que possa aplaudi-lo. Achei a fantasia de Dandy igualmente assustadora e ainda considero esse plot um dos mais preciosos para manter a série dentro de sua proposta de conduzir o desconforto e o medo através do apelo visual.

Semana que vem teremos a parte dois… Acredito que a racionalidade muito forte dessa semana prepara o terreno para um possível caos. Desconfio que a noite de Halloween será um imenso questionamento de até que ponto os freak shows são maneiras de dar ao deformado um lugar no mundo, ou são simplesmente um imenso e disfarçado leilão humano. Edward Mordrake vai de tenda em tenda tentando descobrir o que separa um impulso do outro, sem saber que aquele que deveria ser sacrificado é Dell, o único que não tem deformidades físicas, ainda que tenha a pior delas: a deformidade emocional.

Pepper’s Thoughts: Meep e seu enterro peculiar, com cabeças de frango homenageando sua estranha partida. 

Peeper’s Thoughts 2: Dora vestida de Pica-Pau e arrasando com Dandy. Não sei ainda o que está por baixo da subserviência de Gloria, mas estou ansioso para descobrir. 

Pepper’s Thoughts 3: Michael Chiklis e Angela Basset numa cena simplesmente espetacular.

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