O mal incondicional.

Spoilers Abaixo:

Embora não pareça à primeira vista, existe em todos nós um medo maior que o da morte. É o medo do sofrimento. A morte, em perspectiva, é a finitude do sofrimento. Não tememos o momento do fim, tememos a consciência dele. Esperamos, nos nossos sonhos coloridos, que a morte venha durante o sono, num acidente inesperado e súbito, na hora, de surpresa. Ninguém almeja a consciência da morte, porque ela é que gera o sofrimento. Quase sempre, também, são os seres humanos os provocadores dele. Por isso o nosso medo infantil do escuro, do estranho alguns passos para trás, dos barulhos no quintal… Sabemos que não há maldade maior sobre o solo da Terra, do que aquela que vem do homem.

Dito isso, o quão apavorante seria se o mal, esse que nos agride com crueldade, fosse nato? Tudo que mais pedimos ao cosmos é que possa haver um sistema de prevenção contra a maldade. Tudo que queremos é que a organização da sociedade possa impedir a criação de monstros que nos espreitem na madrugada. Se o mal, entretanto, for nato… Se ele for como um traço inerente e incontrolável – como o de ser hetero ou homo – da natureza de cada um… Se ele for assim, o que se poderia fazer para evitá-lo? Nada. Apenas torcer para não estar na hora errada e no lugar errado. E senhores, por Deus, essa é uma realidade mais assustadora que qualquer filme de terror.

Então eu me sentei em frente à TV para assistir ao episódio 6 de American Horror Story. E nele vi, através das próprias mãos do criador Ryan Murphy, 42 minutos de uma imensa analogia em cima dessa questão. E eu não tenho nem palavras… Eu peço até desculpas, por que não é profissional derramar-se sobre um texto que deveria ser crítico, mas eu estou impressionado… Eu estou definitivamente impressionado. Foram 42 minutos de um nível de inteligência e filosofia, de um nível de força dramatúrgica, e de arte. Arte no meio de camadas lodosas de sujeira, mas arte da melhor qualidade.

Para falar das origens da monstruosidade, nada melhor do que mergulhar no âmago de cada um desses “monstros” que circulam dentro e na periferia de Briarcliff. E tomar, também, como exemplo, a chegada de uma forma de mal mais do que inconcebível aos olhos do mundo: o mal infantil. E que é só mal, e não força possessiva. Notem que para deixar isso muito claro, o demônio não poderia estar em Jenny, porque já estava em Mary. E ela não poderia ter os mesmos traumas de Thredson, porque tinha mãe. Tinha uma família. Ela era o mal, só o mal.

Não existe palavra mais adequada para o encontro entre Jenny e Mary do que “genial”. O encontro entre o mal nato e o mal possuído. Quem melhor para confortar Jenny perante sua natureza, do que aquele que melhor entenderia o impulso do mal? E o texto é direto, fala de impulso, natureza, e faz o diabo em pessoa se perguntar por que o direcionamento natural do indivíduo tem que ser julgado como nocivo? Enfim… É bem a cara do capeta esquecer que a ética da natureza pessoal tem seus limites na forma como trata o próximo.

O diálogo entre Jenny e Mary também invoca uma questão mais que interessante: A escritora Anne Rice (que todos conhecem pelo livro Entrevista com o Vampiro) tem uma obra curiosa chamada Memnoch em que o protagonista Lestat conhece o diabo em pessoa. Menos assustador do que Lestat achou que seria, o diabo quer a ajuda do vampiro para livrar-se do grande peso que lhe foi conferido por Deus: o de ser o vilão. O diabo não quer mais isso, e quer que cada pessoa tenha o direito de seguir seus próprios instintos (motivo pelo qual ele mesmo foi banido do paraíso).

O livro é fantástico e foi impossível não pensar nele enquanto via Mary tentando fazer aquela menina se sentir bem com as atrocidades que cometeu. Com esforço, é possível ver alguma verdade em qualquer defesa argumentativa. Por isso esse episódio é tão especial, porque ele deu uma voz a cada um daqueles monstros. Uma voz que parece terrível de ser ouvida, mas que está ali, cheia de razões para existir, querendo seu lugar no mundo, seu papel e sua fatia nessa maluca sociedade.

O primeiro bloco já foi mais pesado que muito filme de duas horas visto por aí. Tivemos a volta ao presente, que foi muito adequada para uma semana em que se fala das origens de alguma coisa. Ainda não dá pra saber, mas parece que o “futuro Bloody Face” pode ser um reflexo do velho Bloody Face”. Essa retomada das imagens do presente (com direito até a um bom cliffhanger) serviu para voltar a trama aos eixos iniciais, deixados em hiato para a maravilhosa história de Anne Frank.

Embora tenhamos tido muito foco no monstro maior, Thredson, deu pra falar um pouco de Arden e Timothy. E por mais que eu queira evitar não consigo não elogiar também o impressionante trabalho de edição do episódio. A direção é fantástica, mas a edição acaba ganhando destaque, porque é ela que monta a história do modo mais interessante de ser contata. E aqui, nesse momento, ficou muito claro que a intenção era sobrepor o monstro Timothy com o monstro Arden. Para isso, ótimos flash-backs e cortes certeiros, que nos tragavam de uma fala emblemática de Arden, para o assassinato de Shelley. Cada monstro na sua motivação, e eu fiquei até surpreso com a de Arden, que parece mesmo se achar um visionário. Não deixa de ser interessante que para ele existam seres humanos sem nenhuma razão de existência. De um punheteiro a um judeu, sem distinção. Timothy é que é só um covarde, no fim das contas…

E essa monstruosidade, tão vigente no episódio e nessa review, não dizia só respeito ao mal físico. Em certo aspecto, havia muita obscuridade em Jude. Claro que a dela permaneceu no limite do aceitável, mas esteve ali, sempre. Assim como a de Lana, que só foi escolhida para estar nessa terrível situação porque sua ambição nunca conheceu o medo ou a ética. No caso das duas não existem justificativas para os castigos que lhe foram proferidos, mas com sutileza, o roteiro dessa semana encarregou cada um de suas mazelas.

Sei que alguns podem ter achado que o discurso traumático de Thredson foi um pouco clichê. Porém, serial killers estão sempre em busca de representação. É parte deles. E as mães estão no topo. É repetitivo e sim, clichê. Mas também é adequado. E no caso dele, foi conduzido com muito cuidado, muita segurança, tratando de compor o quadro do Bloody Face com até mesmo certa poesia. A cena em que ele pede o colostro do seio da “mamãe” e começa a sugar de Lana, já é uma das decisões cênicas mais lindas e perturbadoras da história da TV. Eu vibrei! Foi um clímax tão absoluto e brilhante… Foi como a convergência de tudo. Tudo que veio sendo contado desde que o episódio começou: Ele era um serial killer, que estudou psiquiatria, que por isso se entendia muito bem (num nível que também invocou a psicologia de Dexter) e que buscou mulheres que o conduzissem, de toda sua loucura e vício, para aquele momento… O momento de finalmente sugar a seiva da vida. Coisa de gênio…

No final de tudo, ficou uma sensação de cansaço. Esse episódio foi tão intenso, tão massacrante mentalmente, que acabou se tornando não uma experiência comum de simples espectador. A impressionante bagagem discutida por Ryan Murphy fez com que esse parecesse um exercício de escrutínio emocional. Eu me senti invadido, remexido, quase violado. E por isso mesmo, só admirei  essa série mais ainda. Ela é um incômodo que a gente não esquece, exposto por mais que a gente ignore, e morbidamente necessária.

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