O exorcismo de um conceito.

Spoilers Abaixo:

Na primeira temporada de American Horror Story, tivemos no episódio quatro, um divisor de águas. Escrito por James Wong, o episódio de Halloween mostrou uma maturidade narrativa ímpar, e foi determinante para provar que estávamos diante de um produto de extrema inteligência. Dividido em duas partes, o episódio é uma aula de condução dramatúrgica e trabalhou em cima da irresistível premissa de que nessa noite de 31 de Outubro, os espíritos e demônios tem passe livre no nosso mundo. E inclusive, podem sair de suas prisões físicas (como a casa assombrada) para perambular por 24 horas.

Dessa vez, o episódio de Halloween apareceu logo na segunda semana, e também escrito por Wong, insistiu na premissa, mas enriqueceu-a, providenciando uma metáfora analógica que só mostrou que essa série é realmente impressionante.

Na noite de 31 de Outubro, as crianças batem às portas dos vizinhos e ameaçam-os com travessuras caso não recebam os doces de direito. Para algumas culturas, a comemoração pagã também representa expurgação. No episódio em questão, essa noite representa ameaça, travessura, expurgação e dominação. E para cada um desses conceitos, um personagem. Costurando tudo, uma noção sutil, mas perceptível: a traição é circunstancial, e possui como uma força, o espírito de todos nós.

Começamos exatamente de onde paramos na semana passada. A namorada de Leo grita e Bloody Face a persegue. Adam Levine parece que realmente vai se despedir da série, já que se torna uma vítima dilacerada do assassino. No entanto, essa insistência em mostrar os eventos do presente, pela primeira vez não soa aleatória. Tudo ganha outra profundidade quando as batidas de Bloody Face na porta da sala onde a garota se esconde, se transformam nas batidas que assustam a amante lésbica de Lana, em 1964. Esse teaser acaba nos revelando que Bloody Face está a solta, ainda atacando mulheres, e que, portanto, não pode ser Kit, que está preso no manicômio.

Aqui vale a pena ponderar a questão. A aparição do maníaco fora da instituição e com a mesma aparência dos eventos em 2012, abre a discussão para a possibilidade de que essa presença tenha a ver com a premissa de liberdade espiritual da noite do Halloween. De certa forma, essa reviravolta apenas pincelada, deixa a trama ainda mais confusa, porém ainda mais interessante.

O episódio dessa semana foi muito mais sombrio e assustador, mas menos psicodélico. Tivemos mais profundidade psicológica e menos recursos visuais sanguinolentos. James Wong encontrou o tom certo, priorizando as nuances entre os personagens, e estabelecendo que diante de tantos comportamentos velados, só mesmo o demônio pra trazer tudo isso à tona.

Com isso, finalmente descobrimos um pouco sobre o personagem de Zachary Quinto. O psiquiatra Oliver chega até o manicômio para diagnosticar os problemas de Kit. É claro que como todo cidadão formado pela ciência, ele é cético. Para ele não existem manifestações sobrenaturais e sim artimanhas da mente… Oliver chega, analisa Kit, forma seu diagnóstico, e cria um antagonismo com Jude. O problema é que ele não poderia imaginar que justamente naquele dia, alguém ia bater na porta ameaçando com travessuras. E esse alguém seria o próprio demônio.

Embora as referências ao filme O Exorcista estivessem muito presentes, o episódio conseguiu captar sua própria identidade, o que é primordial para não produzir uma paródia. American Horror Story não pretende fazer ninguém rir nesse momento, e não faz. O que acontece é um vislumbre com o verdadeiro terror, em toda a sua plenitude. O jovem interiorano Jed, que uma vez possuído se alimenta de tripas de vaca, encarna o capeta com uma competência única, e ele faz o serviço completo, demonstrando poderes que já vimos, e alguns outros.

Jed faz como Reagan no filme dos anos 70, e traz tudo que estava escondido à tona. Indispõe Jude com o objeto de seu desejo, e nos revela algumas coisinhas sobre seu passado. Tudo com o mesmo deboche demoníaco já conhecido. A sequência é intensa, voraz, nervosa, e explode num clímax fantástico, com Jude esbofeteando satanás e em seguida, assistindo o apogeu de seus poderes.

Nesse momento, as celas se abrem, e Lana sai para um encontro com sua humanidade falha. Para compor esse quadro, uma luz vermelha fantástica. E então nos deparamos com a tentativa de fuga dela com Grace, interrompida pela intromissão de Kit. É curioso notar que toda a angústia de Lana no episódio se apoiou em seus sentimentos de amargura perante o que fez sua amante. Para Lana, ela foi traída e não passa pela cabeça dela nenhuma teoria que justifique aquela atitude. Ela se elege a maior vítima de todas. Mesmo assim, Lana toma a decisão de denunciar a fuga de Kit e Grace, e de não só fazer isso, como também omitir que o plano de fuga era dela.

Arden também mostra suas vulnerabilidades, se é que podemos chamar assim. Após um momento de flerte com o mito da Branca de Neve – muito bem posicionado no episódio – vamos entendendo que sua relação com as freiras tem um detalhe especial. Arden tem um longo histórico de distúrbio comportamental, e quase faz mais uma vítima. É interessante notar também que Shelley representa um papel importante de contraponto dos problemas dele, porque Shelley é uma mulher que gosta de sexo, o que para ele é insuportável. Arden gosta do flagelo. Sua carreira psicótica, no entanto, pode estar ameaçada definitivamente, já que numa virada genial, a irmã Mary pode ter se tornado o novo receptáculo de um hóspede muito indesejado.

American Horror Story termina com a constatação de que os pedaços podres daqueles personagens não se mostram sem um ritual de expurgação, enquanto Mary, a única aparentemente livre de pressões psicológicas, acaba sendo, ironicamente, a única vítima possível de manipulação. Tornando-a uma presença ainda mais poderosa na série.

Episódio 2: segundo round de uma capacidade impressionante de demonstrar complexidade. As camadas dessa série são tantas que qualquer texto sobre ela não poderia ficar menor do que isso. E é  engraçado, porque olhando de longe, sem atenção, essa parece uma obra isenta de qualquer profundidade, dedicada apenas à luxúria, ao desejo, à intriga, à mentira, ao consumo… Mas o quão fantástico não é quando pensamos que de longe, sem atenção, também somos todos criaturas formadas pela mesma premissa.

Interno 1: Shelley foi ótima na cena em que conta sua história, mas a piada com o pepino foi de respirar e dar uma risada relaxada.

Interno 2: Pepper continua tirando meu conforto com a vida. O que é aquilo, meu Deus?

Insane Us: Um reino para saber como é a técnica de Jude para conter a masturbação crônica.

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