A cilada da abordagem apocalíptica.

Spoilers Abaixo:

O episódio dessa semana poderia ter sido muito aceitável. É claro que essa aceitabilidade, dentro do que estamos vendo por aí, já seria uma grande vitória para o programa, mas infelizmente o roteiro decidiu eleger para esse episódio o último dos grandes clichês ainda não abordado: a trama apocalíptica. E eu torço com todas as forças para isso ter sido apenas um mero flerte. Um cliffhanger vazio de intenções, que existiu naquela cena final apenas para encerrar com tensão um episódio ligeiramente irregular.

Quando Viv foi internada num hospício semana passada eu já sabia o que a série estava pretendendo com isso. Minha enteada, que hospedada em minha casa está revendo Nip/Tuck, comentava sobre Sean enquanto assistia a um episódio. Sentei para assistir ao trecho e percebi que tanto ele quanto Christian tinham muito do que vemos em Ben. Aquela perversidade sexista regada de muita fraqueza de caráter e dúvida. E é com esse tipo de personagem que Ryan Murphy e sua equipe (quase toda oriunda de Nip/Tuck) gostam de trabalhar. Por isso, nada mais providencial do que expulsar Viv da casa, para transformar Ben na grande ferramenta de encerramento dessa reta final. Portanto, reside aí o primeiro dos meus descontentamentos.

Nem ele e nem Viv são bons protagonistas, realmente. No entanto, na interpretação de Connie Britton há mais camadas que na de Dylan McDermott. Ele se restringe a cumprir a cartilha entregue pelo time de Murphy e repete os mesmos maneirismos dos astros de Nip/Tuck. O roteiro, apesar disso, teve o cuidado de respeitar o que seria uma espécie de “amadurecimento” do personagem, e pelo menos fez com que Ben mantivesse ao menos uma de suas promessas e resistisse às tentações. Com isso, começou a ver Moira como ela realmente é. Ponto positivo pro episódio, mas totalmente suprimido pela constrangedora cena dele esperando pelo segurança com aquela mesma cara de poderoso, em meio ao cenário ridículo de meia-luz, janelas fechadas e fumaça de cigarro. Ben é pernóstico e isso me irrita muito nele.

O Sr. Harmonn teve que dividir as atenções com mais duas personagens essa semana: Constance e Hayden. As duas muito bem defendidas e com histórias interessantes. Eu me diverti mais com Hayden, que começou o episódio ótima, dizendo pro cara que estava transando com ele só pra saber se ainda era capaz disso com alguém vivo. A moça tirou o dia para experimentar tudo que ela podia fazer mesmo estando morta e eu a amei aparecendo de supetão para a irmã que procurava por ela. Ela continua exercendo seu papel de manipuladora muito bem, embora ache que há de se ter cuidado para que ela não passe da medida.

Constance é aquilo, não tem como não ser ótima. Jessica Lange é tão segura e inteligente que faz com que a louca seja a única personagem que realmente demonstra todas as suas motivações da maneira mais clara e ao mesmo tempo, mais sutil.. Ficou encarregada de lidar com o fato de Tate ter engravidado Viv, mas aí começa o que considero ser o grande problema do episódio.

O forte de AHS era justamente o ambiente catalisador de medo e horror, proposto pela casa. No fundo, até o fato dos personagens mortos estarem presos a ela, reforça essa sensação de claustrofobia espectral. Assim como nas obras de Stephen King e nos filmes de M.Night Shyamallan, o importante não é o âmbito geral e sim o específico. O contrário dos filmes-catástrofe, que lidam com o todo. Eu realmente não acho que vale a pena lidar com o bebê de Viv como o anticristo. Essa super importância não combina com o time de losers mortos e vivos que rodeia a série. Tate criaria no máximo uma aberração genética, e não o anticristo. Essa noção de filho do mal é incoerente com a estrutura da série, que fala do mal que brota dos seres humanos, de suas escolhas e decisões. Um mal produzido pela vida e não advindo de um conceito religioso. Todo aquele papo de “o segredo do fim do mundo” foi ridículo. Essa é uma mistura que empobrece a série, assim como Tate ser o Rubber Man, empobreceu.

Espero que tudo fique por aí mesmo e não passe de menção. Essa coisa de anticristo parece ter nascido de uma necessidade tola de dar uma explicação para a gravidez de Viv, quando na verdade pouco interessa o que vai sair da barriga dela.

Temo verdadeiramente pelo que veremos no finale, porque enquanto eu entendia que o importante era como aquela família sucumbiria a um destino mortal certeiro, os roteiristas entendiam que a casa precisava surgir como celeiro de teorias apocalípticas. Pelo menos pra mim, não poderia haver decisão pior.

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@Haddefinir

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