O verdadeiro embate entre evidências e narrativas.
Me lembro que quando eu era criança, minha mãe repetia uma máxima sempre que estava no meio de uma conversa sobre mentiras. Ela dizia que o grande problema do mentiroso era que quando ele precisasse contar uma verdade, ninguém lhe acreditaria. Era algo absolutamente simples, mas profundamente verdadeiro. Uma vez flagrado, o mentiroso perderia o direito a sinceridade, ainda que tivesse alguma intenção de exercê-la. Os seres humanos, como é de costume, tendem a restringir o mundo em duas cores e paga quem corre o risco.
A força do roteiro de American Crime Story me surpreende a cada semana. Jamais vi um crime sendo retratado na TV de forma tão completa, instituindo um panorama cultural e social de uma época que julga o caso como se fosse um membro do júri. As artimanhas desse crime são tão absolutas que quando olhamos para ele panoramicamente, levamos um susto. Los Angeles estava tomada de tensões entre a polícia e os negros, tanto que o outro ótimo teaser de abertura mostra Johnny Cochran sendo algemado na frente das filhas, sem razão nenhuma, apenas porque dirigia por um “bairro branco”. A instituição policial daquela cidade estava afundada numa lama de injustiças… Mas – vejam só – dessa vez no que diz respeito a OJ Simpson, a polícia estava falando a verdade.
De forma incrível, The Race Card foi um episódio que colocou Cochran e Darden no centro dos acontecimentos, justamente porque seria a “cartada racial”, o que os aproximava e rivalizava. Cochran foi chamado para conduzir uma narrativa em que a polícia da cidade, de novo, tenta algemar um homem na frente de seus filhos. Darden foi chamado para mostrar evidências que por si só seriam suficientes para condenar um homem a morte. O grande problema é que essas evidências foram colhidas pelos mesmos policiais que Cochran estava determinado a vilanizar.
Por todo o episódio, direção e texto se conduziram nessa dinâmica de comparações de forma brilhante. Me desculpem, não quero ser repetitivo nem deslumbrado, mas o texto, a direção e a montagem da série beiram o chocante, tamanha a sua competência sensorial. É de grudar na TV, de ficar louco para não perder nem uma frasezinha. Justamente porque não é só uma narração de um crime, mas é a formação de um estatuto atmosférico, com defesa e acusação duelando numa guerra intelectual que quem vence é a mídia. Vendo a série, inclusive, fica muito claro que Johnny Cochran se dava melhor porque jogava com as impressões do público. Sim, ele tinha razão… Ele contava “a melhor história”.
O grande exemplo disso é a sequência impressionante na ocasião dos Opening Statements, quando Darden tenta convencer os presentes a esquecerem que há uma questão racial envolvida, porque focar nela obscurece o que realmente importa: as evidências. Contudo, enquanto ele declama sua prosa racional e prática, já é possível desvendar qual será a resposta de Johnny, que quando vem, vem brutal, esmagadora. É claro que a questão racial borrou tudo sim, mas Johnny ganha a primeira batalha quando agrupa o pensamento afro-americano num compromisso de sempre levar em consideração que tudo é racismo.
O time montado por Shapiro não mede esforços mesmo… O episódio traça, inclusive, um perfil duro de Johnny Cochran, um advogado mordaz que assume sem medo que só quer mesmo ganhar. E vale tudo pra isso. Não está claro ainda se ele se compromete dessa forma tão moralmente questionável por idealismo ou simplesmente por ganância e vaidade. De fato, Johnny acaba indiretamente responsável pelo ataque que Bill Hodgman sofre num dos momentos mais tensos da série desde sua estreia. E isso porque ele fica sabendo do erro cometido no compartilhamento da lista de testemunhas e simplesmente se abstém, pensando única e exclusivamente na dramaticidade de seu discurso.
https://youtu.be/GCfP2WQxghU
Nos primeiros instantes do vídeo acima, vemos um pedacinho do momento em que Hodgman reclama da mudança na lista de testemunhas. Segundo o livro em que foi baseada a série, Bill realmente teve um colapso, mas ele não aconteceu dentro do tribunal. As palavras ditas pelo promotor e pelo juiz, contudo, são absolutamente exatas. Aqui, portanto, acho que o trabalho dos roteiristas fez mais um ponto. Tomar a decisão criativa de dramatizar esse momento acabou resultando no ponto mais alto do episódio; e mesmo que haja diferenças factuais, o contexto é o mesmo e a indignação é a mesma. Atuações e direção em todas as sequências do tribunal tem sido um deleite.
A cara-de-pau do Dream Team continua, com a forma grotesca com a qual a visita dos jurados às residências é tratada. O time de Shapiro realmente limpou a casa de Nicole, tirando qualquer referência que pudesse emocionalizar os visitantes; e redecorou a casa de OJ inteirinha, com “motivos africanos” que saíram do plano de Johnny para “enegrecer” seu cliente, nada ligado a “questões da própria comunidade”. Contando assim, parece coisa de ficção realmente. Talvez, se estivesse dentro de uma dramaturgia apenas ficcional, pudesse ser encarada como esdrúxula. Mas não, realmente aconteceu.
O episódio se fecha com mais um dos deboches das circunstâncias… A polícia que sempre mentia agora falava a verdade, o negro que tinha “hábitos brancos” era educado a enegrecer-se e a testemunha mais importante na acusação desse mesmo negro, tinha um passado nazista. A maior ironia de todas? Dessa vez o negro julgado era culpado por um crime nada ligado a cor da própria pele. American Crime Story revela tantas discrepâncias incontornáveis na história de OJ Simpson, que começa a ficar difícil encarar o destino iminente. Como se pode esfregar na cara de um povo, evidências de que um vencedor do grande mal do racismo matou uma mulher branca com tamanha brutalidade? Como se pode querer que esse povo perca a esperança? Não, não se pode… OJ Simpson era um heroi injustiçado que renasceria como o benfeitor de uma nova era. A era em que negros se sobreporiam ao julgo dos brancos. Ainda que nesse caso, infelizmente, o símbolo dessa luta fosse somente um grande mentiroso.
Notas de um Crime:
• Dominick Dunne, jornalista da Vanity Fair, perdera a filha para um crime parecido. Ela foi estrangulada pelo namorado e o caso também teve muito destaque justamente porque o acusado foi condenado apenas por homicídio culposo, tendo ficado somente três anos na prisão. Dunne passou a escrever muito sobre julgamentos depois do trauma.
• A namorada de OJ na época, Paula Barbieri, realmente tinha terminado com ele no dia do crime, voltando atrás em seguida.
• A ação do teaser, com Johnny sendo algemado na frente das filhas, ocorreu como descrito, com apenas uma diferença: foi em 79, não em 82.
• Cochran realmente disse a Darden para não levar ele mesmo o oficial Furhman ao tribunal. Em entrevista a Larry King ele confirmou e disse que o fez por se importar realmente com Darden e por acreditar que Furhman era um “homem mau”. Por que Darden não contou a Marcia da conversa, não consegui descobrir.
• Ah, e a ceninha de OJ gritando com Darden na frente da casa também aconteceu. E não ficou nada bonito para ele perante os jurados.















