Legends of Tomorrow fez de seu sétimo episódio uma divertida ópera espacial.
Depois do frustrante Star City 2046, parecia difícil acreditar, mas através de uma trama digna de séries de ficção cientifica espacial, a DC CW apresentou um ótimo episódio para a escala equilibrada de Legends of Tomorrow. É interessante notar como Marooned funcionou bem, sem precisar utilizar a trama de Vandal Savage, mas ainda o reconhecendo como ameaça. Desde que estreou a produção tem encontrado em seu vilão principal o maior problema no desenvolvimento de seu roteiro. Por isso julgo que a merecida pausa no arco central conseguiu dar um espaço para respirarmos e perceber o potencial que a série tem, mas que estava perdendo por tentar encaixar Savage em toda e qualquer história desenvolvida. E foi bom. Na verdade, foi ótimo. Como um fã de operas espaciais, me senti verdadeiramente contente com o resultado final do produto criado para a semana, que funcionou bem próximo a um pequeno filme – uma regra que todo filler almeja seguir.
Claro que o episódio ainda vive centralizado em dois personagens que funcionam bem em qualquer interação, Sara e Snart. É compreensível perceber que aos poucos os dois foram se aproximando de uma maneira mais romântica. Ao contrário de alguns fãs eu não me incomodo com a criação de casais em séries adaptadas dos quadrinhos. Pode parecer difícil para muitos aceitarem, mas esse é um aspecto que recebe destaque até mesmo na nona arte. Lá nos quadrinhos é comum ver pares românticos dominando arcos e mais arcos. Ver algo do tipo na série não me faz desejar cancelamento, ou morte de personagens, só faz crescer o desejo de que a fórmula seja bem aproveitada. Logo, imaginar a possibilidade de ter a Canário Branco e o Capitão Frio se aproximando cada vez mais é algo que casa muito bem com o que a série já estava desenvolvendo, além de ser uma boa união da própria personalidade dos dois. Sara Lance já foi uma assassina. Leonard Snart já esteve preso e tirava do roubo seu maior prazer. Faz sentido e enquanto a química estiver predominante, não terei ressalvas.
Até o flashback de Rip Hunter e sua esposa somaram para a trama da série. Não existem heróis perfeitos ali dentro. Durante sete capítulos o texto fez questão de deixar óbvia a imperfeição e os desvios de cada um. Mesmo quando o roteiro tenta humanizar quem era vilão, ou dar um aprofundamento maior para o “líder” do time, ela expõe o quão humanos todos os personagens ali dentro realmente são. Quem deveria estar liderando um grupo e tomando conta do destino do mundo era a esposa do Rip, uma Mestre do Tempo muito mais capaz e inteligente do que ele. Seria muito fácil o roteiro criar uma situação em que Hunter é o homem mais honrado, mais honesto e mais forte, o típico padrão do heroísmo. Só que não é esse o caminho adotado e é uma das razões pelo qual gosto tanto do conjunto da série. São pessoas “defeituosas” procurando encontrar uma forma de consertarem a si mesmas.
Outro ponto que vale menção e elogio é a utilização de todos os personagens de maneira plausível, justificável. Ao contrário de Star City 2046 em que apenas parte do elenco era necessário, ou estava necessário, em Marooned todo mundo foi útil e teve bons momentos – mesmo que curtos. É a prova de que existem formas de se utilizar um time grande de personagens e entregar algo interessante para cada um, sem nos forçar a acompanhar situações que não agregam, ou pior, não fazem o menor sentido dentro do que está sendo criado. Foi muito excelente ter Martin Stein, Jax, Kendra e Ray ganhando um papel menos enfadonho e com maior atitude. Claro que a junção da Mulher Gavião e do Átomo levanta vários sinais de alerta a longo prazo, mas prefiro esperar antes de começar a chorar com a possibilidade de confrontos infantis entre Ray e Jax.

Muito mais do que conseguir isolar e utilizar todo o núcleo de personagens, Marooned apresentou uma ótima trama, consistente com a proposta da série, além de uma coreografia de luta e montagens de ação de ótima qualidade. Durante toda a cena do confronto entre heróis e piratas, eu verdadeiramente me senti animado e não simplesmente satisfeito, ou consternado, como usualmente acontece em Arrow e The Flash. Existiu um cuidado muito grande durante a criação das lutas e também um apreço na sala de edição. Foram planos que fizeram bom uso do cenário mais apertado, como por exemplo a cena em que Sara é jogada no chão e antes de cair, vemos Rip Hunter. Ou o bom uso de Kendra e Ray Palmer (não estou me referindo ao beijo, mas aos sopapos e raios que eles distribuíram).
O mérito caí principalmente em cima do diretor do episódio, Gregory Smith. Talvez você se lembre dele em Everwood (Ephram), ou Rookie Blue (Epstein), como ator, mas saiba que foi através dele que tivemos ótimos episódios em temporadas medianas de Arrow – Nanda Parbat e Taken. Aqui em Legends of Tomorrow o trabalho de Gregory reflete principalmente na condução das cenas mais íntimas entre os personagens. Todo o crescimento gradual de Snart, Sara, Rip Hunter e até mesmo Mick Rory, recebeu uma nova luz e um pouco mais de tensão emocional. E foi de partir o coração todo o dilema de Snart, além da congelante cena final entre os parceiros.
Por falar no conflito, não poderia deixar de comentar a respeito de toda a trajetória do Onda Térmica dentro da série. Ao contrário do Snart, que já vinha recebendo qualidades de redenção desde The Flash, Mick nunca conseguiu passar tal sentimento. Tudo o que vimos desde seu recrutamento apenas recebeu um resumo através do inflamado discurso do Rip. Ele só estava ali por fazer parte do pacote do Capitão Frio. E não existia outro desfecho além do apresentado. Claro que Hunter foi extremamente babaca e praticamente conduziu o pseudo-herói a trair todo o time. Mas enquanto Snart se transformava em herói, a presença do Mick foi deixando de ser realmente necessária ali dentro.
Outro que também merece aplausos é Jeffrey C. Robinson, coordenador de lutas da série. Eu já havia comentado anteriormente que o trabalho de dubles e montagem de cenas de ação de Legends merecia destaque e mais uma vez a prova veio. Robinson começou como dublê em Arrow e Flash, fazendo as cenas de ação do Malcolm Merlyn e do próprio Capitão Frio. Elogios para o profissional serão poucos e terminei outro episódio mais do que satisfeito com o que vi.
Sempre que me perguntam se vale a pena ou não continuar, ou começar a acompanhar Legends of Tomorrow, a minha resposta é a mesma: comece/continue se quiser se divertir sem compromissos. Não existe uma pretensão muito grande, ou o desejo de reinventar a roda. Ao contrário, a produção bebe diretamente da fonte de séries bem mais competentes, como Star Trek e Doctor Who, mas existe uma grande diferença entre ela e as citadas como exemplo. Legends não demanda muito do telespectador e é um ponto que me agrada bastante. Diferente de outras séries que utilizam a temática de viagem no tempo, ou do time se aventurando pelo espaço, a série da CW preza basicamente pela diversão e não se aprofunda em discursos mais complexos, como política ou a própria discussão ideológica por trás da capacidade de alterar o tempo. É uma benção e também uma maldição. Por não se aprofundar em nenhum tópico a série fica simples e de fácil compreensão, mas também extremamente incongruente. Computadores fora de época, motivações rasas e furtos na trama são as consequências negativas. Sendo assim, apesar de não agradar totalmente os mais exigentes, para quem quer assistir uma série apenas pelo gosto de fugir por quarenta minutos da realidade, o resultado é positivo. Marooned é a prova de que Legends tem em seu organismo o necessário para construir uma sólida temporada de estreia.
Easter eggs e outras informações
– Muitas menções a Star Trek durante todo o episódio. Ray Palmer começou sua breve carreira de capitão refazendo a frase de abertura da série espacial da CBS. Também existiu uma comparação com Jean-Luc Picard (Sir Patrick Stewart) e Capitão Kirk (William Shatner). Kirk é conhecido como o capitão mulherengo, mais aventureiro e imprudente, ao passo que Picard é mais intelectual e centralizado.
– Também tivemos uma frase clássica de Star Wars: “I’ve got a bad feeling about this”. Além de termos ouvido o nome Han Solo.
– O código utilizado por Rip, Imperiex, é uma conexão ao vilão do Superman durante o arco Our Worlds at War. Outro código utilizado pelo Capitão, Kanjar Ro, também é o nome de outro vilão espacial da DC Comics.
– A Capitã do Acheron, Bonnie Baxter, existe na nona arte. Ela começou caçando Rip Hunter, mas terminou unindo-se a ele. Algo bem parecido com o que aconteceu no episódio. Sua primeira aparição foi em Time Masters #1 de 1990.
– Já o vilão, Jon Valor, é conhecido como o Pirata Negro. Um nobre britânico que aterrorizava os sete mares.
– A nave Acheron faz referência ao personagem de mesmo nome. Nos quadrinhos ele já foi um fantasma e depois um demônio, no pós-Flashpoint.
– Martin Stein nomeou-se um Patrulheiro Espacial. Essa foi uma homenagem a Rick Star, Space Ranger. O personagem é baseado em um ricaço que decide proteger a terra de ameaças alienígenas.
– O verdadeiro sobrenome do Rip é Carter.
– Em Doctor Who tínhamos um Time Lord que já teve como acompanhante um homem chamado Rory, interpretado por Arthur Darvill. Em Legends of Tomorrow temos Darvill interpretando um Time Master com um companheiro chamado Mick Rory.
– Marooned significa abandonados. Também é o nome de uma música do Pink Floyd – recomendo.















