Uma lição sobre as luzes que revelam a beleza do mundo.

Spoilers Abaixo:

Quando Alphas foi sugerida pra mim pelo editor do site, e eu soube que era mais uma série do SyFy, eu fiquei apreensivo. Já tinha desistido de Warehouse 13 (como disse aqui, aqueles aparelhinhos todos foram aos poucos me desconectando dos personagens e trama) e embora insistisse em Haven (por uma questão de respeito à obra de Stephen King), a série ia de mal a pior. As expectativas sobre Alphas, então, não eram muito favoráveis. Hoje, depois de oito episódios, parece que finalmente eu posso dizer com propriedade que o SyFy tem uma série muito boa nas mãos. Essa semana, Alphas nos entregou um episódio engraçado, novamente bem escrito, com uma trama longe daquela investigação enfadonha e cheio de uma bem vinda discussão em torno do que é a estimulação religiosa.

Não poderia ter sido melhor. Em tempos em que esses conceitos “iluminados” permeiam a nossa literatura, o nosso cinema e a nossa televisão, nada melhor do que encontrar um roteiro que pondera o papel físico/mental dessas colocações. A “luz” que mora dentro de cada um, e que serviu, por exemplo, como base destruidora da dramaturgia de Lost, é vista aqui em Alphas como apenas um instrumento de afetação cerebral que nos entrega um conforto momentâneo, mas que também pode ser responsável pela nossa aniquilação.

Claro que nas duas séries, esses conceitos exercem papéis diferentes. Em Lost, não se falava de uma situação de busca pelo conforto espiritual, mas de um impedimento pela proliferação do mal. Havia uma complexidade maior, devido è decisão dos roteiristas de embarcar nas contradições entre bem/mau, branco/preto… Em Alphas, o objetivo é outro. Quantos de nós, que sofrem perturbações diárias provocadas pelo medo, pelo vício, pelo torpor, não sonhamos com um estado mental que nos proteja dessas vulnerabilidades? A religião nada mais é que uma doutrina que trabalha pela extinção da fragilidade que nos faz temer, burlar, fraquejar. Jonas em sua capacidade de estimular o centro cerebral responsável pela sensação de bem estar, era apenas mais um de nós, tomado pelo medo e pela tristeza, e que criado pelos princípios religiosos, acreditou deter o bem hipotético mais precioso da humanidade: a conexão com Deus. E como qualquer “interlocutor divino”, cego pelas “verdades” de sua crença, incluiu a dor, o sofrimento, e o genocídio como justificativas para o exercício da fé.

Quando eu poderia prever que pra falar de um Alpha que manipula a capacidade de bem estar das pessoas, fossem escolher metaforizar isso com conceitos apropriadíssimos sobre a religião? Mais um ponto para a equipe de roteiristas de Alphas, que saiu do lugar comum e entregou uma história que manteve a qualidade da temporada e foi um pouco mais adiante, ampliando seu texto para além do simples entretenimento.

E ainda tivemos bônus. Gary e Rachel estão no carro, ela entrega o fone de ouvido pra ele e desses poucos segundos, nasce um dos melhores momentos da temporada. Gary parece ser capaz de interagir com qualquer um dos outros personagens. Ele é o melhor dos alívios cômicos que uma série pode desejar, sobretudo porque suas colocações são deliciosamente constrangedoras.

Até mesmo Rachel, que dentro do plot principal estava deslocada, com aquela história sobre seu pai, mostrou o quanto o texto da série sabe escolher a hora certa para transitar entre o piegas e o jocoso. Eu estava esperando uma ceninha clichê entre os dois no final do episódio e antes que eu pudesse torcer o nariz pra isso, eles encerram o momento com o pai pedindo que ela olhasse a verruga de uma tia. Tem como não gostar?

E para os mais cínicos que vão ficar implicando com as luzes e frases messiânicas, tenham em mente que tudo fazia parte do contexto fake construído por Jonas. Era preciso que o roteiro fosse longe nisso, para que o incrível destino do pastor, morto com um tiro no rosto por um Rosen desnorteado, tivesse o peso dramático necessário para toda essa reflexão. E tudo se encaixou direitinho. Mais uma ótima semana para Alphas. Sem dúvida.

Semana que vem parece que não teremos episódio, mas se antes eu já esperava um ótimo season finale, agora tenho quase certeza que ele virá.

Sequencia Alpha: Foi de arrepiar o momento em que Rosen atira no rosto de Jonas. A canção Comets do Fanfarlo, tornou tudo ainda mais belo. Como foi catártico ouvir essa música, que eu já conhecia, servir tão bem aos propósitos da série. Se você tem dúvida, saca só esse momento da letra:

Olhe para cima, abra as nuvens

Aí vem a bomba

No caminho de casa …

E agora nós queremos o carvão?

Tempos Confusos

Clame assassinato, clame o que desejar

Apenas deixe os cometas liderarem o caminho” 

 

Alphas em Frases: Jonas: – Te dei a iluminação, não uma droga.

Paciente: – Chame do que quiser, mas coloque em uma garrafa e eu caio dentro.

O Alpha do Dia: Rosen estava perfeito no episódio. Um dos grandes momentos dele na série, coroado pela seqüência final.

Em Tempo: Assim como escrevi essa review ouvindo o álbum Reservoir do Fanfarlo, leia-a fazendo o mesmo. Você não vai se arrepender.

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