Quando descobrimos uma nova série, são aqueles primeiros minutos, aquelas primeiros arranjos e olhares que vão pouco a pouco nos fazendo ficar. Quem acompanhou a primeira temporada de YATW, percebeu que, sem a nossa participação ativa como espectador e sem a nossa leitura crítica sobre o que é abordado nos insuficientes 20 minutos, seria fácil enquadra-la no grupo de series que tentam (episodicamente) retratar apenas a nossa dificuldade atual de vivenciar relacionamentos honestos e significativos. Aos poucos, na medida em que você vai se enxergando dentro daquelas situações, vendo alguns de seus medos e hábitos espelhados, a proposta vai sendo abraçada e quando menos esperamos, o desafio de permanecer foi vencido. Desenhar a rotina e os desafios vivenciados por casais autodestrutivos não é novidade no mundo do entretimento, mas a medida em que o mundo vai se transformando, o enredo inevitavelmente vai exigindo uma nova atualização e talvez seja essa a principal razão pela qual a relação entre Gretchen e Jimmy tenha sido tão bem aceita.
Nos 10 primeiros capítulos exibidos ano passado, o roteiro deu um passeio em questões que ainda nos dizem muito; do primeiro encontro casual, até decisões como entregar a cópia da chave de casa ou apresentar os pais ao novo “namorado”, flertamos semanalmente com uma série de dilemas que a partir de estereótipos tentava promover aos poucos um distanciamento necessário das soluções convencionais. Isso se deve, em grande parte, à atuação afinada da dupla de protagonistas, que foi criando gradativamente a sua química, sem forçar empatia e se utilizando de uma linguagem corporal que provoca o riso no tempo certo. Quem acompanhou a série no tempo em que foi exibida viu que em blogs e fóruns de discussão havia uma forte crítica a forma como algumas passagens foram apresentadas, principalmente quando temas importantes como racismo e sexismo eram abordados. Não é fácil manter nítida a linha tênue entre o humor e crítica social; aqui no Brasil por exemplo existe uma escassez de produções que façam isso com a mínima qualidade, por isso a série também funciona como excelente instrumento para avaliar e perceber como a cultura americana anda lidando com alguns desses temas, nos fazendo problematizar e estabelecer as devidas analogias. Por sorte, Jimmy e Gretchen quando fazem essa leitura de mundo, na maioria das vezes, parecem saber o lugar de onde falam e estão dispostos a ironizar os costumes sociais sem cair nessas armadilhas perigosas. É por isso que o roteiro faz questão explorar inúmeras referências musicais e cinematográficas, nos fazendo perceber que o que nós somos, é também fruto do que a cultura de massa vende (mesmo quando criamos mecanismos de defesa).
Se na primeira temporada estavam elencados os aspectos que nos fazem correr na direção oposta e mesmo assim permanecermos ao lado da pessoa que (não se sabe como) preenche algumas de nossas lacunas, o que se viu no primeiro episódio da nova temporada foi como dividir o mesmo espaço com alguém, também significa contaminar o outro com o que é exclusivamente nosso (inclusive os desprazeres). O apartamento do Jimmy foi nitidamente tomado pelo furacão que habitava o mundo de Gretchen, afetado a rotina de Edgar (Desmin Borges, na atuação mais carismática e peça fundamental na season 1) e servindo como cenário da catástrofe que vem sendo desenhada já faz algum tempo. Na tentativa de fugir do convencional e evitar viver na tão indesejada “normalidade”, o casal escolheu o caminho da farra e o uso abusivo de drogas como justificativa central para sustentar a autenticidade que eles tanto defendem.
Paralelamente, vimos Lindsay (Kether Donohue, ainda com aquela voz irritante/ ela dublava a Candice na versão em Inglês de Pokémon e isso pode explicar alguma coisa) alimentar ainda mais os seus dilemas e em uma injusta tentativa de reatar o casamento, utilizando a inocência do maravilhoso Paul (Allan McLeod), escutar a melhor e merecida conclusão do episódio: “amar é colocar os sentimentos alheios acima dos próprios”. Talvez com a presença e interesse do Edgar, ela consiga vislumbrar um pouco o que isso significa, já que ele (mais do que ninguém) vive se colocando no lugar do outro.
Por fim, não podemos deixar de comentar a cena – hilária – em que Gretchen e Jimmy são flagrados pelo carro do Google Street View e a música que tocou nos últimos segundos do episódio: gangsta do Bushwalla (que propositalmente fala sobre a questão da originalidade no mundo gangster imaginado pela cultura rapper). Seguimos felizes para o segundo episódio, na torcida para que o nosso casal perceba que a normalidade pode ser apenas questão de ótica (de prisma) e não puramente de escolha – conclusão a que eles quase chegaram enquanto conversavam na cama.
Ps: Corri para buscar informações sobre o livro que o Jimmy pega para ler quando decidem “descansar um pouco” e descobri que ele faz parte de uma série escrita por um reconhecido escritor norueguês, chamado Karl Ove Knausgård – que possui alguns livros traduzidos para o português e parece ser bastante aclamado pela crítica. Trago mais informações quando a normalidade decidir aparecer por aqui. Até breve.






















