
O que será de White Collar daqui pra frente?
Spoilers Abaixo:
A tradicional divisão das temporadas de White Collar em duas partes sempre provoca dois momentos capitais, geralmente o décimo e o último episódios. Assim, é simples perceber que a primeira parte sempre tem mais tempo de desenvolver sua trama, semeando situações para apenas se aproveitar delas nos seis capítulos restantes. Na terceira temporada, isso é executado com primazia, mostrando a clara evolução da trama e entregando dois picos de qualidade em Countdown e Judgement Day. No entanto, este ano mostra uma White Collar com menor controle sobre seus arcos, o que inevitavelmente leva a uma queda de qualidade. Assim, Vested Interest empalidece diante de outros summer finales da série, e, ainda que não seja ruim, diminui a quarta temporada da série.
O episódio trata de um evento realizado pelo FBI, que pela primeira vez conta com um painel sobre a relação entre um agente e seu informante, que tem Peter e Neal como principais convidados. No entanto, a segurança do evento sofre abalos com a ameaça invisível de um participante, que aparentemente está atrás de um moderno colete à prova de balas desenvolvido pelo Dr. Drugov, cientista de uma empresa de componentes militares. Enquanto isso, Neal continua sua busca por Sam, e procura um meio de descobrir quem no FBI é o responsável pelas ameaças recebidas pelo ex-policial, escondendo todo o processo de Peter, com quem procura ter a menor relação possível.
O que atrapalha consideravelmente Vested Interest é o fato de não se dedicar inteiramente ao arco principal. Embora as tramas não sejam inteiramente desconexas, e o caso da semana contribua com a relação entre Neal e Peter (comentarei sobre isso mais adiante), a falta de total enfoque prejudica a relevância da história, e acaba tornando o episódio menos impactante que em outras ocasiões. É verdade que a jornada do protagonista rumo ao auto-conhecimento é algo mais reflexivo do que revelador, o que naturalmente impede White Collar de situações como em Countdown ou Point Blank, na segunda temporada. Mesmo assim, exceção feita ao cliffhanger, nada passa a sensação de que a série passará meses ausente, comportando-se na maior parte do tempo como um episódio comum. Gloves Off, por exemplo, revela conflitos mais relevantes e seria facilmente um summer finale mais interessante (novamente, exceto pelo final).
Além da decisão de Jeff Eastin em conduzir sua narrativa de forma dividida, a própria trama e Neal chega ao episódio pouco amadurecida, o que causa a sensação de uma certa pressa em resolver as coisas, principalmente quando nos aproximamos do final. Assim, Eastin prejudica a fluidez do texto, variando excessivamente o ritmo, destoando também dos episódios anteriores, que são extremamente competentes em explorar o mesmo arco. Dessa forma, a história como um todo perde força e desmerece o enorme cuidado de White Collar com a mesma durante as semanas que passaram.
Se a busca por Sam não funciona como deveria, a exploração do relacionamento entre Neal e Peter confere a Vested Interest excelentes momentos. Embora o conflito entre os dois não seja devidamente explorado em algumas ocasiões, em que os dois parecem estar perfeitamente normais um com o outro, é interessante a proposta do roteiro de colocar o passado dos dois como parceiros à frente deles nesse exato momento, o que é importantíssimo para a consolidação da amizade entre eles. É curioso vê-los em rota de colisão mesmo que todos percebam o quanto funcionam juntos, tanto no âmbito profissional como no pessoal.
Por isso, é interessante ver, logo no começo do episódio, Peter se atrapalhando ao pegar um café, apenas por pensar em ter que encarar Neal em alguns instantes. Além disso, note como ele parece convencido de ter tomado a atitude correta ao procurar Sam, chegando ao ponto de insistir na ideia sem sequer titubear. Dessa forma, a série nos convence de que Peter busca o tempo todo o bem do amigo, ainda que inconscientemente traga consigo velhos preconceitos. A vergonhosa cena em que Neal humilha o agente publicamente traduz exatamente a diferença de visão entre os dois.
Mas, no final das contas, tudo se trata de confiança. Vested Interest se esforça para que o espectador perceba a temática a todo momento, inserindo gags que sugerem a eterna desconfiança de Peter em Neal, como quando o último revela o hábito que o primeiro adquirira após a vinda dele para o FBI, de trocar as cores das canetas ao assinar autorizações e outros documentos importantes. Da maneira similar, Mozzie expressa sua admiração pela paranoia do engravatado, que logo se faz presente quando Peter fala sobre Sam.
Até que, finalmente, a palavra é mencionada. A solução encontrada pela série, de revelar que Neal e Peter possuem fé um pelo outro, mas não confiança, é inteligente e consolida o caráter do relacionamento entre eles, como se declarasse ao espectador que, por mais forte que seja, a relação jamais estará livre de suspeitas e conflitos, o que é a essência de White Collar. Ao mesmo tempo, os dois se divertem contando suas histórias para a plateia, evidenciando a naturalidade com que eles se entendem. Essa duplicidade é criada de maneira eficaz, estabelecendo um belo contraste e jamais soando artificial.
Dessa forma, Vested Interest caminha para que a situação com Sam seja resolvida. Nesse momento entra a fé mencionada por Neal minutos depois. Apesar de toda a raiva do ex-golpista, quando Peter coloca em dúvida a identidade de Sam, o julgamento do amigo o convence apenas pela fé, livrando-o da teimosia de confiar no ex-policial sem fazer qualquer verificação sobre ele.
A conclusão da situação entre Neal e Peter nos leva à revelação final do episódio, que soa ligeiramente deslocada do restante da história. O grande problema nesse momento é a forma com que o roteiro decide abordar a situação. Floreando demais o acontecimento, recheando os diálogos com longas pausas dramáticas em busca de criar alguma atmosfera de tensão, Eastin acaba conseguindo com que a identidade verdadeira de Sam se torne óbvia, tornando os segundos finais de Vested Interest apenas como uma constatação de um fato, o que inevitavelmente os torna maçantes e aborrecidos.
Menos coeso que os episódios anteriores, Vested Interest encerra White Collar em 2012 deixando a quarta temporada da série em condições menos favoráveis que no ano anterior. Além disso, com a importante descoberta de Neal, o que White Collar fará daqui em diante é uma grande incógnita.
Que precisará ser resolvida em apenas seis episódios.





















