Akane No Mai reflete o universo de Westworld em um episódio dominado por emoções humanas em não-humanos.

Na primeira temporada de Westworld vimos os roteiros reforçarem – em meio a tantos enigmas – que o que tornava os anfitriões tão próximos da consciência universal era a lembrança. Máquinas têm memória, claro. Mas, é uma memória compartimentada em dados práticos. O ser humano é um banco de lembranças afetivas, que dependendo da sua força, pode levar a mente e o corpo a reproduzirem as mesmas reações de quando os eventos aconteceram. A lembrança nos faz querer reviver o tempo. É ela que às vezes impede um relacionamento de terminar, que motiva alguém a desejar um enlace… É a memória sensorial o nosso maior problema e a nossa maior dádiva.

Foi ela, a memória, o artifício usado pela dramaturgia do primeiro ano para que Maeve se tornasse a síntese dessa discussão filosófica. Em uma das narrativas que viveu, ela teve uma filha e a intensidade dessa relação registrou-se em seus circuitos como não se esperava que ocorresse. A ideia que Maeve tem dessa relação não está errada, mas isso não significa que ela será capaz de ser reproduzida. Essa é a grande tristeza da coisa toda… Muitas vezes sofremos por não vivermos mais um momento específico e passamos a vida sofrendo mais ainda tentando reproduzi-lo. Na maioria dos casos, a lembrança da felicidade é bem diferente da percepção presencial dela. Nada mais humano que isso… E nada mais perturbador também.

Esses aspectos afetivos sempre foram acessados por Westworld com extrema competência. A sutileza da abordagem era importante, porque a descoberta das dinâmicas interpessoais que as máquinas não deveriam ter precisava ser nossa. Maeve quer achar a filha e Dolores, mesmo levando as coisas de forma mais fria, também tem uma certa melancolia diante da figura do pai, porque ele é uma memória que a afetou (nesse caso, a afetou de uma forma que o episódio disserta inesperadamente, vale dizer).

Todas essas questões foram muito bem estabelecidas no ano passado, então, foi curioso notar que a chegada ao Shogun World serviu para que uma vez estabelecidas, essas questões passassem a ser refletidas pelas histórias que o grupo de Maeve encontrou por lá. Até esse momento, a percepção de Maeve sobre o que viveu era introspectiva. Assistir o que aconteceu com Akane teve sobre ela o efeito que um episódio sobre algo que nos tomou tem sobre nós. Você se vê reprisado na narrativa e sua memória é capaz de te fazer sentir a emoção toda de novo. Maeve, por isso, nunca esteve tão humana no show.

Akane

Akane No Mai foi um episódio quase todo centrado nos eventos do Shogun World, que todos estavam querendo ver desde a finale passada. Esse “quase todo passado” é importante, porque os acontecimentos entre Dolores e Teddy pareciam deslocados, quando de fato as intenções analíticas do roteiro precisavam deles. Não só para reforçarem o mistério em torno da primeira sequência do episódio, onde vimos – na linha temporal do futuro – que muitos dos anfitriões retirados do lago estavam com suas memórias resetadas completamente, como se tivessem voltado “a condição de fábrica”. Mas, também para que víssemos que a relação de Dolores com a memória é muito diferente da relação que Maeve tem com ela.

Foi absolutamente proposital que as mesmas narrativas do West World estivessem sendo repetidas no Shogun World. O roteiro queria isso mesmo, que os anfitriões assistissem à trama, porque isso é parte do processo de olhar panorâmico. Quando você vê acontecer com outro o que aconteceu com você, pode descobrir novos mecanismos para lidar com o trauma. Para Hector e Armistice é menos impactante (embora perturbador), mas Maeve cria um profundo senso de identificação com Akane.

A direção do episódio teve problemas na montagem por causa da storyline de Dolores, mas aquela era uma storyline necessária. Então, o capricho nas sequências em que Akane e Sakura eram postas a prova foram muito polidas e impactantes. De certa forma, aquela contenção emocional típica do tradicionalismo oriental tornava a coisa toda mais angustiante. Akane perde a “filha”, mas dança, coloca toda a dor na delicadeza dos movimentos, como os grandes artistas clássicos são capazes de fazer mesmo perante as maiores tragédias. Ela dança… E depois mata.

Maeve

Maeve conhece aquela história, mas como geralmente acontece conosco quando assistimos nossa vida na ficção, o resultado final é diferente. Quando perdeu sua filha assassinada pelo Homem de Preto, Maeve não reagiu à altura – e nem podia. Akane, contudo, se vinga num gesto intenso e dramático, inspirando Maeve na sua jornada e reforçando seu compromisso de chegar até lá. Esse “filme” que Maeve assistiu foi um impulso e através dele os roteiristas estão nos dizendo também que os maiores erros que cometemos também podem ser aqueles que têm na memória o seu grande gatilho. Maeve pode até encontrar a filha, mas quem será ela?

Outro ponto muito importante desse episódio é o estabelecimento de que a anfitriã agora tem o “poder” de controlar outros anfitriões só com a mente. O alerta ficou amarelo, obviamente. Sabemos, em retrospectiva, que poderes de cura ou de controle podem tornar qualquer roteiro vulnerável ao escrutínio. Aquele é um universo de ficção científica, claro. Não é uma questão de coerência, porque aquilo é coerente; mas sim uma preocupação com isso sendo usado como deux ex machina toda vez que Maeve precisar sair de uma cilada. Esperemos sabedoria no uso da ferramenta.

E por fim, Dolores e Teddy terminaram esse episódio sofrendo uma grande ruptura. Talvez a decisão dela de resetar a personalidade dele seja uma das coisas mais corretas que a série já fez. A metáfora com a história da praga foi certeira. Sabemos que Teddy não é um elemento forte do enredo do show. Ele foi construído para isso e até me arrisco a dizer que talvez isso tenha sido calculado para chegarmos até esse momento. A “morte” dele como Dolores conhecia é o pacto definitivo com quem ela é agora. Aquele homem não combina com a história daquela mulher, então, ela vai interferir em quem aquele homem pode ser. Foi um belo movimento.

Chegamos ao meio da temporada com um mistério estabelecido (um bem menos pretensioso que o do ano passado) e com uma sensação maior de planejamento. Visitarmos o Shogun World agora foi a prova de timing que o show precisava dar, já que a crescente de revelações vai começar e será bem bacana vê-la convergir sem interrupções drásticas de encaminhamento. Essa tem sido uma temporada mais agitada, menos hermética. Mas, nem por isso está investindo menos em avaliação filosófica. Akane no Mai especulou mais um pouco sobre o poder das nossas emoções sensoriais, o que nos move em direção a um presente programado pela memória que pode ou não ser satisfatório. Curiosamente, agora não torcemos mais apenas para que Maeve encontre sua filha, mas torcemos também para que sua filha encontre com ela. A única certeza de uma memória recuperada perfeita é aquela que vem intensa e mútua.

> WESTWORLD | BEM VINDO AO SHOGUN WORLD! | S02E05

Westwords: Lee roubou um negocinho no caminho e vai tentar aprontar alguma. Será uma pena se ele pagar com a vida por isso. Gosto do personagem.

Westwords 2: Dolores sorve o máximo de Teddy antes de mudar sua personalidade. O máximo mesmo.

Westwords 3: Semana passada muitos de vocês comentaram sobre a direção de Lisa Joy, que afirmou nunca ter visto um episódio de Lost. Quero só reforçar que ela não precisa ter visto a série para ter sido influenciada pelo legado dramatúrgico que ela deixou. Além disso, exatamente porque aquela direção lembrava tanto Lost (e não sou o único que enxerga isso) que ela não mereceu para mim tantos destaques no texto. Foi boa, mas eu já vi muitas vezes. Talvez seja bom reforçar também que a nota do episódio passado foi 4, que muitos elogios foram feitos e que sempre serão feitos quando forem merecidos. Assim como as críticas. A forma como o show me afeta é única e pessoal, assim como é para cada um de vocês, graças a Deus. Todos nós estamos buscando a mesma coisa: emoção. Às vezes virá para mim e não para vocês, vice-versa; e tá tudo bem. Enfim, estamos juntos e felizes no mesmo barco.

REVISÃO GERAL
Nota:
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