Apesar de dirigida por Andy Muschietti (o mesmo diretor dos filmes), a série da HBO mostrou em seu piloto que absolutamente tudo pode acontecer. 

Quando Stephen King lançou “It” muita gente achou que o livro havia tomado o serial killer Wayne Gacy como inspiração para a assustadora figura do palhaço Pennywise. Gacy matou dezenas de meninos e rapazes durante a década de 70; e costumava usar uma fantasia de palhaço para atrair suas vítimas. Sua figura no mundo do true crime é muito conhecida e sua história constantemente referenciada. Contudo, King sempre fugiu dessa teoria e atribuiu “It” a outros fatores. 

Segundo ele, logo após terminar A Dança Da Morte, ele passava por uma ponte no Colorado quando se lembrou de uma história infantil sobre um troll que vivia em uma ponte. Ele então pensou que seria interessante que uma criatura se escondesse nos esgotos e conseguisse mudar de forma. A ideia de que o palhaço fosse a figura proeminente dessa criatura teria surgido depois que um homem fantasiado de Ronald McDonald sentou-se ao seu lado em um vôo nos EUA. 

O fato é que o palhaço Pennywise foi concebido como um mal que hiberna por 27 anos e que se instalou na cidade de Derry, no Maine, para devorar crianças e se manter vivo. Esse intervalo entre ataques acabou proporcionando à história a possibilidade de se expandir em retrospecto. Assim, o próprio diretor dos filmes, Andy Muschietti, surgiu com a ideia de voltar 27 anos no tempo e contar todos os eventos do ano de 1962, quando Pennywise aterrorizou a cidade pela antepenúltima vez (as duas últimas seriam nos anos correspondentes aos filmes). 

É claro que retornar a Derry significa retornar a um universo que já havia sido mencionado antes. No primeiro filme de Muschietti, o pequeno Ben faz uma pesquisa sobre a história de Derry e folheia vários recortes de jornal que mostram alguns dos eventos bizarros que provavelmente vamos revisitar nessa temporada. Há conexões diretas; como o fato de um dos protagonistas ser um descendente direto de Mike Hanlon, o menino que perdera os pais queimados numa explosão na cidade. Outras conexões são mais indiretas; como o sobrenome Marsh (o mesmo da menina Beverly) aparecendo escrito na porta de um reservado de banheiro. As possibilidades de easter eggs são muitas. 

Os fãs dos filmes vão reconhecer imediatamente a estrutura clássica de Muschietti e King. Há um primeiro ataque logo na abertura do episódio. Ao invés de uma capa de chuva amarela, o pequeno Matty usa uma chupeta amarela. Não sabemos exatamente o que está acontecendo com ele, mas Matty pega uma carona que se revela um pesadelo. É tudo muito eficiente: a maneira como a sequência carrega uma tensão progressiva; a impossibilidade de rastrear exatamente o que pode acontecer; a culminância no tipo de horror gráfico típico de Stephen King; e o término nas águas dos esgotos, com a chupeta ocupando o exato lugar do barquinho de George. 

A partir daí, o espectador começa a acompanhar Pennywise indo atrás das inseguranças de cada uma das crianças que o roteiro nos apresenta. Essa sensação de “gangue” que logo se estabelece é uma das forças dos filmes; e também aqui da série. Os amigos Phil e Teddy são inseparáveis; e como é bem típico, um é um obcecado por um assunto específico (no caso aqui, alienígenas) e o outro bem mais sério. Eles se conectam a Ronnie, Susie e Lilly por causa da busca por Matty e por causa das estranhas visões que já começaram a ter. 

Embora a estrutura seja idêntica ao que vimos no primeiro filme, tudo funciona. As crianças são carismáticas, o texto é esperto e tudo se arruma de um jeito que nos faz nos conectar imediatamente com elas. O roteiro cumpre todo seu papel de nos conduzir pelo que já conhecemos dessa história. As visões, as corridas de bicicleta, a fascinação pela figura feminina, os estranhos que se juntam pelo caminho… Até os últimos 10 minutos desse primeiro episódio tudo parecia completamente previsível. 

E então, a insana sequência no cinema destroi toda essa previsibilidade. O que Andy Muschietti está nos dizendo é que tudo pode acontecer; e que ele não está interessado em contar exatamente a mesma história que foi contada antes. E ele dá esse aviso numa sequência caótica; nervosa; sangrenta, que mesmo que destrua nossas expectativas, faz isso para que novas e melhores expectativas sejam construídas. Quando o episódio termina, não temos a menor ideia do que vem pela frente; e esse é o segredo para nos manter ainda mais interessados em seguir. 

Toda a trama militar ainda não mostrou quais conexões fará com o enredo principal; mas a volta de Dick Hallorann (personagem sensitivo do livro O Iluminado) pode ser o que vai fazer todas essas pontas se conectarem. É importante que haja mais enredos além dos que as crianças protagonizam, uma vez que essa é uma série com muitas horas no ar. Porém, sem conexão direta esses enredos paralelos podem afetar o ritmo da narrativa. Há no núcleo infantil uma familiaridade e carisma que podem ofuscar qualquer tentativa de subversão (razão pela qual o filme 2 não é tão celebrado).

Foi uma grande estreia, que mais uma vez sublinhou a força de vários dos “selos” que envolvem essa produção: o selo da HBO, de Andy Muschietti e da impressionante obra de Stephen King. 2025 tem sido um ano repleto de boas adaptações de suas obras; o que se tornou um alívio para uma geração de leitores que precisaram passar muito tempo vendo o legado do autor não ser tratado com a seriedade devida. Stephen King é um trabalhador da palavra; da criatividade… vê-lo representado com respeito é reconfortante, e mantém alinhados os pilares do horror contemporâneo.

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