“A foto está em minha mão. Eu a encontrei num bar abandonado na base de Gila Flats, vinte e sete horas atrás. Ela continua ali, vinte e sete horas no passado, presa ao mural, no bar às escuras. Ainda estou lá, olhando para ela.”

– Watchmen (graphic novel)

Era uma vez uma princesa chamada Europa. Um belo dia Zeus a avistou do Olimpo e se apaixonou por ela. Se transformando num belo touro branco, o deus se aproximou da mortal e a conquistou, fazendo com que ela subisse em suas costas, para imediatamente a levar pelas ondas do mar, longe dos olhos de sua esposa Hera, até uma terra que mais tarde ganharia o seu nome. Era uma vez um deus que entrou num bar e se apaixonou por uma humana. Não era a primeira vez que ele fazia isso (se apaixonar), mas desta vez as coisas seriam diferentes. Ele ainda tinha consciência de todo o percurso e duração do relacionamento, todos os percalços e dificuldades. No entanto, nesta tentativa ele estava disposto a sacrificar aquilo que até então era o que definia sua existência: seus poderes.

Dr. Manhattan sempre foi o personagem mais interessante dentro do universo de “Watchmen”. Não por suas habilidades, que o transformaram num deus (na definição da palavra), mas sim pela maneira como ele encara o mundo, vivendo todos os momentos da sua vida simultaneamente. Ao mesmo tempo que essa capacidade dá a precisão necessária para administrar eventos futuros, essa mesma precisão acaba tomando o fator surpresa que esses mistérios presentes na constante do tempo adicionam nas vidas das pessoas comuns. Na graphic novel, o capitulo quatro é inteiramente dedicado a contar a origem do “azulão”, desde sua infância com o pai relojoeiro, o acidente que o deixou com superpoderes até o momento em que ele resolve sair da terra e ir para Marte. A estrutura adotada para tal escolha narrativa é misturar todos os eventos em um fluxo constante de informações, que vão influenciando umas as outras numa não linearidade que demonstra o psicológico do personagem de maneira precisa. Então nada mais condizente que o episódio que se foca em completar as lacunas do personagem seja contado da mesma maneira dentro da série. Só que, assim como já feito no sexto episódio, os arcos narrativos serviram para mais uma vez mudar origens canônicas da HQ base.

As origens aqui são outras. Não revisitamos o acidente em Gila Flats, muito menos sua debandada para Marte após o Massacre de Nova York. Acompanhamos sua transição da Europa para os EUA, seu retorno do espaço para a terra e também o encerramento daquilo que acabou por salvar a humanidade, mas que agora é uma mera lembrança na memória da coletividade. O ritmo quase impessoal que o episódio toma para si, mesmo nas sequências mais emotivas, é uma das emulações mais fieis do quadrinho até aqui. Tudo é contado numa distância segura, numa imparcialidade de acompanhar os fatos e não influenciar neles. O Dr. Manhattan das HQs e da série são ao mesmo tempo a mesma pessoa e uma pessoa completamente diferente.

Claro que fica o grande questionamento do porque o personagem resolveu sair de seu paraíso recém-criado em Europa e retornar para a Terra. Na HQ ele retorna de Marte a pedido de Laurie, mas na série fica uma grande questão ainda não respondida de tal motivação. A única certeza é de que o amor é a única constante que faz com que o personagem permaneça no planeta, tanto na antiga como na nova estadia. De resto, todas as grandes interrogações foram solucionadas. Sim, assim como eu teorizei nas reviews passadas, o lugar onde Veidt está foi criado por Manhattan, na sua tentativa de criar uma nova forma de vida, que aqui ganhou Adão e Eva seguindo a semelhança de seus acolhedores na Inglaterra após fugir da 2ª Guerra.  Só que o que pensávamos ser uma prisão na verdade foi aceito de bom grado por Ozymandias. Mas assim como Jon, Veidt se cansou da serenidade do local; a adoração que ele tanto buscava sendo no final das contas o motivo para que ele queira agora escapar do local (e de quebra rendeu aquela cena pós-créditos).

Eis que não há planos de Keene e Trieu, mas sim um grande plano arquitetado por Manhattan sendo contado na série esse tempo todo. Como não tínhamos a certeza da presença do personagem na série, não conseguíamos vislumbrar a inexorabilidade de sua visão de mundo sendo arquitetada na frente de nossos olhos. Mas com a revelação final do personagem tudo mais uma vez faz o máximo de sentido. Will influenciar Trieu para dar inicio a construção do relógio do milênio foi um dos passos do plano de Jon. Assim como o paradoxo temporal criado na morte de Judd ser não um passo, mas um efeito de sua consciência multitemporal em ação. Irônico demais ser Angela que tenha dado inicio a tudo, com a intenção de salvar Manhattan quando foi ele que salvou ela da morte por reflexo na Noite Branca.

Só que nem mesmo Jon é capaz de escapar da inexorabilidade do tempo no final das contas.  Ele pode até ter tentado obter uma existência humana, sem os poderes e as preocupações inerentes a eles. Mas ele sabia que em algum ponto do futuro precisaria voltar a sua forma deificada, ao que tanto agora se arrepende de ser. E sabia também que o destino o colocaria em posse da 7K mesmo com todos os esforços necessários (e convenhamos, ver ele explodindo cabeças é sempre divertido). É a sina que a transformação deu para ele, saber tudo o que acontece e ter de se resignar a aceitar o destino imposto.

Watchmen” enfim nos entrega respostas.  Das maneiras mais inesperadas possíveis, a previsibilidade é que acaba sendo o principal componente dessa reta final da série. Não para nós espectadores, mas para o personagem que viu o grande panorama e o seguiu até então nos mínimos detalhes. Era uma vez um deus que resolveu se sacrificar em prol da mortal que ele amava. Só não esperava que ela faria tudo o possível para salva-lo da destruição, indo até as últimas consequências de suas capacidades para cumprir o objetivo. O fim está próximo, tão próximo que já é possível senti-lo.

Rorschach’s Note #1: Uma curiosidade acerca de Yahya Abdul-Mateen II: ele também é arquiteto além de ser ator;

Rorschach’s Note #1: Interessante ver o funcionamento da máquina que causa as chuvas de lula;

Rorschach’s Note #1: Will recebeu a casa do Capitão Metrópoles como herança. Será que apesar de tudo o que foi visto no episódio seis, como ele tratou Will, os dois acabaram juntos assim mesmo?

REVISÃO GERAL
Nota:
Artigo anteriorArrow 8×07: Purgatory
Próximo artigoOs indicados ao Globo de Ouro 2020
Lucas Fernandes
Cinéfilo, sériemaníaco e designer não praticante nas horas vagas.
watchmen-1x08-a-god-walks-into-a-bar“Watchmen” enfim nos entrega respostas.  Das maneiras mais inesperadas possíveis, a previsibilidade é que acaba sendo o principal componente dessa reta final da série.