“O uniforme que um homem veste o transforma.”
Apesar de ser em sua aparência uma história de super-heróis, “Watchmen” (a graphic novel) não é realmente sobre eles. É sobre as feridas psicológicas e físicas que levam pessoas normais a assumirem o manto do vigilantismo, uma “história de origem” realista calcada no ambiente socialmente frágil do final da Guerra Fria. “Watchmen” (a série) não foge muito de sua base, colocando o espirito da série em um mundo onde o preconceito racial, o fascismo e o sexismo cada vez mais ganham força (apesar do avanço social e tecnológico), mas ainda não tinha mostrado a sua “origem”, sua história que serviria como estopim para todas as outras. Bem, não tinha mostrado até agora.
Desde que o show começou, muitas perguntas surgiram, mas nenhuma delas foram tão latentes sobre as que residiam sobre a figura de Will Reeves. Sabíamos que ele tinha sido um dos poucos sobreviventes do massacre de Tulsa que abriu a série. Logo depois soubemos que ele é avô de Angela e que de algum modo está envolvido na morte de Judd e no plano de Lady Trieu. O personagem praticamente é a cola que une todos os plots da série, mas não temos efetivamente nenhuma peça de informação sobre o que o levou aonde ele se encontra hoje. A série então nos leva numa viagem ao passado, não só para nos iluminar sobre a vida de Reeves, mas também para modificar de uma vez por todas suas ligações com a obra de origem.
Ao colocar Reeves como o homem por trás da máscara do Justiça Encapuzada (Hooded Justice, no original) a série não só coloca foco na figura dos Mnutemen (a primeira geração de heróis), como também reescreve a própria origem das HQs e da série de maneira soberba. O que o roteiro escrito por Damon Lindelof e Cord Jefferson faz não é mexer no vespeiro da obra base, é chutar longe com força a colmeia e se desvencilhar de uma vez por todas do que deve ou não ser criado em comparação. O episódio deixa de criar paralelos com a HQ e se volta para o próprio umbigo, para os episódios passados. O modo como o massacre de Tulsa, a morte de Judd e o surgimento da 7K ganham novos contornos faz com que a máxima de que um raio não cai no mesmo lugar duas vezes seja quebrada. Este sexto capítulo mantem o nível alcançado no anterior e entrega mais uma obra de arte televisiva.

Finalmente Angela descobriu a sua origem, que é no final das contas a mesma do seu avô. Ambos utilizaram um trauma físico que deixou consequências psicológicas como motor para a entrada no vigilantismo (seja ele legal ou não). Ambos se tornaram policiais na esperança de melhorar a situação racial de dentro do problema, para somente descobrir que as coisas são muito mais podres e complicadas do que pensavam. A quantidade de camadas sobrepostas agora faz sentido, já que as dicas estavam sendo entregues desde o começo (o enforcamento, as cores da roupa de Will quando é visto pela primeira vez e principalmente o foco no Justiça Encapuzada sempre que algo do passado era revisitado).
Mas o que ambos também dividem é a sensação de impotência perante os seus problemas e de como isso acaba se transformando em força. Will (Jovan Adepo, na versão jovem) surge como herói ao ser quase morto pelos seus “companheiros”, se tornando um farol de esperança para que diversos outros iguais a ele também tivessem a coragem necessária. Mas quando a situação se torna necessária de ajuda desses novos amigos, os mesmos viram as costas para os seus problemas, o deixando sozinho para resolve-los. O relacionamento dele com o Capitão Metrópoles (Jake McDorman) também é desmistificado, não a relação sexual em si, mas o uso da relação pessoal somente como uma ferramenta para a opressão no final das contas. Algo com o que Angela também lidou na relação com Judd, já que a relação de mentor/discípulo dos dois também serviu mais para o proveito dele do que dela.

Mas não somente a função foi uma das melhores até aqui, mas também a forma foi uma das mais belas. A direção de Stephen Williams conseguiu unir uma edição perfeita entre as cenas com um visual preto e branco que casou perfeitamente com o retrato do final dos anos 30 em que o episódio passava. Era como um filme noir de super-heróis, aliás, foi como um filme, já que a qualidade técnica dá um banho em muitos dos longas lançados atualmente. Até a inserção dos elementos modernos da narrativa foram bem utilizados aqui, como a sensacional cena em que a interação de Angela com Laurie e Cal acontece após uma dose de adrenalina, deixando tudo como um dos quadros da HQ original.
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Assim como sua contraparte escrita, “Watchmen” não é uma série sobre super-heróis, é uma série sobre legado. As relações familiares ficam mais claras, mas o legado principal é o da HQ para com a cultura mundial e da série para com a HQ, não só modernizando a narrativa, mas transformando-a em algo que vai mais além, sem nunca deixar de mostrar as raízes de onde veio. No relógio da meia-noite que marca o tempo da série o fim está próximo (faltam só três episódios para o final da temporada/série), mas o que foi apresentado até aqui é da mais pura qualidade. Definitivamente uma das melhores séries do ano e da década.
Rorschach’s Note #1: A série abraçou de vez a galhofa com “American Hero Story”, assumindo de vez a homenagem as antologias de Ryan Muprhy, ao ponto de contratarem Chayenne Jackson para fazer um dos papeis da série dentro da série;
Rorschach’s Note #1: Sabemos finalmente como Judd morreu, mas será que a motivação do assassinato foi só sobre a questão do possível envolvimento com a 7K ou há algum outro elemento que ainda não foi revelado além da busca da história de origem?
















