Apesar da grande reviravolta do episódio 4, a série dos irmãos Duffer arrasta as correntes de uma nostalgia cansada.
As chamadas e o conteúdo da maioria das críticas sobre a nova temporada de Stranger Things dizem a mesma coisa: os problemas estão lá, mas a série segue sendo uma experiência atraente para grande parte da audiência. A razão para isso não deixa de ser um feito. Quando surgiu, em 2016, a série era repleta de elementos nostálgicos para a geração millennial. A história se passava na década de 80; tinha todas as referências necessárias dessa época; e ainda era apoiada nos códigos narrativos de Steven Spielberg e Stephen King.
Com intervalos bisonhos entre temporadas (o último intervalo foi de 3 anos e meio), a série conseguiu dar ao próprio conceito de “nostalgia” uma nova camada: assistida agora por quem era criança ou adolescente em 2016, ela se tornou também para eles uma experiência de reconexão com tempos de outrora. É como se a ideia de “algo que não é mais” tivesse se tornado o centro motivador dessa produção.
De certa forma, a “prisão” da nostalgia é o que assombra os episódios nesse retorno. O fiapo de história em que ela se sustenta precisou ser espalhado em vários anos; e volta e meia nos pegamos nos perguntando: “afinal de contas, por que tudo isso aconteceu e o quê queremos resolver?”. Vilões deformados com planos de dominação são um dos piores recursos da dramaturgia; e são julgados assim justamente porque esvaziam a substância motivadora dos personagens. O crescimento da atmosfera apocalíptica vai colocando todos eles na mesma frequência – porque tudo é sobre salvar o mundo – e com isso, o que amamos em cada um vai se diluindo com o tempo.
O elenco principal já passou dos 20 anos (Millie já casou e se tornou mãe) e embora seja comum ver atores dessa faixa etária vivendo adolescentes nos corredores de um High School, a falta de uma progressão, de um acompanhamento, aumentou a estranheza ao darmos de cara com cenas de bullying acontecendo nos corredores da escola. É como se a série estivesse tentando ressuscitar o acesso a emoções que já estão superadas. Seus métodos de abordagem seguem baseados no clichê charmoso dos anos 80, mas o impacto não é mais o mesmo.
Sabendo disso, os irmãos Duffer fizeram o que qualquer showrunner faria no lugar deles: trouxeram novos personagens. A irmã mais nova de Mike – Holly – virou a nova vítima de Vecna; o que possibilitou aos criadores a chance de usar Alice no País das Maravilhas como referência para adornar as sequências metafísicas da personagem. Além dela – e com a perda do carisma divertido de Dustin – tivemos a presença de Derek. Jake Connelly, que vive o bullie mal-humorado, será o rosto que provavelmente vai dominar as conversas a respeito do apelo cômico da temporada.
Contudo, apesar de estar estagnada no tempo e nos próprios métodos, Stranger Things ainda consegue usar corretamente a nostalgia para proteger as fragilidades de seu roteiro. O imenso orçamento também ajuda. Todas as sequências de ação – que geralmente envolvem Demogorgons – exalam o cheiro dos milhões investidos pela Netflix. E o dinheiro foi bem usado. As sequências do episódio 4, especialmente, não deixam nada a desejar do ponto de vista técnico. Há uma atenção grande a como essas sequências vão se desenvolver; e é isso que baixa a guarda das nossas frustrações.
Ao final, os criadores oferecem ao público uma grande reviravolta. Essa reviravolta foi estabelecida por um clássico da dramaturgia fácil dos mundos fantásticos: a proximidade entre personagens que causa uma osmose de poderes, fraquezas e características (Harry Potter e Lord Voldemort que o digam). É um caminho pouco criativo? Sim. Funciona? Também. O diferencial aqui (e o que faz Stranger Things redimir-se) é a maneira como os Duffers fizeram uma conexão entre o surgimento desses poderes e a aceitação pessoal desse personagem. Quando ele se aceita, ele canaliza. É uma mensagem poderosa, que só seguirá assim se for finalizada com inteligência e sensibilidade. Vamos ver.
Depois de 10 anos, o adeus derradeiro ao mundo de Stranger Things (invertido ou não) está chegando; e então ela se tornará definitivamente aquilo que tanto emula: passado.
















