Veronica Mars e a luta contra a misoginia.
O que mais me chama a atenção nesta terceira temporada de Veronica Mars – e é responsável pelo fato de, até o momento, eu estar absurdamente mais mergulhado nela do que estive durante o segundo ano da série – é o fato de que sua trama principal traz uma discussão extremamente antiga e (por mais absurdo que seja) ainda válida na atualidade: feminismo versus misoginia.
A série atinge a excelência ao explorar esse tema por uma premissa básica: em todos os episódios, estamos acompanhando o ponto de vista de Veronica. “Somos” Veronica. Isso é importante dentro do contexto da luta feminista justamente porque, nela, Veronica assume uma posição com a qual, provavelmente, a maior parte dos telespectadores também assume: a de aparente (e isso é importante, apenas aparente) neutralidade. Ao mesmo tempo em que não se revolta contra os babacas que fazem piada com estupro (Rafinha Bastos feelings) como as feministas da escola, nossa protagonista também não os aprova, simpatizando de leve com o lado das feministas na comparação.
Por mais que Veronica se esconda atrás do humor, conhecemos a personagem suficientemente bem pra saber que, apesar de não sair às ruas carregando uma bandeira, Veronica é uma feminista. E essa conclusão pode ser tirada pelo simples conceito de feminismo em si, que é, basicamente, opor-se ao sistema, à nossa milenar organização que traz o homem como ser dominante na sociedade. Se Veronica não demonstra uma posição resignada em relação ao sistema, ela certamente é uma feminista.
A questão é que existem feministas e feministas. Veronica certamente é bem diferente das garotas que protestam nuas contra a onda de estupros em Hearst, mas também está longe de estar no grupo das idiotas que comentariam “elas não têm o que fazer” ou “elas só fazem isso porque são feias”.
E, se a postura da protagonista é bastante discreta, ela se torna óbvia a partir do momento em que compreendemos a posição da série. Ao colocar o reitor – o grande representante do sistema nesse episódio – como uma figura obviamente machista e simpatizante aos rapazes, as mentes por trás do roteiro deixam clara a mensagem feminista por trás da trama. Exatamente por isso, apesar de ter achado bastante suspeito que justamente “a loira do meio” tenha sido a próxima vítima do famigerado estuprador, tento afugentar da minha mente a ideia de que a pessoa por trás desse ato tenha sido justamente uma feminista radical tentando culpar os rapazes. Não seria a primeira vez que um “estupro falso” teria acontecido na teledramaturgia (alguém aí assistiu a “A Indomada”? Talvez a identidade do estuprador daquela novela esteja me influenciando aqui). De qualquer forma, ainda está cedo para tirar conclusões definitivas.
O irônico de tudo isso é saber que, por mais bem resolvida que Veronica seja, ela acaba se comportando exatamente como a patricinha insegura cujo perfil ela repudia em sua relação com Logan, vigiando-o a cada minuto, com ciúmes, com medo de perdê-lo. Devo dizer que em momento algum tive pena de Veronica pelo modo como ela foi tratada por Logan. A garota sempre soube no que estava se metendo quando resolveu namorá-lo, e acreditar que ele daria mais importância a ela do que à farra ou aos jogos de cartas seria muita ilusão. É claro que o final foi “fofinho” ao trazer à tona o melhor de Logan e dar a Veronica um pouco de alegria, mas, sejamos francos, pau que nasce torto morre torto. Nunca levei fé nessa relação e sempre achei que Veronica merecia muito mais do que isso.
Quem finalmente deu as caras nesse terceiro ano foi nosso Weevil, agora em liberdade condicional. Fiquei bastante animado ao vê-lo trabalhando – e trabalhando bem! – para Keith, e realmente achei que essa parceria poderia render frutos muito legais, mas foi só mais uma maldade dos roteiristas, que alimentam ilusões bacanas apenas para tirar o doce da nossa boca em seguida. Para explorar melhor a nova realidade do latino, o episódio acabou deixando completamente de lado Wallace, Mac, Parker e o xerife Lamb, os três últimos incluídos no elenco fixo apenas nesta temporada. E, na tentativa de exercitar minha capacidade de ser compreensivo, lanço a pergunta: só eu acho muito estranho um episódio em que QUATRO personagens do elenco fixo nem dão as caras?
O caso da semana contou com a participação especialíssima de Armie Hammer, que ficaria mundialmente conhecido alguns anos mais tarde ao interpretar os gêmeos Winklevoss em “A Rede Social” (2010). Honestamente, achei bastante desinteressante, mas vale como mais uma maneira de nos mostrar Veronica precisando se virar em seu novo ambiente, bem diferente de Neptune – e muito mais hostil, diga-se de passagem. A principal função de Hearst é nos mostrar Veronica caindo na vida adulta, é levar-nos como passageiros na jornada da protagonista para fora daquele mundinho minúsculo que tinha o nome de Neptune High, e que, por mais que ainda seja uma memória vívida diante do número de personagens que seguiram com Veronica neste terceiro ano, agora ficou para trás.














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