Veronica Mars e a relativização dos conceitos de certo e errado.

Uma característica notável de Veronica Mars é o fato de a série desafiar constantemente nossas ideias pré-concebidas. A própria Veronica pode rapidamente ser julgada como a clássica patricinha de Beverly Hills, mas simplesmente não suporta esse meio, sendo avessa a esse tipo de personalidade e à nata econômica da juventude de Neptune. Logan e Weevil são típicos bad boys, mas já mostraram inúmeras vezes que os brutos também amam. E nosso temido vilão da temporada passada nem de longe parecia capaz do que fez.

Para a nossa sorte, nada disso mudou na terceira temporada da série, que começou absurdamente bem, fazendo jus à fama de Veronica Mars e mergulhando em um mistério que não é apenas intrigante, mas também envolvente por se relacionar muito intimamente com um drama que nossa protagonista conhece bem: a dureza de conviver com o fato de ter sido estuprada.

O caso da semana acaba se relacionando bastante com o principal mistério da temporada, já que Veronica, tomada pela culpa por não ter impedido que Parker fosse estuprada, decide mergulhar fundo em uma investigação requisitada pelo próprio jornal da faculdade. Ok, vamos ignorar o fato de que jornais de faculdades não costumam ir atrás de resolver crimes desse tipo no lugar da própria polícia, e vamos também ignorar a falta de sentido por trás de um jornal da faculdade querer denunciar irregularidades dentro da própria faculdade. A editora pediu para Veronica investigar quem está por trás dos estupros e é extremamente decidida a publicar fatos que depõem contra a própria universidade, e temos apenas que aceitar isso.

Para atingir seu objetivo, Veronica se disfarça do tipo de garota que ela mais odeia: o tipo mimada, o tipo que Parker era quando nós a conhecemos. É impossível não ficar extasiado com a interpretação de Kristen Bell em momentos como esse, em que sua personagem está também interpretando uma personagem. A atriz encontra um tom perfeito para que, ao mesmo tempo em que seja possível acreditarmos que as garotas da Theta Beta estavam caindo na dela, também conseguimos enxergar claramente o fingimento. Por outro lado, essa fraternidade merecia mesmo ser enganada só pelo fato de ter arruinado “True Colors”, uma das minhas músicas favoritas.

E é aí que entra a grande virada do episódio: o segredo das Theta Betas. Todos sabíamos que está cedo demais para acreditar que Veronica estava seguindo a pista certa, mas isso não significa que não havia nada para ser encontrado. Uma plantaçãozinha básica de maconha parece errado? Sem dúvida! Mas não é bem assim que a banda toca em Veronica Mars, e logo compreendemos que a erva era cultivada por um motivo muito mais complicado do que sustentar o vício de alguém: câncer. E, diante dessa revelação, as grandes vilãs do arco acabam sendo a editora do jornal e a própria Veronica, cujo talento para fazer inimigos continua firme e forte em Hearst. Como dizia a minha avó, de boas intenções o inferno está cheio, não é verdade?

Enquanto isso, Logan e Wallace passam por um experimento de aprisionamento à lá Stanford, arco certamente baseado na história do famoso aprisionamento fictício conduzido nessa universidade em 1971. E, se lá atrás a ética desse tipo de experiência só foi questionada seis dias após o início da “guerra” entre guardas e prisioneiros, não vejo sentido algum na recriação de algo tão notadamente absurdo em outro ambiente universitário, principalmente usando a isenção da entrega de um trabalho como moeda de troca para a participação de alunos.

Além dos problemas com a verossimilhança, não sinto que o episódio teve sucesso em passar ao espectador o sadismo e a humilhação por trás da ideia do famoso experimento, mas a verdade é que isso seria impossível em um episódio de 40 minutos. Dentro dessa limitação, My Big Fat Greek Rush Week até conseguiu cumprir relativamente bem a proposta, com o bônus para o inesperado plot twist que deu a vitória ao time dos guardas. Mais uma vez, a série brinca com os conceitos de certo errado, e o próprio estudante humilhado deixa claro para Wallace que não enxerga o guarda carrasco como alguém ruim, apenas como alguém que estava desempenhando o papel que lhe havia sido atribuído. Particularmente, entendo esse ponto de vista, porque é muito fácil – e bastante humano – se corromper e perder o controle dentro de um cenário fictício como aquele. Para uma melhor compreensão do experimento de Stanford, recomendo o longa alemão Das Experiment (2001), que chegou ao Brasil com o título de “A Experiência” (não confundir com aqueles filmes terríveis com a Natasha Henstridge) e retrata muito bem os estragos que o poder e a perda da individualidade podem causar no ser humano. É forte, mas interessantíssimo!

Outro arco que não me agradou tanto foi o de Keith Mars.  Fiquei simplesmente arrasado com a morte de Kendall Casablancas. O final da segunda temporada, com a personagem se dando bem, já havia me deixado extremamente satisfeito, e fiquei incomodado com essa desnecessária retomada, com direito a caminhada – e sobrevivência! – do detetive no deserto. Ficou difícil de engolir, e eu poderia ter dormido sem essa!

Quem brilha com louvores no episódio é nossa querida Mac, personagem que vem crescendo a olhos vistos na série. De uma maneira ao mesmo tempo forte e fofinha, Mac consegue dar o apoio necessário à nova Parker, que precisa lidar com as consequências do trauma de ter sido estuprada. É bacana ver esse tipo de união, quase inusitada, entre essas personagens. Mais uma vez, Veronica Mars mostra que não se deve julgar um livro pela capa, e começa a dar a Parker uma profundidade que jamais imaginaríamos ver baseando-se apenas no comportamento da garota durante a season première. Mac percebe isso, percebe a superficialidade com a qual analisava sua roommate, e decide fazer a coisa certa. Fiquei bastante feliz, e, a partir de agora, espero muito da relação entre as três garotas do elenco fixo. Espero que Veronica Mars satisfaça essa expectativa, mas já aprendi a não ficar com medo de me decepcionar.

Mesmo com notáveis falhas, My Big Fat Greek Rush Week é capaz de segurar a peteca da excelente premiere da terceira temporada. Ao mesmo tempo em que nos ajuda na familiarização com o novo ambiente ao qual estamos sendo apresentados e entrega horas de diversão graças ao carisma de Veronica, o episódio segue firme e forte com o intrigante mistério dos estupros, trama que promete bastante. Que venha a terceira temporada, que por enquanto está linda!

Artigo anteriorTrue Blood | 2014 será o último ano da série?
Próximo artigoMajor Crimes 2×11: Poster Boy
Guto Cristino
Guto Cristino é engenheiro químico, jornalista e administrador. Nessa salada toda, o tempero constante é a paixão por séries e por Christina Aguilera, sempre presentes em seu cada vez mais curto tempo livre. No Série Maníacos desde 2011, é especializado em cretinice televisiva, com foco em novelões e realities, mas garante que vê série boa de vez em quando.