Robusta.

Spoilers Abaixo:

Não é como se as comédias fossem apenas produtos da expressão externa. A gente costuma estudar na escola de teatro, técnicas e compreensão de conceitos na arte da interpretação. Enquanto o drama é um movimento interno, partindo de emoções advindas da profundidade subjetiva, a comédia é ensinada como um exercício de representação farsesca da vida. A gente aprende que na comédia só há camadas superficiais, que não pretendem nada além da caracterização dos homens. Enfim, isso é academismo. Hoje em dia, a comédia já se permite alguns complexos.

Veep deu uma brincadinha com isso desde que começou, no ano passado. No episódio dessa semana, repetiu a dose com cores mais fortes. Vimos que na corrida constante travada por ela, nunca houve tempo para pensar realmente em como deve ser ter verdadeiras responsabilidades. Quando menos importante você é, menos robustas são as consequências dos seus atos.

E então o episódio começa com uma situação limítrofe: reféns em pauta. Essa é daquelas situações em que os que estão no poder, sempre acabam sofrendo o ricochete dos riscos de vida vigentes. Mandar é o mesmo que sofrer desmandos. Pode não parecer, mas é. Enquanto as decisões mais tensas ficavam longe de seu gabinete, Selina só experimentava as consequências de escolher as palavras erradas. Agora, está tudo misturado.

E está mesmo, já que metade do episódio se dedicou a mostrar como a política pode enlouquecer por causa de uma simples palavra. Quem assistiu a inesquecível The West Wing, sabe que a equipe de comunicação dos presidenciáveis pode falir por causa de pequenos movimentos em falso. A equipe de Selina já teria sido trocada cinco vezes se essa fosse uma série de Aaron Sorkin, mas como não é, ficamos semana após semana, vendo esses funcionários cometerem todos os erros do mundo, e saindo impunes. Como Sue, que usa a tal “robust” antes da patroa e não leva nem uma bronquinha. O resultado é  mais um ataque direto da imprensa, que ridiculariza Selina diretamente (em manchetes) e indiretamente (com sua irrelevância nas tags). A coisa é tão grande, que merece uma reunião para determinar que nem essa palavra, e nem a escolhida pelo Secretário de Defesa, poderão ser usadas. Reféns de si mesmos, sempre.

Esse episódio foi extremamente interessante justamente por traçar analogias espertas entre a situação limítrofe e as ambições desmedidas da Veep. Analogias que iam muito além do macarrão, e e representavam uma mudança na dinâmica da protagonista: talvez agora Selina realmente precise lidar com o peso de suas ações.

Podemos entender, assim, que mais tragédias se anunciam. O que esperar de uma mulher que antes de concordar com a ordem de libertação de reféns, confere se estará com a agenda disponível? E o episódio tem outra robusta reviravolta, mostrando que no mundo de Selina, nada vem fácil mesmo. Por causa de Cliff, e de outra confusão com os conceitos das palavras. Reféns de semântica… Como não amar esse programa?

Mais comédia antológica, ali, bem na nossa frente, com Selina enlouquecida, apressando o juramento dos pobres senadores para conseguir chegar na teleconferência da libertação dos reféns. Onde ela realmente conseguiu chegar, para nossa surpresa. E nos detalhes, a genialidade: as fotos de Jonah, os comentários patéticos de Danny, as piadas grosseiras e SEMPRE escatológicas de Selina… Um show de competência. Ou melhor, uma competência robusta.

No final, o peso, o karma. A percepção de que suas decisões agora geram perdas, vem devastadora. E foi só uma perna, imaginem quando for uma pessoa inteira? Ainda assim, foi incrível ver Veep trabalhando com muito mais do que apenas aquele delicioso desfile de constrangimentos de sempre. É sempre ótimo ver formatos reféns do conceito dramatúrgico, sendo libertados por um simples desejo de desafiar o interlocutor. Mas tudo com equilíbrio, com sagacidade. Enfim senhores, mais uma semana produtiva com a Sra. Vice Presidente. Mais uma semana trabalhando pelo bem-estar de seus seguidores: nós.

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