Coletiva de imprensa sobre o remake de Vale Tudo revela um elenco coeso e muito seguro.

Em Novembro de 2024, ano passado, a escritora Manuela Dias deu uma entrevista para a Folha de São Paulo que caiu como uma bomba no público. No centro dos efeitos negativos dessa entrevista estava a forma como ela descrevia Odete Roitman, como uma vilã que “não falaria mal do Brasil” (porque, segundo ela, não é mais “legal” fazer isso); e que apontaria para um viés mais “construtivo”, já que no miolo do discurso da autora, Vale Tudo parecia “ultrapassada”.

Essa entrevista repercutiu na internet de maneira tão absoluta, que não demorou para que ela desse novas declarações afirmando que Odete seria sim uma vilã. Mais do que as mudanças prometidas por ela – e que são naturais e necessárias para um remake – as preocupações se fortaleciam a cada nova declaração da autora quando tentava explicar um personagem. Recentemente, disse que faria de Poliana um personagem assexual, porque era como ela via o personagem de acordo com “brechas” dadas por Gilberto Braga.

Disse: “Ele tem um romance com a Maria de Fátima que nunca progrediu, é muito mais uma coisa de olhar do que do sexo. Eu pensei: ‘Cara, ele é assexual’. Comecei a pesquisar e temos uma comunidade de mais de 4 milhões de assexuais no Brasil“

O incômodo, é claro, seria inevitável. Remakes são feitos por conta do apelo nostálgico; essa é a razão MAIOR; do contrário seria mais adequado fazer uma novela totalmente original. Uma vez que o recurso do remake é usado para chamar atenção, não adianta vir com argumentos do tipo “parem de reclamar e assistam o original”. Remakes só existem para serem comparados, discutidos, ponderados. Qualquer ataque ao exercício da discussão é puro complexo de superioridade.

Então, espectadores que se recordam de Poliana e sua amizade com Fátima; além do triângulo amoroso com Ísis e Jarbas, ficam confusos. O mesmo acontece quando ela descreve a novela sob uma ótica datada, o que, evidentemente, se choca contra o que vem sendo dito sobre a trama até hoje: Vale Tudo, infelizmente, parece mais atual que nunca. E a própria intérprete de Odete Roitman no remake é uma das pessoas que dizem isso.

“A Odete é uma ‘p*’ personagem. É uma mulher que despreza o Brasil, que não sabe ver, reconhecer, não entende o valor do Brasil. Um retrato de uma classe brasileira que despreza o Brasil e, ao mesmo tempo, se beneficia dele, suga as suas riquezas”, foram algumas das palavras de Debora Bloch a respeito da personagem. Ela ainda continuou: “É interessante e atual. Infelizmente, esse pensamento ainda está atual, essa maneira de se comportar na sociedade. Eu tento fazer uma Odete que representa esse Brasil de hoje”.

Quando a escalação de Bella Campos despertou dúvidas sobre como Manuela explicaria uma mulher racista como Odete aceitando o filho se casando com uma mulher preta; a autora disse o seguinte: “Eu defendo que a Odete Roitman é pragmática e conectada com o que funciona para ela. E isso é maior que tudo para ela”.

Debora Bloch, sabendo bem que o perfil conservador e hipócrita de Odete manteria sua postura racista e machista em linha de frente, disse o seguinte: “Ela é retrógrada, ultrapassada e racista. Odete é uma personagem muito preconceituosa, classista e que, infelizmente, está muito atual ainda”. Por alguma razão, enquanto o elenco encaixa suas declarações na visão que o público já tem dos personagens (uma atitude esperta), Manuela Dias parece querer se afirmar e contradizer o que se espera da revisitação desse clássico.

Mesmo assim, os recentes trailers (como o que está logo abaixo desse texto) provam que há uma preocupação vital da Rede Globo em mostrar que muito pouco vai mudar; com cenas inteiras parecendo extremamente parecidas com as originais. Se o afã de agradar o público vai funcionar ou se esses trailers só estão disfarçando as grande mudanças, ainda é cedo para dizer. Deve-se encarar um remake sempre de coração aberto; mas, ao mesmo tempo, se a essência não é preservada, deixa de ser remake e vira paródia.

Vale Tudo estreia em 31 de março; é uma novela escrita com colaboração de Aline Maia, Claudia Gomes, Márcio Haiduck, Pedro Barros e Sérgio Marques, baseada na obra de Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères. A direção artística é de Paulo Silvestrini, direção geral de Cristiano Marques, direção de Augusto Lana, Fábio Rodrigo, Isabella Teixeira, Matheus Senra e Thomaz Cividanes. A produção é de Luciana Monteiro, a produção executiva de Lucas Zardo e a direção de gênero de José Luiz Villamarim.

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