O conflito entre minimalismo e negligência.

Spoilers Abaixo:

No meu primeiro ano de Série Maníacos, eu comecei com a cobertura de duas séries. A primeira delas foi a ótima Alphas e a segunda foi a terrível Haven. Uma por indicação do chefe e a outra por predileção. Escolhi Haven porque assim como em Under the Dome, a base dramatúrgica tinha sido uma das histórias de Stephen King. Haven tinha tido as melhores intenções do mundo, mas se colocou numa cilada ao escolher uma trama de eventos sobrenaturais, com um orçamento de produção minimalista.

Com o compromisso de segurar a audiência mas ao mesmo tempo poupar dinheiro, Haven alternava-se entre roteiros fracos que não sairiam caros e roteiros que necessitavam de grana pra efeitos, e acabavam ridículos. Era um problema visível e que colocava em perspectiva as razões pelas quais certas decisões são tomadas em detrimento do bom senso.

Em Under the Dome a exigência de bons efeitos especiais é evidente. Não adianta dizer que na série o importante são os personagens, se o espectador não consegue acreditar no que propõe a parcela fantástica da trama. Por isso, embora o episódio dessa semana tenha sido equilibrado, começo a ficar preocupado que os roteiros sigam num distanciamento cada vez maior da redoma, para evitar gastos e efeitos ruins que seriam resultado do pouco dinheiro. Sabendo principalmente do que vem pela frente, essa é uma preocupação muito válida.

Outbreak tentou, de alguma forma, trabalhar as questões sociais da cidade perante a redoma. Embora parecesse um pouquinho cedo para uma epidemia provocada pela ausência de passagem de ar, foi uma boa ideia, que finalmente expandiu as discussões sobre o isolamento e apresentou uma consequência dele. Serviu para situar Alice de forma mais eficiente dentro da trama e para abrir espaço para Junior crescer.

O protesto no início do episódio não deveria ter demorado tanto pra acontecer. Foi pequeno, mas é melhor que nada. A série tem se esquecido de que o isolamento significa famílias separadas pelo acaso. Muita gente andou reclamando que ninguém dá falta de Angie e isso é realmente importante para manter a credibilidade das coisas. Essa semana o irmão mencionou a ausência dela, mas precisamos de mais um pouco desse exercício tão rico de discutir o quanto a redoma afetou a rotina de certas famílias.

O episódio teve três focos bem marcados. O primeiro deles foi Barbie. A insistência em fazer o caráter dele parecer duvidoso dificulta muito seu encontro com sua base original: Barbie é “vendido” como um protagonista em oposição à Big Jim. Se Big Jim é o lado negro da força, Barbie será a resistência a isso. Com o motivo de sua ida a Mill esclarecido, podemos até entender que o futuro nascimento com o antagonismo ao governo da cidade, enfim, acontecerá. Big Jim está comendo pelas beiradas, considerando que a série mostrará a cidade passando pela redoma por mais tempo, essa lentidão dos verdadeiros conflitos tem sua razão de ser.

Junior é um bom exemplo dessa cautela. A loucura e o sequestro de Angie não poderiam mesmo ser seu único enredo possível. Numa cidade isolada do mundo, faz sentido que o poder e as forças policiais se encontrem numa posição de independência absoluta. Não há fiscalização e é claro que isso significa poder fazer o que dá na telha. Big Jim, que secretamente sabe que seu filho tem uns parafusos a menos, providencia logo que ele ganhe uma arma e um distintivo. A melhor decisão para a série, a pior para a cidade.

Do outro lado, Joe e Norrie continuam sendo o pivô dos mistérios da redoma. Aquela convulsão epitelial me irritou um pouco, mas saber o que são as benditas estrelas cor-de-rosa virou uma obsessão. Com um episódio quatro que ainda não mencionou importantes conexões com o mundo externo, ninguém mais do que eu está curiosíssimo pra saber como as estrelas rosadas serão inseridas na trama.

Gostei muito do final que colocou Big Jim e Angie frente a frente, e quero ver como esse encontro afetará os dois, mas ainda acho que o roteiro da série precisa começar a focar na cidade como organismo questionador desse fenômeno. Eles não precisam de muito mais que uma parede de vidro pra fazer isso. O orçamento curto não pode ser uma desculpa para adaptações que só facilitem o andamento das coisas. Under the Dome é uma série sobre a desestruturação pessoal, do menor para o maior. Mas tudo, tudo começa nas dúvidas sobre a permanência da redoma… Precisamos dessas dúvidas no ar, explícitas, e não veladas.

Little Dome: Julia tirou o dia pra ser escrota e fugiu do hospital mesmo sabendo que podia infectar a cidade inteira.

Agora vamos falar sobre o livro. Se você não quer saber sobre as comparações, vá assistir Colheita Maldita e fique longe da próxima sessão.

SPOILERS DO LIVRO

Redoma das Comparações:

– No livro não há epidemias de doenças. A redoma fica na cidade por apenas uma semana. King preferiu focar-se nos reflexos climáticos e gravíssimos da permanência dela.

A primeira providência de Big Jim na cidade (que como King explica não tem prefeito e sim vereadores no poder por conta de sua demografia) é reforçar o contingente policial com civis escolhidos por ele. Isso revolta os opositores. Linda, exatamente por isso, jamais concordaria em tornar Junior um xerife.

No livro o Reverendo Coggins não é fanático, mas realmente tem ligações criminosas com Jim.

O Junior literário é completamente insano. Ele tem um tumor cerebral que lhe tornou sádico, violento de verdade. Ele jamais abriria mão de dar uns tiros no hospital, ao invés de ceder à pressão.

As convulsões sofridas no livro não se dão por toque. Acontecem com crianças por suscetibilidade física e em adultos por proximidade com a redoma. Elas também funcionam como premonições do que está pra acontecer na cidade.

– Esse foi o episódio que mais se distanciou do livro. Ele mostrou Julia desconfiando de Barbie, Barbie sendo um cobrador de apostas, epidemia de meningite, Linda promovendo Junior… Nada disso acontece no original. Na trama literária, os primeiros dias se focam totalmente na reação da cidade à redoma, e no oportunismo de Big Jim para tomar o controle. Até agora, na série, ele ainda não começou a tentar acabar com Barbie, o que é seu segundo objetivo maior.

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