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Em tempos de Popcorn…

O círculo se fecha…

Na época em que a Netflix chegou ao Brasil e foi rapidamente se consolidando no emergente mercado dos streamings, lembro-me de ter impressões grandiosas e fantásticas sobre o serviço. A realidade era bem diferente, principalmente em terras tupiniquins, mas com o tempo o catálogo foi ficando mais interessante e atualizado. Enxerguei, e ainda enxergo, a visão de mercado de Reed Hastings como uma profecia do novo século. Cheguei a desenvolver um trabalho na faculdade sobre a marca, que revolucionou duas vezes o mercado do entretenimento e arrastou a monstruosa Blockbuster americana para o fundo do poço.

É errado enxergar a Netflix como a solução para a pirataria? Na atual conjuntura das coisas, é. Entretanto, grande parte nesse texto se baseia em projeções futurísticas, até porque se analisarmos o mercado das séries atualmente é óbvio que não é nada praticável esperar meses para o lançamento da última temporada de Breaking Bad, por exemplo. Desse modo devemos pensar na Netflix daqui a alguns anos e na perspectiva que ela nos traz.

É uma ótima perspectiva. Entretanto, há algum tempo atrás um time perverso de desenvolvedores argentinos criou o Popcorn. Lembro-me muito bem do buzz gerado nas mídias sociais, e o programa era realmente extraordinário: um serviço de streaming gratuito baseado em torrents. O calcanhar de aquiles da Netflix, a desatualização de seu catálogo,  foi atingido em cheio com esse software, mas enquanto todos celebravam meu cérebro apitava dizendo que alguma coisa estava errada.

Novamente digo: atualmente o Popcorn faz sentido. Alguns filmes disponibilizados lá em alta qualidade nem chegaram nos cinemas daqui porque… bem, porque no Brasil tudo demora. Outros chegaram, mas aí ficamos presos nos horários arbitrários de cada cinema, nas escolhas quase nunca proporcionais entre sessões dubladas e legendadas e nos preços astronômicos.

Por outro lado, há alguns filmes e seriados no Popcorn que também existem na Netflix. Em alguns casos, e esses casos estão se tornando mais frequentes, há uma simples escolha entre pagar um preço acessível por um catálogo imenso de filmes, séries e desenhos animados e baixar tudo de graça. Esse é um dilema que considero profético, pois tudo indica que se tornará mais frequente com o passar dos anos. O círculo finalmente começou a se fechar. As empresas começaram a perder lucros e a indústria do entretenimento acordou para o novo século. A Netflix é responsável por um terço do tráfego de dados nos EUA durante horários de pico, enquanto a Amazon OCTUPLICOU esses mesmos números nos últimos meses.

Nessa nova era do entretenimento onde a cada dia novas empresas anunciam a produção de séries e filmes com modelos de negócio totalmente diferentes dos tradicionais a pirataria começa a deixar de ser uma necessidade. É uma simples escolha. Mesmo com esse processo ainda em andamento e com várias falhas estruturais, precisamos pensar que eventualmente elas serão consertadas. Eventualmente a indústria terá calibre para lutar de frente contra a pirataria, e o que acontecerá a partir daí?

A primeira e mais óbvia conclusão é: a pirataria não irá acabar. Não existem meios efetivos de se combatê-la com a eficácia necessária, muito menos estrutura (imaginem nosso entupido sistema judicial lidando com milhares de casos de download ilegal de séries todo final de semana em que lança Game of Thrones, por exemplo). E é ingenuidade pensar que os fornecedores de material protegido pelos direitos autorais parariam de realizar suas atividades porque a desculpa do “vamos oferecer meios acessíveis de consumir entretenimento” não cola mais. Muitos até defendem o fim dos direitos autorais (algo totalmente utópico, mas o argumento permanece).

Nesse cenário a decisão que nós consumidores de entretenimento devemos tomar é simplesmente moral. Confesso que essa perspectiva me assusta, pois ainda tenho sérias dúvidas sobre a pirataria e suas justificativas. Uma delas parte do próprio prejuízo causado por essa prática ilegal. Vejam o que Túlio Vianna, um jurista que produz artigos interessantíssimos e atuais sobre o assunto, diz:

“Na tentativa de sustentar a ideologia da ‘propriedade intelectual’ a ‘indústria cultural’ cria estatísticas mirabolantes para afirmar a tese de que a pirataria acarreta prejuízo de bilhões de reais por ano. O sofisma funda-se no argumento cretino de que todo aquele que pirateia uma obra intelectual, caso fosse impedido de fazê-lo, necessariamente compraria o produto.”

Outro assunto contundente é o preço das obras no mundo digital. Enquanto antigamente tal valor era calculado levando-se em conta os custos de produção (no caso de seriados, o box, o DVD, a embalagem, etc) hoje esse custo é equivalente a zero. Basta um copiar e colar. Já encontrei uma versão de Vade Mecum, uma enciclopédia de leis brasileiras, custando 90 reais em sua versão digital.  O preço da versão física é O MESMO!

Querem mais uma polêmica? A liberdade de acesso e edição dos materiais protegidos pelo direito autoral, por exemplo. Vamos pensar no filme O Hobbit. Seguem-se as opções:

Opção 1: Assistí-lo no cinema. Você pode apenas vê-lo, uma vez só. Não tem acesso ao arquivo, não pode pausar, editar, gravar, reproduzí-lo em outros lugares ou armazená-lo. Se for ao banheiro perdeu. Vamos colocar nisso um preço razoável de 20 reais para a sessão, algo comum aos finais de semana (para quem tem carteirinha de estudante).

Opção 2: 20 reais por acaso é o valor da mensalidade da Netflix. Só que junto com O Hobbit tem um catálogo com milhares de filmes. Você pode assistir o filme quantas vezes quiser, pausá-lo, retornar a um ponto anterior e revê-lo em qualquer lugar com um acesso decente à Internet.

Opção 3: Pirateie-o de graça. Você pode fazer tudo o que a opção 2 lhe oferece, sem a necessidade de Internet após o download e tendo amplo acesso ao conteúdo do arquivo, podendo editá-lo, mixá-lo e manipulá-lo de formas que meu escasso conhecimento na área de edição de vídeos não consegue compreender.

Todos esses são assuntos pertinentes ao tema e atravancam ainda mais a discussão. A propriedade intelectual é uma herança de tempos longínquos, quando a cópia de livros ainda era feita pelas primeiras gerações da imprensa de Gutemberg. A matéria necessita de uma urgente renovação, mas não é do interesse da indústria do entretenimento reformular esse sistema: ao contrário do que eles pregam por aí, os lucros são altos e a pirataria por vezes até ajuda a alimentá-los.

A Internet é a mais poderosa ferramenta de disseminação de conhecimento já criada pelo ser humano, mas alguns estão mais interessados em mantê-lo preso aos seus próprios interesses do que espalhá-lo mundo afora. Mas há uma distinção necessária a se fazer: disseminar conhecimento ou mero entretenimento?

É então responsabilidade nossa, exclusivamente nossa fazer uma escolha. As convicções morais de cada pessoa são únicas e compostas de diversos fatores, e não vou ousar impor as minhas aos leitores. Dei-lhes ciência do assunto, delineei algumas controvérsias e agora deixo a decisão para vocês. Façam suas escolhas e vamos navegar juntos por essa magnífica nova era digital.

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