You are my angel
Come from way above
To bring me love
Her eyes
She’s on the dark side
Neutralize
Every man in sight
(Angel, Massive Attack)
Insinuante. Sexy. Misteriosa. Elegante. Sedutora. Provocante. Foi assim que Verdades Secretas entrou no horário das 23h. Escrita por Walcyr Carrasco e Maria Elisa Berredo, com colaboração de Bruno Penido, a novela já traz em sua abertura uma inquietação: qual a razão das modelos apresentadas serem colocadas em cenários borrados, bagunçados, decadentes? A resposta dessa questão vem com o tratamento dado ao mundo da moda, ao dark side dos bastidores das passarelas. Antes de começar a comentar sobre o final da novela, preciso expor qual lugar que parto para comentar o encerramento da trama: apenas comecei a assistir Verdades Secretas em sua reta final. Logo, não tenho uma visão global sobre determinados acontecimentos.
Para começar a conversa, antes de chegarmos aos comentários sobre o capítulo final, vale a pena mencionar que o texto, a direção de atores e a fotografia da novela chamaram bastante atenção ao telespectador. As cenas da abertura podem ser vistas como uma sequência de portas que se fecham e que se abrem, ocultando essas verdades que ora se mostram, ora se camuflam. A música tema “Angel”, da banda inglesa Massive Attack, integra-se perfeitamente ao enredo da narrativa, uma vez que uma das personagens protagonistas, Arlete, vivida por Camila Queiroz, adquiri esse nome quando se torna modelo. Essa música é usada como recurso para dizer nas entrelinhas um dos principais desdobramentos da narrativa: a beleza angelical, que traz amor, está num lado escuro, um lado que hipnotiza, neutraliza o olhar dos homens que a veem. Em outras palavras, a abertura já pontua a relação entre Angel e Alex (Rodrigo Lombardi). A batida inicial da música transformou-se em vinheta, sendo utilizada como um vocativo de encerramento do primeiro bloco de cenas, gerando um efeito de tensão no telespectador. O retorno dos comerciais, nesse mesmo caminho, substituiu o “voltamos a apresentar” pela entrada direta de um novo bloco de cenas, no ritmo da vinheta, continuando a novela num embalo impactante e ágil.
O capítulo final teve início na imagem (que nós não vimos) do penúltimo capítulo: o alvo do tiro. Aqui, temos a metáfora do segredo que se estilhaça, um vaso de vidro que se parte, tal como toda a fantasia do casamento entre Alex e Carolina (Drica Moraes). Confesso que esperava que a mãe de Angel matasse o esposo e se suicidasse em seguida. Mas, pensando melhor, preferi o final seguido pelo autor. Uma vez que Carolina tirou a própria vida, Angel não só terá que conviver com o remorso, como verá sempre em Alex uma rota que, ao ser seguida, contribuiu para dar um fim na felicidade da mãe. Fiquei um tanto surpreso com Angel atirando-se nos braços do padrasto quando Carolina estava com a arma apontada para os dois. Essa atitude só trouxe mais dor para as últimas horas de vida da personagem, reforçando o quão tola ela foi. Houve mais do que a admissão de um caso extraconjugal. Houve a admissão de um amor.
O discurso de Bruno (João Vitor Silva) foi um desabafo que é compartilhado por muitos jovens: a droga que entra na vida de uma pessoa “careta”, que até então não indicava propensão alguma para esse tipo de comportamento. Esse tipo de situação camufla, às vezes, o vício, que não é visto pelos familiares por acreditarem que o uso de drogas está relacionado a um perfil de indivíduo completamente problemático. No caso de Bruno, havia uma complexidade além dessa questão: a mãe, Pia (Guilhermina Guinle), atravessada pelo seu modo fútil de viver, preferia ir ao salão de cabeleireiro a conversar com o filho. Era mais fácil (e até mais doloroso) pensar em Bruno como gay do que enxergar que ele estava se afundando na cocaína.
Já Fany (Marieta Severo) teve um final já esperado: o abandono de Anthony (Reynaldo Gianecchini). A conclusão de sua personagem foi bastante coerente a sua trajetória na narrativa, já que ela passou pelo seu momento de não aceitação e escândalo. Mas nada que uma boa dose de álcool e um boy substituto não resolvam. As suas ordens para que o modelo se despisse foram hilárias. O olhar para a câmera dizendo “serve” foi como se a personagem dissesse diretamente ao telespectador: “eu sempre me dou bem, pois não tenho tempo para exercer o papel de mulher rejeitada”. Uma diva.
O desfecho de Larissa (Grazi Massafera) foi um dos mais impactantes. Os escritores da novela ousaram ao discutir o uso de drogas pesadas. Para Larissa, houve um caminho de volta, uma redenção. Estava receoso com esse final, pensando que um final feliz para a personagem pudesse transmitir uma mensagem de que o crack, altamente destruidor, fosse uma droga de escape rápido. Todavia, o encontro de Larissa com o “ex-namorado”, que não a reconheceu, mostrou que nem todos conseguem sair desse mundo. Indo além, vimos um clipe que aprofundou esse olhar: mulheres, gestantes, homens, crianças, todos presos na teia do vício do crack, correndo dentro de uma roda quase inescapável. A catarse alcançada por Larissa é algo que será distante àquelas pessoas que não conseguiram segurar a mão de alguém disposto a ajudar, dar um passo fora da areia movediça das drogas. Larissa aparenta ter constatado isso ao participar das atividades voluntárias de entrega de alimentos. A construção da personagem na reta final da trama remeteu bastante, a meu ver, o filme “Réquiem para um sonho” (2000), de Darren Aronofsky, principalmente nos momentos de não reconhecimento de Larissa ao se olhar no espelho, ao não encontrar a modelo que um dia tivera sido.
No bloco final, quando Angel é praticamente vendida pelo pai e pela madrasta, temos indícios de que a tragédia do início do capítulo não estava terminada. Esse foi um dos grandes acertos desse fim da trama: não entregar ao telespectador a conclusão da história de Angel cedo, soltando aos poucos os últimos passos de seu percurso, imprimindo uma boa dose de suspense. A ida à Angra lembrou um pouco a paisagem da série “Dexter”, quando a personagem protagonista viajava de lancha para jogar os corpos de suas vítimas no fundo mar, exatamente o que Angel fez. Ficou evidente que ela não estava sufocada pelo remorso: ela estava corroída pela raiva, pela transferência de culpa da morte da mãe para Alex. Movida por isso, Angel o matou e forjou o seu “grand finale”. Angel não somente matou Alex, como também o seduziu novamente, colocando-o numa gaiola, apreciando vê-lo como uma presa indefesa, lugar este que ele a colocou em alguns momentos da trama.
A música tema da novela não poderia ter sido mais propícia, visto que Angel parecia deslizar na igreja no momento de saída de seu casamento, uma aparência de anjo desenhada numa expressão facial quase demoníaca. O momento do beijo do crucifixo, ainda vestida de noiva, selou toda a sua dubiedade. A personagem disse ao recente marido que estava feliz, mas vale lembrar que essa felicidade está coberta de sangue, repousando na morte das pessoas que mais se preocuparam com ela. Um final irônico, coerente ao desenvolvimento da narrativa e à proposta da história de mostrar a capacidade de cada um de esconder verdades em função do próprio bem estar. O comportamento e as atitudes de Angel me fizerem lembrar o filme “Garota exemplar” (2014), de David Fincher, ao pensar que Angel se assemelha a Amy Dunne em algumas características: a frieza do planejamento de um crime, a elegância e a dissimulação em saber se colocar como vítima.
Take 1: Tivemos um capítulo final muito bem organizado. Cada personagem do núcleo principal teve um momento de desfecho de sua jornada.
Take 2: Fábia, personagem de Eva Wilma, teve o seu final no penúltimo capítulo, numa cena que apresentou bem a cumplicidade e o amor na relação entre mãe e filho. E, no final das contas, Fábia “continuou sempre dependendo da bondade de estranhos”.
Take 3: O autor da novela foi ousado ao colocar o suicídio como uma única saída para Carolina, tendo em vista que esse tipo de morte é pouco retratado na teledramaturgia brasileira. É um tema delicado que, coincidentemente, foi apropriado pela novela no mês do “setembro amarelo”, momento de campanha contra o suicídio. Assim, podemos ver a decisão de Carolina como uma consequência de um contexto que a empurrou para esse caminho, levando em conta a sua personalidade.
Take 4: A trilha sonora instrumental da novela foi alucinante e muito bem aproveitada ao clima desse último capítulo.















