A única coisa que assegura a vida é a nossa capacidade de acessar experiências.
Diz-se que fortes mesmo são aqueles que jamais mudam… Não é difícil ver por aí, principalmente nas redes sociais, uma infinidade de declarações orgulhosas de “personalidade”. Não é incomum encontrar autodefesas que privilegiam o imutável. Não adianta insistir, eu não vou mudar de opinião… Eu sou assim, eu falo o que quero e pronto. Sou verdadeiro, franco… E nessa onda afirmativa de sustentar opiniões a qualquer custo, o que fica pra trás é o quanto o outro te afeta. Sim, porque quando você resiste à mudança, está resistindo ao outro. É a experiência do contato que está estendendo a mão pra você e você está recuando.
Disse o sábio que nós somos o conjunto das experiências que vivemos. Mas, a tabula rasa das teorias empíricas não começa a ser escrita somente em voos solos. Assim que chegamos ao mundo já nos relacionamos com outra pessoa e seguiremos precisando lidar com relações até o fim. Jamais podemos esquecer que a opinião que defendemos tão cegamente já é compartilhada por outros e na maioria dos casos, já nos foi transmitida, mesmo que indiretamente, por outras fontes. Ainda que nos isolemos na tola tentativa de sermos diferentes, seremos sempre, sempre, iguais a alguém. E isso nos faz, querendo ou não, ferramentas interpessoais.
Mas, de que adianta falar a respeito? A casca das “personalidades fortes” é dura. E vamos combinar, é muito mais fácil não se dar ao trabalho de processar outros pontos de vista. Você sorri com certo deboche ou ironia, dá exemplos de como esteve certo todas as vezes que bloqueou-se a todo custo, você pode até dizer que aceita o que o outro tem a dizer, só não vai passar a pensar como ele. Imagine… Eu vou parecer muito mais inteligente rebatendo, argumentando, lutando contra a possibilidade do outro me tocar por dentro, de algum jeito. Assim, a casca fica intransponível e eu passo a ser admirado. Quem muda demais não sabe quem é…
Como agora o legal é ser forte e cascudo, as relações se tornam ainda mais frágeis. Tanto que muita gente não se priva de aniquilar laços para ganhar uma discussão e defender “a própria verdade”. Desse jeito, todos são descartáveis, substituíveis, superáveis. Encontrar alguém que não valorize a casca e sim a experiência se tornou algo tão raro que podemos dizer que é quase como se fosse outra espécie. A espécie dos que experimentam, dos que reconfiguram, dos que se transformam… Dos que sentem.
Quando Sense8 começa, ela não deixa claro que está falando de ciência também. Ela fala sobre pessoas ao redor do mundo, que subitamente, começam a se conectar entre si de formas muito extremas. Elas são muito diferentes, têm culturas diferentes, religiões diferentes, orientações sexuais diferentes, caráteres diferentes… Em seus contextos, elas pareceriam incompatíveis ao outro. De fato, numa olhada superficial, o que fica mais evidente sempre é a diferença. Só que a questão é que eles não se conectam superficialmente, eles se SENTEM como o outro e aí está a chave para que todas as discrepâncias entre eles sejam compreendidas e aceitas: eles conseguem, literalmente, estar no lugar do outro.
Há uma certa ironia em considerar os sensates como um outro tipo de ser humano… De fato, encontrar gente que se deixe afetar por outras pessoas é cada vez mais raro. A série dos Wachowski chegou num momento em que há uma justa valorização da estética e do drama na teledramaturgia, mas, desconfio que a analogia interpessoal proposta por ela não tenha recebido a atenção devida. Sense8 tem sua mitologia fundamentada lá pro meio da temporada, mas até que cheguemos ali, tudo é sobre viver sendo afetado por outras formas de sentir.
Talvez por isso eu tenha demorado a me conectar com ela. É aquele vício de espectador, sempre querendo viradas e artimanhas super planejadas… Porém, como em todas as boas histórias, primeiro tudo se estabelece, depois converge e enfim, traz o clímax. Tínhamos que acessar o olhar para o mundo de Riley e sua relutância trágica, seu desajuste social. Precisávamos reconhecer os anseios de Will e experimentar o amargo dos dias sem afeto de Wolfgang. Sun também vivia por si mesma, trancada e seus motivos se aproximavam muito dos do alemão. Já Kala era cercada de afeto, mas precisávamos perceber como ela se debatia com os próprios desejos, assim com Lito. Capheus lutava pela família e Nomi contra a família. De algum modo eles se relacionavam mesmo através das diferenças porque sim, a diferença extrema não anula a possibilidade de empatia.
De forma muito bem orquestrada, os roteiros faziam com que em momentos icônicos, a capacidade de “viajar para dentro do outro” levasse o sensate a ocupar aquela vida, aquela posição, por alguns minutos, compreendendo, vislumbrando e consumindo aquela experiência. Quando ele saia deixava algo e levava algo consigo, como em todas as dinâmicas interpessoais da história da humanidade.
Quem nunca esteve num momento de crise e buscou a ajuda de outra pessoa de modo indireto? É como pensar, justamente naquela hora escura, o que faria o outro, aquele outro que você conhece, que já passou pela sua vida, já morreu ou até mesmo está aprisionado no mundo da ficção. Até desse detalhe a série cuidou, fazendo com que Lito fosse alguém que sabe usar o reino da ficção quando necessário. É claro que na série essa troca de experiências é vista através de uma lupa gigante. Mas, o resultado final dessa locação temporária da mente alheia é sempre o mesmo: se você deixa o sensate entrar e te afetar, você pode descobrir novas formas de conduzir a própria existência de forma mais segura. E não é por acaso que todos os oito personagens estivessem em momentos limítrofes de suas vidas.
Na sua reta final, Sense8 conseguiu um efeito emocional devastador… Depois que cada um deles deixa o outro assumir em nome de uma mudança necessária, cria um vínculo implícito ligado à memória afetiva. Então, quando algum deles vislumbra a beleza, todos os outros também estão presentes, porque na nossa vida, sempre trazemos alguém conosco quando a alegria nos toma. Assim, quando eu choro no cinema eu olho pro lado e há sempre um amigo que não levei comigo a sessão, mas está ali. Quando eu me pego muito feliz num encontro com colegas de outrora, há sempre um deles me olhando e me afetando, mesmo que ninguém mais o veja. Quando uma série de TV me arrebata, há pelo menos umas dez pessoas vendo-a comigo no meu quarto. Quando eu olho apaixonado pro meu namorado, alguém de algum lugar, que torce pelo meu amor, surge invisível no meio desse momento e me diz que eu tenho sorte por não ter vergonha de amar… E sempre que a presença e a memória materializam alguém que foi ou é importante pra mim, eu sou como um dos sensates, ouvindo e absorvendo, para que através do outro, meus pés não se machuquem tanto na estrada que eu preciso seguir.
Em algum ponto, todos nós queremos saber o que está acontecendo e cantarolamos essa canção, na mesma ansiedade, sem nem saber que outros, longe de nós, estão bradando a mesma dúvida. Ninguém sabe quem é, e todo mundo que muda demais só está devotado a essa busca incessante por si mesmo. Essa busca que alguns chamam de fraqueza e eu, cheio de paixão, chamo de vida.
ALGUMAS CONSIDERAÇÕES MAIS DIRETAS
Sense1: Daryl Hanna de volta e eu só consigo lembrar de Uma Sereia em Minha Vida.
Sense 2: O momento da canção do 4NonBlondes já está marcado. Agora vai ser difícil ouvir essa música e não associar ao show.
Sense 3: Apenas amo loucamente Daniela.
Sense 4: É bem verdade que Sun virou o Van Damme ex Machina da série. Porém, não dá pra não amar as vezes em que ela vinha para espancar os inimigos.
Sense 5: A trama toda dos sensates e do whispers correu bem por fora, só ganhando destaque nos dois últimos episódios. Eu acho que a coisa toda funciona bem como metáfora, mas precisa de contornos mais seguros para evoluir. Esse lance de organizações e vilões perseguindo “gente especial” é muitíssimo perigoso e já foi exaustivamente usado.
Sense 6: Apenas amo loucamente Amanita (saudades da Larissa de The Carrie Diaries).
Sense 7: A direção dos episódios é muito inspirada e me agrada principalmente por não descartar o humor e a ação em nome da estética dramática constante. Porém, não consigo não me incomodar um pouco com todo mundo falando inglês pelo mundo. As placas, documentos, nomes, tudo respeita a língua nativa. Mas, todo mundo fala inglês. Sei que assim flui melhor, mas enfim… Esse problema sempre me vem a mente.
Sense 8: Os momentos mais fortes da temporada, sem dúvida, foram todos aqueles em que alguns ou todos os sensates convergiram. O dia da canção, o dia do sexo grupal, o dia dos fogos de artifício… Foram momentos realmente muito fortes e cheios de significados emocionais.
Perdeu nossa entrevista com Miguel Ángel (Lito) e Naveen Andrews (Jonas)? Assista logo abaixo que está deliciosa.














