Afinal, por que é tão difícil ignorar a força por trás da comédia de Dan Harmon?
O cômico sempre rodeou Community, dentro e fora das telas. Se o humor pouco convencional foi o suficiente para consolidar uma boa base de fãs, a graça (ou desgraça) tomava conta dos conturbados bastidores, junto a absurda campanha #sixseasonsandamovie. Aliás, Community sempre explorava de maneira excelente os momentos de loucura de seu universo fictício, e de certa forma a impressão era de que a linha que separava o irreal do real era tênue, a ponto de se confundir.
No dia 9 de Maio deste ano a NBC anunciava o cancelamento da série, e mais uma vez o fictício invadia a realidade, distorcendo o andamento ordinário das coisas. Se olharmos a situação de uma maneira superficial é possível dizer que o cancelamento estava longe de ser absurdo: a audiência sempre foi fraca, os bastidores conturbados, além disso era a NBC, emissora conhecida por eliminar séries que não correspondem a suas expectativas (ou seja, 80% de sua grade). Mas o fato aqui é que não se tratava de uma comédia com 5 temporadas que chegou longe demais. Community não era uma simples série que não deveria ter sido cancelada, mas sim uma produção que não podia ser cancelada.
Logo a mídia passou a trata-la de maneira diferente. Poucas horas depois do cancelamento os estúdios da Sony já afirmavam que não mediriam esforços para encontrar uma nova casa para Greendale. Todas as fichas apontavam para o Hulu, mas no final quem salvou o pescoço da produção foi o Yahoo Screen. Era Community, mais uma vez, tornando o improvável possível.
E esse elemento peculiar é um dos grandes fatores que alimentam o espírito da série. Foram 3 temporadas comandadas por Dan Harmon, que chegou a investir dinheiro do próprio bolso para que tudo fluísse exatamente como ele queria, depois disso veio o ano do vazamento de gás, sem Harmon, e por fim, tivemos a season 5, com o retorno dele a produção, e o adeus de Pierce e Troy.
De fato, nunca foi fácil ser Community. Séries como essa dificilmente sobrevivem aos anos da tv aberta, exatamente por exigirem mais do telespectador, e não entro aqui no mérito do humor inteligente e politicamente incorreto, mas sim das piadas internas, que conduzem toda a relação e caracterização dos personagens. É necessário, de alguma forma, se importar com eles.
E foi justamente o que o 5º ano, com seus 13 episódios, fez questão de trazer de volta. Não considero essa temporada a melhor da série, mas creio que Harmon fez o melhor com aquilo que tinha em mãos, afinal, o número reduzido de episódios prejudica a narrativa da trama, causando a impressão de que o equilíbrio das primeiras temporadas não se faz presente. É inviável pensar numa Community naquele mesmo formato de 2009, já que o preço a se pagar pelas seis temporadas foi justamente esse.
Harmon conseguiu rapidamente arrumar a casa, e chegou a ironizar os erros do quarto ano (o que já era esperado por grande parte dos fãs). Exatamente por isso, o cancelamento soava tão injusto. Depois de tantos altos e baixos, justamente quando as chances se mostravam a favor da comédia, um ponto final surgia. Essa força para reverter erros, que surge numa produção tão subestimada pelo público geral, faz parte de um fator que vem se tornando cada vez mais forte na atualidade: séries que fogem do padrão possuem mercado, ainda que menor, porém lucrativo se explorado corretamente.
Community adquiriu status de série cult mesmo antes de seu cancelamento. A ironia de utilizar clichês para satirizar o clichê, junto ao emaranhado de referências à cultura pop, tornaram os personagens que referenciavam em referência. A força dos fãs, que demonstram tamanha admiração por cada elemento, compram por reverência, e interagem com os produtores, é um fator que não pode ser negligenciado pelo atual mercado.
É normal ver comentários que tentem reduzir a força de Community a mero fanatismo bobo, mas a verdade é que aqui existe uma relação de respeito e admiração mútua entre os fãs e o produto. Quando Harmon se afastou lá no quarto ano, muito do que se via era um grande número de telespectadores pedindo para que ele voltasse. E isso ocorreu (também com alto nível de improbabilidade). É claro que sempre existe a parcela que opta pelo caminho mais fácil: “cancelem de vez” “era melhor ter acabado na season 3”, e por aí vai. Mas fato é que a maioria não pensa assim, senão não estaríamos presenciando a pré-produção da tão sonhada season 6.
As evidências apontam para um bom futuro (mas se tratando de Community, é sempre bom manter os pés no chão). O Yahoo Screen se mostra empolgadíssimo com sua nova “série original”, e já se fala no filme com tanta naturalidade que seria estranho se ele realmente não ocorresse após o 6º ano. Os detalhes sobre a nova temporada são poucos, e creio que essa é justamente a intenção. Community reverteu seu universo, com a loucura de sua ficção, drenando a energia de seus fãs para mantê-la viva, e transformando os contras em prós. É o maior exemplo atual sobre a força da união entre fãs e produtores que realmente querem alcançar um objetivo, por mais improvável que ele aparente ser. Por fim, vale dizer que aquele velho clichê é verdade: a união faz a força.















