Que David Lynch é um mestre no que diz respeito ao tratamento cinematográfico do sonho, todos nós sabemos. Algumas de suas obras, como Estrada Perdida, Cidade dos sonhos e Império dos Sonhos são exemplos incontestáveis do domínio que ele possui sobre o “tema”. Ao contrário do que parece, trabalhar com o sonho não significa possuir total liberdade no que diz respeito a condução da narrativa, como algumas pessoas equivocadamente defendem. Para David, o sonho não é apenas o elemento central, que fornece perguntas ou permite a criação de uma trajetória enigmática, pelo contrário, ele é uma força constituinte, ou seja, uma combinação entre som e imagem capaz de representar, modelar ou alterar os principais eventos da psique humana.

A origem do sonho

A mãe do mal
A mãe do mal

Foi a explosão da primeira bomba atômica da história, referência escolhida com muito acerto pela dupla de criadores, que paralelamente provocou o surgimento de uma nova entidade, a mãe do mal. O bombeiro, uma espécie de cuidador da humanidade, precisou criar um plano onde o bem pudesse resistir e residir pacificamente entre nós.

O Bombeiro
O Bombeiro

O mal logo percebe que sua sobrevivência depende não só do enfraquecimento do bem, mas da sua própria manutenção e preservação, e é por isso que ele encontra uma hospedeira.

A hospedeira
A hospedeira

Laura, a menina perfeita criada pelo bombeiro, símbolo de bondade na pequena cidade onde mora, logo é descoberta e passa a ser perseguida por Bob, um dos filhos mais poderosos da mãe do mal. Ela resiste, mesmo sendo vítima de inúmeros abusos físicos e psicológicos; por um momento até acredita que é a culpada por tudo que vem sofrendo. Assim como no nosso mundo, o maior triunfo do mal é fazer o bem duvidar de si mesmo.

 

Laura
Laura

O psiquiatra suíço Carl Gustav Jung defende que “para entender o significado do sonho, precisamos nos agarrar tanto quanto possível às suas imagens.”  Em seus estudos, dizia que o inconsciente coletivo é construído por arquétipos, ou seja, por estruturas que servem de matriz para a representação de alguns objetos/símbolos. Foi assim que Lynch e Frost sabiamente elegeram Laura e Judy como os dois principais arquétipos que habitam o universo de Twin peaks; elas representam o bem e o mal, forças antagônicas, que lamentavelmente, como vamos descobrindo aos poucos, são também dependentes uma da outra.

O primeiro duelo

Andy e Lucy ocupando papéis de destaque, trocas de olhares repletas de cumplicidade e a presença do elenco quase todo em cena, impossível não ficar emocionado.  O “fim” de Bob, sem dúvida, já pode ser considerado um dos momentos mais marcantes da série.

Perceber os vínculos de cumplicidade e afeto entre os moradores da delegacia, sem dúvida fez despertar uma ponta de otimismo no coração dos fãs, nem imaginávamos a virada de mesa que estava nos aguardando alguns minutos depois. Tudo nessa tomada é sensacional,  da representação assustadora de Bob até a combinação equilibrada entre comédia pastelão e  terror.

Muita gente anda defendendo que o episódio 17 representa melhor o merecido desfecho da série, mas não consigo pensar em um encerramento melhor que o proposto por Lynch no episódio seguinte.

O capítulo 18, na minha opinião o mais genial da temporada junto com o oitavo, nos leva para o que chamo de Os bastidores da grande missão aceita por Cooper: encontrar Judy e afastar Laura das mãos do mal.  Nesse momento uma reorganização da narrativa é proposta, criando pistas para as inúmeras interpretações que rapidamente tomaram conta das redes sociais.

O duelo sem fim

Tudo não passou de um sonho?

Sim, muito provavelmente. We live inside a dream, disse Phillip Jeffries em Fire Walk With Me, uma cena bastante repetida nessa temporada.

Mas…

– Quem é o sonhador? Pergunta Monica Bellucci dentro do sonho de Gordon.

Seria Laura a sonhadora? A menina ainda vivendo em Twin Peaks, prevendo um destino cruel e imaginando como os moradores da sua cidade reagiriam caso fosse morta violentamente? Desejando, talvez, que alguém pudesse salvá-la?

O sonhador seria Richard, que acorda naquele hotel depois de uma noite estranha de amor com Linda. Seu carro e nome já não são mais os mesmos, mas de alguma forma os vestígios do sonho permanecem; ele lembra do nome Lucy ao passar pelo restaurante e acreditando que o sonho foi real, tenta levar a garçonete Carrie Page ao destino que ele acredita ser o dela?

ou

O sonhador é a própria Carrie Page, que afastada 3 dias do trabalho, levava uma vida repleta de perigos, vinha sendo perseguida e desejava evidentemente fugir daquele contexto? Indícios não faltam, já que é na sua casa que encontramos a réplica do cavalo branco, um dos elementos simbólicos mais importantes e enigmáticos da série.

“Os cavalos são os brancos dos olhos
E a escuridão por dentro.”

Apesar de possíveis e defendidas por inúmeras análises sensacionais, prefiro acreditar que a narrativa original é verdadeira. Laura, representando o bem e a bondade, foi abusada, atormentada por entidades do mal e posteriormente assassinada. Através do sonho, ela procura ajuda de Cooper, que infelizmente chega atrasado. A investigação em torno da sua morte, que simboliza a eterna luta entre o bem e o mal, é que vai ocorrer dentro da grande máquina onde dois mundos coexistem, onde beleza e violência convivem sem harmonia.

Cooper e Diane

É ainda no episódio 17 que as melhores pistas sobre o encerramento são dadas e a primeira delas ocorre exatamente quando Cooper encara Naido/Diane pela primeira vez. É nesse momento que a sua face fica congelada na tela, um recurso utilizado não só para demonstrar o quanto essa relação é importante, mas também para revelar que algo na sua memória acabara de ser despertado. Percebam a expressão do Cooper ao desviar o olhar de Naido pela primeira vez.

A imagem só desaparece quando eles se beijam.  Essa interação nos leva a perceber que para além do vínculo amoroso, Diane tinha ciência do que Cooper andava fazendo e qual o objetivo da sua jornada. Ele pergunta: – Você se lembra de tudo? Observem que em seguida ambos olham para o relógio.

A face congelada do Cooper volta e repete a frase do Jeffries : Nós vivemos dentro de um sonho, cada um de vocês. Cooper, Gordon e Diane, caminham em direção ao que parece ser o The Great Northern Hotel no passado ou no futuro e lá está o som das tigelas tibetanas que o Horne e a Beverly Paige tanto ouviam.

– Vejo vocês no fim do show.

Quando vi o trio andando naquele cenário, através da escuridão do passado/futuro, como afirma Mike, me dei conta que só eles, entre todos que estavam na sala do xerife, estavam de fato cientes que viviam, naquele momento, dentro de um sonho.

Defendo assim que Cooper, Gordon, Diane e os outros envolvidos no Blue Rose já estavam há muito tempo lutando contra o mal. A diferença é que essa batalha ocorre dentro dos sonhos e esses sonhos são conectados através de portais, tendo a eletricidade como fio condutor. Isso explicaria, por exemplo, todas as estranhezas percebidas em Twin Peaks, já que ela mesma está dentro de um sonho. No sonho existe algo de concreto, uma imagem do nosso mundo que é subvertida, alterada, criando uma espécie de terreno onde o surrealismo é quem está no controle. Em resumo, Twin Peaks está dentro de um sonho, mas nem por isso podemos dizer que ela não existe.

Cooper caminha para dentro dos portais, onde tempo e espaço não seguem a lógica do nosso mundo e onde os seres que ali habitam já não possuem a sua antiga forma humana. É Jeffries, como um mágico, quem reajusta o tempo e lança Cooper para o dia em que Laura seria assassinada.

Viagens no tempo

Ao alterar a linha do tempo, salvando Laura da sua morte no trem, Cooper apaga toda a trajetória que conhecíamos. Laura não foi encontrada morta pelo divertido Pete Martell e Twin Peaks, assim como disse Cooper na sala do xerife antes de partir: nunca mais seria a mesma.

A ideia de que os sonhos podem ser habitados e que eles também seguem um fluxo que pode ser alterado, é de longe uma das explicações mais sensacionais para refletir o mundo em que vivemos. Cooper foi enganado inúmeras vezes durante toda a série e teve até que confrontar, dentro desse universo, a sua própria face do mal.

Laura não precisou se sacrificar nas mãos de Bob, mas acabou sendo sequestrada pelo mal quando tentava escapar do seu destino.

O mal pode simplesmente aniquilar o bem?  Não, a mãe do mal já sabe que para existir, a bondade de alguma maneira precisa permanecer, elas são faces da mesma moeda. O que ela não pode permitir é que Laura viva cercada de pureza, amor e beleza, pelo contrário, a bondade precisa estar sempre enfraquecida, nas mãos dos homens perversos, dos abusadores e dos assassinos. É por isso que a mãe do mal decide canalizar o bem em Carrie Page, a mulher que, no seu próprio mundo, também está rodeada de violência, continua visivelmente perturbada e a espera de uma nova oportunidade para escapar.

Para chegar em Page, Cooper e Diane precisam entrar em um novo sistema, em um novo cenário onde terão que deixar para trás parte do que eram. No processo de transição, Diane consegue ver a si mesma rapidamente na frente do hotel e aos poucos vai se transformando em Linda. Os traumas e suas antigas vivências ainda estão lá e é por isso que a noite de amor já não parece prazerosa;  ela viveu uma experiência devastadora com a versão maligna do Cooper.

No dia seguinte, a nova vida de Cooper vai sendo moldada, seu nome e seu carro já não são os mesmos. É visível o estranhamento do personagem, uma inquietação muito bem construída pelo Kyle. Como recebeu coordenadas do Bombeiro no primeiro ep dessa temporada, sua memória ainda guarda as chaves para que ele lembre da sua principal tarefa: encontrar Laura. Ele vai seguindo os seus impulsos, tentando decifrar os códigos e consegue chegar em Carrie. Como esperado, ela não lembra de ter sido Laura Palmer mas, apesar disso, propositalmente, lembra do nome do pai, Leland, o abusador possuído por Bob. A reação dela ao ouvir o nome de Sarah é ainda mais assustadora. Fico com a teoria que a mãe do mal usou mesmo a Sarah como hospedeira, sendo ela a garota que engoliu o inseto no ep 8.  Aquela cena quebrando o retrato da filha é muito forte, sem falar do barulho do mesmo inseto na cena em que Laura desaparece enquanto tentava fugir com Cooper.

Carrie, aos poucos, também vai recuperando parte das suas memórias e lembra do seu sofrimento ao ouvir sua mãe, a mãe do mal, chamar pelo seu nome na frente da sua antiga casa.  Foi essa visão pessimista do Lynch que provocou a sensação de angústia que estamos sentindo. O grito de Carrie é o grito de Laura e de tantas outras mulheres que ainda são vítimas de violência. Cooper, devastado, percebe que pode ter chegado, mais uma vez, tarde demais; a história continua se repetindo.

Evidente que essa é uma das muitas leituras possíveis, mas é a que para mim melhor representa as temáticas motivadoras desse complexo universo. Quando soube que a verdadeira dona da casa é quem recebe Richard e Carrie na porta, quase escutei o Lynch sussurrar: aqui está a realidade, o sonho perturbador em que vivemos.

Apesar da teia complexa, onde viagens no tempo e sonho se misturam, Twin Peaks continua sendo uma série sobre o nosso mundo, refletindo muitos dos dilemas e dos problemas sociais que ainda enfrentamos. Essa é uma história que nos ensina a identificar e eliminar o mal, mas que também mostra como ele é um reflexo de nós mesmos, uma face inevitável.

Para Lynch, a vida é um grande sonho, a grande ficção que desafia os limites do tempo. Lembrem da frase que Cooper diz para Gordon na sala do xerife: O passado determina o futuro. Se estamos todos vivendo dentro de um sonho, ele é perverso (principalmente com as mulheres), misterioso e repleto de injustiças, mas ainda assim, como mostrou o abraço entre Dougie, Janey-E e Sonny Jim, bonito e esperançoso.

 

Apontamentos do log:

–  Onde está Audrey?

Audrey possivelmente vive dentro de um pesadelo. Acredito que ela acabou se tornando uma prisioneira do mal, assim como Diane foi por muito tempo. Antes de aparecer definitivamente na sala do Xerife, Diane aparece como se estivesse presa dentro de um espelho e foi o reflexo de Audrey no espelho a última coisa que vimos no episódio 16.

– Kyle, Laura Dern, David e Naomi Watts merecem ganhar muitos prêmios, atuações sensacionais.

– Julee Cruise revoltada com o final, será que não dava pra deixar ela cantar mais um pouco antes dos créditos subirem?

– Vamos torcer para que O Dossiê final, livro que será lançado pelo Frost esse ano, chegue nas livrarias brasileiras. Ainda não há previsão, nem editora interessada.

– Sigo acreditando que continuaremos debatendo esse final por muitos anos. Essa é uma daquelas raras obras que só crescem com o passar do tempo.

– Desejo também que artistas como David Lynch e Mark Frost tenham cada vez mais espaço na televisão e no cinema, foram eles que fizeram de Twin Peaks a maior aventura visual do ano. Tenho certeza que esse encerramento crava novamente o nome dos dois na história da dramaturgia, abrindo caminhos para produções menos controladas pela indústria.

Um abraço grande nos leitores e nos novos amigos que fiz a partir dessas resenhas; foi um prazer viver dentro desse inesquecível sonho com vocês.

REVISÃO GERAL
Nota:
Artigo anteriorRoom 104 1×06: Voyeurs
Próximo artigoBlood Drive é cancelada pelo SyFy depois de uma temporada
twin-peaks-3x1718-the-return-parts-17-18-series-finaleApesar da teia complexa, onde viagens no tempo e sonho se misturam, Twin Peaks continua sendo uma série sobre o nosso mundo, refletindo muitos dos dilemas e dos problemas sociais que ainda enfrentamos. Essa é uma história que nos ensina a identificar e eliminar o mal, mas que também mostra como ele é um reflexo de nós mesmos, uma face inevitável.