Com o objetivo de fidelizar seu público e manter sempre elevado os níveis de audiência, muitas séries hoje procuram diagnosticar e analisar, através dos dados fornecidos pelas redes sociais, como a audiência anda reagindo ao material que vem sendo exibido semanalmente. São esses números que muitas vezes justificam mudanças drásticas na condução do enredo. Personagens ressuscitam ou morrem sem uma causa aparentemente convincente, decisões importantes são antecipadas ou incansavelmente prorrogadas e assim perde-se, principalmente, o comprometimento com a mensagem e a qualidade daquilo que estava sendo transmitido.

“There’s some fear in letting go”.

―Margaret Lanterman

O fato de Twin Peaks ter sigo gravada como uma única peça, longe dessa lógica que anda prejudicando o desempenho de muitos shows, é o que de certa forma permite com que o público experimente sensações das mais diversas, todas elas cuidadosamente pensadas e conduzidas por mãos que não temiam a crítica ou um possível risco de cancelamento.

A sempre surpreendente Nadine.
A sempre surpreendente Nadine.

Para nossa surpresa e quebrando muitas expectativas, foi falando abertamente sobre o amor que Lynch abriu o 15º episódio. A conversa entre Nadine e Ed mostrou, em poucos minutos, como os sentimentos mais contraditórios, que assumem diferentes identidades no decorrer do tempo, podem promover paralelamente um estado de resistência e permanência. Um texto sensível e preciso, que tratou abertamente dos enclausuramentos e os processos de libertação que fazem parte de muitas relações amorosas.

Foi catártico acompanhar Nadine andando com tanta firmeza em direção ao seu grande amor, pronta para seguir na direção contrária, mesmo que ainda fiel ao que o seu coração provavelmente nunca deixará de sentir. Apesar do egoísmo por ela assumido e do comprometimento dele, fruto também de uma dívida que carregou por muito tempo (Ed atirou acidentalmente no olho de Nadine), esse diálogo mostrou que os estados de cumplicidade e de afeto são resultantes de processos muito particulares, de estados que na maioria das vezes não possuem uma aparente explicação.

Duas coisas me emocionaram nessa cena, em primeiro lugar o momento em que Nadine assume que andou bastante para tomar aquela decisão e que isso fez com que ela tivesse tempo para avaliar se voltaria atrás. Segundo, a reação final de Ed, uma mistura de cumplicidade e de alívio expressa pelo ator com muita sutileza.

 Big Ed e Norma
Big Ed e Norma

É uma pena que Norma e Ed não tenham conseguido viver assumidamente essa relação antes, mas ela não teria o valor e a intensidade que certamente terá.  Ao som de I’ve Been Loving You Too Long do cantor de soul norte-americano,  Otis Redding, esse ciclo foi fechado com maestria e abriu portas para o inevitável clima de despedida que já começa a ser desenhado.

48 ° 55’14.2 “N 117 ° 76’34.58” W

Acompanhamos outro capítulo importante na jornada do bad Cooper. A sua ida a loja de conveniência e o seu encontro com Phillip Jeffries trouxe um novo elemento, mais uma vez extraído do sensacional Fire Walk With Me, filme que, como já disse, se mostra essencial para que possamos compreender melhor muitos dos eventos e das conexões exploradas pelos dois roteiristas.

Logo após entrar na loja, o doppelganger caminha no mesmo cenário que vimos no Ep 11 e que Laura entrou através do quadro no filme, em seguida ele chega em uma espécie de motel, com muitos quartos, que também parece ser a mesma locação onde Leland Palmer encontrou Teresa Banks.

Quando o woodsmen provoca aquela descarga elétrica, rapidamente avistamos o Jumping man, personagem que, ainda no filme, está presente na reunião entre o braço e Bob (uma das melhores cenas criadas por Lynch, na minha opinião). O bizarro é que a face de Sarah Palmer aparece no seu rosto, o que pode indicar uma possível relação entre eles, não é novidade que a mãe de Laura carrega dentro dela algum tipo de entidade.

Antes de falar sobre a desconhecida Judy, precisamos comentar a forma de bule gigante assumida pelo Phillip. Torci muito para que o Bowie tivesse gravado pelo menos uma cena; diante da crescente importância do seu personagem, isso parecia possível, já que a série começou a ser gravada um bom tempo antes do seu falecimento. Apesar do breve sentimento de frustração, sabíamos que só mãos talentosas, como as do Lynch, seriam capazes de resgatar, com respeito e com a merecida dose de criatividade, uma persona tão icônica e marcante.

Cooper pergunta se Jeffries teria enviado Ray para matá-lo e em seguida o tema Judy aparece. Essa é uma personagem que foi citada pela primeira vez em Fire Walk With Me. Antes do seu longo desaparecimento, ainda em 1987, Jeffries estava em Buenos Aires, quando perguntou ao funcionário da recepção de um hotel se Judy estava lá. O recepcionista informa que Judy deixou uma carta para ele e que ela não estava mais no local.

Jeffries em sua rápida e misteriosa visita ao FBI
Jeffries em sua rápida e misteriosa visita ao FBI

Dois anos depois, exatamente no dia 16 de fevereiro de 89, Phillip aparece no escritório do FBI em Filadélfia, cena que vem sendo repetida nessa temporada. Nessa tomada, aparentando nítida perturbação, ele diz que não irá falar sobre Judy. Minutos depois afirma ter encontrado algo na casa dela, em Seattle.

Essa lacuna foi criativamente preenchida por fãs durante todos esses anos. O nome de Judy também foi citado por um macaco no Black Lodge e aparece algumas vezes no script original do longa. Em uma dessas partes descartadas do material editado por Lynch, Jeffries afirma que Judy tinha uma irmã e especulou-se que seria Josie Packard. Existem algumas outras evidências que seguem nessa direção, como uma antiga afirmação do escritor e produtor envolvido nas temporadas anteriores, Robert Engels, e uma carta publicada esse ano pela atriz Joan Chen.

Isso prova que não estamos diante de um novo plot ou da inserção de mais um personagem. Na verdade parece que Lynch e Frost continuam dispostos a responder perguntas que por muito tempo nos desafiaram e isso é no mínimo um grande presente para os fãs.

Antes da loja desaparecer, mais uma prova de que ela caminha no tempo e no espaço, o bule gigante informa a Cooper que ele já conheceu Judy e em seguida emite no vapor os mesmos números que estavam no braço de Ruth Davenport. Sequência essa que, como vimos, logo após a pesquisa de Diane no celular, indicam geograficamente a cidade de Twin Peaks.

Sendo assim, estaria Judy em Twin Peaks e quem ela seria? Naido?

Como esperado, o bad Cooper encontra Richard Horne, agora oficialmente filho de Audrey. Antes de seguirem juntos, ele envia para um destinatário desconhecido uma mensagem com o texto Las Vegas?, provavelmente um código cujo significado saberemos muito em breve.

Tivemos em seguida quatro pequenas sequências:

  • Steven e Gersten Hayward na floresta, ele arrependido de ter cometido um possível crime (tudo indica que Becky foi morta) e posteriormente cometendo suicídio. Não parei de pensar em Shelly, a única que continua enfrentando graves problemas mesmo depois de tanto tempo.
Steven e Gersten
Steven e Gersten

Cyril Pons, o senhor que passeia com o cachorro e que encontra Steven e Gersten, foi interpretado pelo próprio Mark Frost.

  • James e Freddie no Roadhouse e a briga com Chuck, o marido de Renee. Confesso que minha simpatia quase inexistente por James tem aumentado consideravelmente e que apesar das críticas que o público vem levantando, o Freddie é divertidamente bizarro.
  • Chantal matando (sem demora) Todd e Roger e aqui morreu um plot inteiro.
Cooper/Dougie
Cooper/Dougie
  • Quando ouviu o nome de Gordon Cole na TV, em uma cena de Crepúsculo dos Deuses (1950), um dos filmes preferidos de Lynch, Cooper parece bruscamente despertar. Ele rasteja até a tomada e enfia um garfo na tomada elétrica, causando um apagão. Estamos bem perto de acompanhar o retorno do agente e eu só espero que Janey-E e Sonny Jim continuem tendo alguma importância.

Apesar do episódio terminar com aquela cena angustiante de Audrey, que continua presa numa espécie de realidade criada por ela mesma, foi a despedida da Senhora do tronco que triturou o coração dos fãs desse surpreendente universo.

A eterna Senhora do tronco
A eterna Senhora do tronco

Margaret Lanterman, cuja a história completa é poeticamente contada no livro A História Secreta, indico fortemente, é uma das personagens que melhor representa o que Twin Peaks tem de mais especial. Sua morte não poderia ser mais bonita e emocionante. A Senhora do tronco não é só uma personagem misteriosa, peculiar, ela é, como defende o próprio Frost, uma grande contadora de histórias. Impossível não lembrar dos seus discursos de abertura nas temporadas anteriores e das suas poucas e tão marcantes cenas.

As luzes da casa de Margaret apagando na floresta, um dos momentos mais bonitos e comoventes da televisão em 2017.

Termino essa review, já em clima de despedida, com um pequeno trecho do livro lançado pelo Frost, recorte de uma bonita coluna escrita pelo falecido Robert Jacoby, irmão do Dr. Jacoby que conhecemos.

Para os contadores de histórias, as histórias não acabam, o que acaba é o tempo. O trabalho cabe a outra pessoa agora. 

Apontamentos do LOG (dourado)

Margaret Lanterman
⭐  10 de outubro de 1940  ✝  1 de Outubro de 2014/15*

Você sabe que a morte é apenas uma mudança, não um fim.

REVISÃO GERAL
Nota:
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twin-peaks-3x15-the-return-part-15Foi catártico acompanhar Nadine andando com tanta firmeza em direção ao seu grande amor, pronta para seguir na direção contrária, mesmo que ainda fiel ao que o seu coração provavelmente nunca deixará de sentir.