Através de camadas de tempo que você não pode dividir.
Se o primeiro ano de True Detective era Lovecraft, o seu segundo é puro David Lynch. Ou melhor, puro Cidade dos Sonhos. A mulher misteriosa que toca periodicamente no bar que Velcoro frequenta, por exemplo, é um indicador disto. Os protagonistas são tocados profundamente pela sua voz, mesmo estando afundados em águas sujas, como acontece na apresentação da mulher que ‘canta’ Llorando no Club Silencio.
A complexidade da rede de conspirações que a série vem construindo nos últimos episódios denuncia ainda mais esta inspiração. Se não fosse tão brutal e suja, talvez tivéssemos um pouco de Billy Wilder na mistura. Fica sempre difícil categorizar, já que True Detective pega emprestado um pouco de tudo (para não dizer ‘rouba’, haha).
Tudo isto para dizer que True Detective costura uma identidade própria com a identidade de dúzias de outras histórias e isto tem se mostrado um pouco problemático nestes episódios, porque a série tem quebrado algumas dinâmicas que existem nas obras nas quais ela busca inspiração. Termos quatro protagonistas ao invés de dois, por exemplo.
Sim, o que tem dificultado tanto o storytelling de Pizzolatto é a quantidade excessiva de personagens. Sim, quatro personagens são demais. True Detective é sobre a batalha intelectual entre detetives com perspectivas diferentes acerca do mundo que os cerca. É o clássico good cop x bad cop, pelo que ter quatro personagens com óticas divergentes acaba não funcionando. Afinal de contas, são quatro personagens, quatro visões diferentes. A série não tem espaço para tanto, para criar mecânicas sólidas que conectem organicamente os quatro personagens.
A storyline principal continua excessivamente hermética. Pizzolatto é mais do que ambicioso, ele consegue ser pretensioso. Estou entendendo o caso porque já consumi coisas ainda mais difíceis, mas a narrativa esburacada e enciclopédica não deixa de ser problemática, já que aposto que metade das pessoas que estão assistindo a série não entenderam o plot até agora. Claro, sabem que está tudo ligado ao assassinato de um homem chamado Caspere e sabem que um bandido vestido de pássaro atacou Velcoro, mas só.
A construção das relações entre os personagens está bem óbvia e boba. Uma desculpa esfarrapada atrás da outra para colocar dois dos três detetives num carro para que possam se conhecer. Como quando Woodrugh tem a sua moto roubada e precisa de uma carona de Velcoro. Apesar disto, os diálogos nestas cenas são ótimos. Honestamente, esta temporada estaria impecável se voltássemos ao sistema da primeira e os nossos protagonistas fossem Ani e Velcoro. Tão simples quanto. Um par de detetives com gêneros opostos que não correm o risco de acabar se apaixonando um por outro. E melhor ainda: as suas visões não são tão distantes uma da outra ao ponto de tornar a sua relação caricata e fútil, porém no fundo, o que mais têm em comum é o fato de ambos não serem boas pessoas.
Então, até o momento, Frank não me parece nada além de uma narrativa. Ele só serve para dar um insight no núcleo underground e clandestino da trama, ou seja, um mero artifício para nos colocar dentro das conspirações para que o roteiro não tenha o trabalho de desconstruir estas tramas a partir dos detetives. Vince Vaughn também continua sendo o mais fraco e limitado do elenco. Sempre de boca aberta e olhar de peixe, com aquela brecha esquisita de quem sempre tem algo a dizer, quando o seu personagem deveria expressar o contrário. Sempre cansado, sempre com expressões cerradas de quem confunde ‘conter’ com ‘não expressar’.
Mas o seu personagem ainda é menos esquecível que o de Taylor Kitsch. Notem que não me refiro ao detetive como Paul Woodrugh, pois tive de usar a internet para reconhecer o seu nome. O personagem é chato e a série não tem espaço para discutir sobre homossexualidade, então o seu arco pessoal acaba parecendo estranho e fora de lugar. Nos dois últimos episódios, basicamente, nós tivemos uma trama para o personagem que não está de modo nenhum ligada aos eventos principais e que funcionaria melhor num drama LGBT. Woodrugh acaba se embebedando e passando a noite com o seu amigo veterano, e para negar a própria sexualidade de forma ainda mais intensa, resolve casar com a sua ex-namorada, que está grávida.
Ani é afastada da polícia por má conduta sexual, provando que o seu histórico sexual dentro da polícia é significante. Também voltam a falar do problema de Ani com jogos e apostas, mas nós só presenciamos esses vícios uma vez e ela estava bêbada. Parece que ainda não descobriram para que direção caminhar com a personagem e estão atirando para todos os lados. Problemas familiares, com álcool, com sexo e com jogos. Estranho.
Frank, falido, se vê preso no mundo que lança todos os grandes criminosos, tendo de correr drogas pelos seus clubes. Todo esse papo de gangster falido me lembra de O Homem da Máfia, onde os mafiosos não possuíam glória e tinham de pechinchar preços com assassinos de aluguel. Aliás, curioso como Frank se recusa a ser tratado pelo nome gangster. No episódio seguinte, descobrimos que Frank foi forçado a se mudar para uma casa menor. Mas pelo menos essa não tem manchas de humidade no teto. Frank e Jordan continuam tentando ser um filho. Frank acaba adiando a gravidez – ou pelo menos assumindo que por si próprio tem este direito –, mas Jordan acaba concluindo que eles não têm a possibilidade de ter uma criança biologicamente sua e sugere que adotem. E Frank, como o conservador quase que doentio que é, detesta a ideia. Ao menos no princípio, já que ao longo dos dois episódios ele acaba a aceitando, precisamente por saber que a sua vida teria sido tão diferente se tivesse outro pai.
Esses aerial shots das rodovias são bem deselegantes. Nós já entendemos, tudo está ligado ao sistema de transporte californiano. Agora já chega. E isso é só uma consequência de algo mais triste. O que tornava o primeiro ano tão bom não eram os personagens – que afinal, eram caricaturas do gênero policial vomitando baboseiras filosóficas –, era a direção impecável de Fukunaga. O que tornava o primeiro ano tão único – que afinal, não passava de uma busca por um assassino em série repleta de inspirações de outras histórias – era o sentido de contemplação mitológica que Fukunaga era capaz de transmitir aos momentos mais mundanos. As torcidas de perspectiva, as tonalidades deprimentes, as landscape shots sofisticadas (e não baratas!). True Detective era uma série absurdamente bonita.
Os escritores acham que a conveniência do pai de Ani conhecendo tantas pessoas envolvidas no caso é perdoável contanto que eles reconheçam isto e brinquem com isto numa linha de diálogo. Pena que estão errados. Mas está bem, eu admito que esse centro espiritual e zen da trama é bastante interessante. Aposto que o Birdman estava naquela foto que o pai de Ani mostrou (o agente da EPA que eles conhecem nos territórios rurais também parece suspeito, por alguma razão). E isso vai ficar estranho neste parágrafo, mas não vamos esquecer do quão engraçado foi ver o pai da detetive falando da aura de Velcoro e das suas múltiplas vidas.
Bem, pelo jeito está tudo conectado às festas de prostituição de luxo. E aparentemente Ani estará comparecendo a uma delas. Vamos esperar que ela não se torne uma princesinha frágil e precise de ser salva pelos seus companheiros.
Enfim, a investigação acaba chegando a um ponto que, de acordo com as maiores autoridades da força policial, pode ser final. Os itens roubados da casa de Caspere são localizados e associados a alguns latinos com cadastro. Mais uma vez em True Detective, os protagonistas supostamente encontram o culpado e têm as suas vidas mudadas após a ‘conclusão’ do caso. Só que aqui eles sabem que não pegaram os sujeitos.
A sequência do tiroteio/massacre no final do quarto episódio é simplesmente espetacular. Teria sido impecável se filmada como um plano-sequência, como no quarto episódio da primeira temporada, mas o resultado final acabou sendo muito mais impactante para a trama principal do que este. E também mais chocante. Ver os lunáticos propositalmente fuzilando civis inocentes foi terrivelmente memorável. Provavelmente o momento mais chocante e brutal da série até hoje. Mas ainda acho que colocar os três protagonistas como únicos sobreviventes deste acontecimento foi um equívoco.
Eu não gosto muito de timeskips. São uma forma fácil e preguiçosa de se mudar o status quo de uma história, atalhos rápidos para saltar o desenvolvimento dos personagens. Ainda mais pela altíssima quantidade de diálogos expositivos nesse episódio. Mas um salto temporal foi necessário aqui. Saltamos dois meses depois do que a mídia apelidou de Massacre de Vinci. Os personagens estão em novos empregos, as suas vidas mudadas.
Ani foi rebaixada e está agora responsável pelo inventário de evidências, parecido com o que fizeram com o Lester Freamon. Paul se mudou para a divisão de Fraudes de Seguro, após descobrir o quão vivo se sentiu durante o tiroteio do episódio 4. Velcoro abandonou a polícia e aceitou a oferta de Frank. Nenhum dos três está feliz por razões bastante semelhantes e todos eles sabem que não pegaram os culpados pelo assassinato de Caspere.
Além de ainda não ter se livrado de todo o problema judicial envolvendo o sexo oral com aquela atriz, Woodrugh ainda tem de lidar com a sua mãe, que gastou 20 mil dólares que ele tinha guardado e que usaria para pagar o casamento e cuidar da sua ‘família’. E não vamos deixar de mencionar que a mãe dele sabe o seu segredo. Novamente, todo o arco pessoal de Woodrugh parece alienígena dentro do enredo principal. True Detective é uma série sobre ego, sobre frases de efeito mascaradas de filosofia, sobre casos de violência que brincam com o medo e com o sombrio. Não há espaço para uma discussão social tão complexa quanto esta.
A procuradora Katherine Davis, não satisfeita com o fim que o caso de Caspere teve, resolve dar uma nova chance aos três, formando uma força-tarefa secreta para continuar trabalhando no caso. Mais do que descobrir o que de fato aconteceu com Caspere, ela quer desvendar os esquemas de corrupção da administração e polícia de Vinci. O caso de Caspere também está conectado intimamente com o caso da garota desaparecida que Ani e seu parceiro investigaram lá no começo da temporada, já que a garota estava ligada aos diamantes que foram encontrados na caixa de depósito de Caspere e deve ter desaparecido numa daquelas festas. E Dixon, que morreu durante o tiroteio, estava procurando pelos diamantes antes mesmo da morte de Caspere, ou seja, ele sabia de algo.
Velcoro espancou o Dr. Pitlor até arrancar os seus dentes por informação, descobrindo que elas estavam sendo especialmente apreciadas pelo filho de Chessani e pelo falecido Caspere, que filmavam os grandes empresários que compareciam tendo relações com prostitutas para mais tarde os chantagearem. O HD roubado de Caspere deve conter toneladas de filmagens do tipo, então podemos formar algumas teorias sobre a razão pela qual o dono da Catalyst quer tanto que Frank recupere o disco. Será que ele quer chantagear os concorrentes ou se livrar de algo que pode compromete-lo? Talvez ambos. E ainda temos de descobrir mais sobre o envolvimento de Blake, ex-mão direita de Frank, em tudo isso, já que ele está negociando prostitutas, inclusive com o Osip.
E o nosso detetive predileto só aceitou participar da força-tarefa para manter o seu filho. A sua esposa está com ódio por ele (e ele a princípio não sabe o porquê) e o teste de paternidade agora é uma realidade. Todos nós sabemos que ele provavelmente não é o pai biológico de Chad, certo? Bem, isso não é a pior coisa que Velcoro pode descobrir nesta temporada. A procuradora Davis só confiou em Ray e a sua ex-mulher só o odeia porque ambas ouviram falar da prisão de um sujeito que, ao que tudo indica, é o verdadeiro estuprador da sua ex-mulher. Velcoro agora tem de acertar as contas com Frank e descobrir porque ele o enganou. Talvez para matar dois pássaros com um tiro só: conseguir um policial como aliado e eliminar algum estorvo do seu caminho. O episódio, muito inteligente, acabou no momento que, por lógica, se tornou o mais esperado da temporada após a revelação do que Frank fez.
É difícil prever para onde estamos caminhando com esta temporada. O pacing dos primeiros episódios foi bastante deficiente, mas isto só mantém a fidelidade da série com a temporada antecessora, que também não possuía o melhor ritmo. Eu esperava que este segundo ano fosse melhor do que o primeiro porque talvez Pizzolatto aprendesse com os seus erros e descobrisse que construir personagens é mais do que torna-los alcoólatras e niilistas, e de fato, isto evoluiu.
Mas a narrativa está muito menos sóbria e preocupantemente ininteligível para um número enorme de espectadores. Os diálogos masturbatórios que faziam Freud suspirar no seu túmulo estão muito mais pontuais e funcionam muito melhor, mas estes dois últimos episódios também revelaram um problema do roteiro: a escala.
Se na primeira temporada a escala conseguia ser ao mesmo tempo intimista (a temática desta trama é muito mais ampla do que uma busca por um assassino em série, afinal) e grande, aqui nós não temos o mesmo senso de grandiosidade e ameaça, precisamente por envolver uma teia de conspirações difícil de acompanhar e que, com a exceção do ataque à Velcoro, não parece representar qualquer ameaça à vida pessoal dos protagonistas.
De qualquer modo, estou gostando bastante do segundo ano de True Detective. A pretensão é menor e os personagens, até certo ponto, não são meros arquétipos. Reparem que eu disse ‘até certo ponto’, porque acho que algumas coisas sobre eles nunca irão mudar (existirá sempre aquela vibe de trying-really-hard no ar). Pizzolatto deixou de tentar transparecer um suposto conhecimento cirúrgico sobre o niilismo e está tentando construir uma narrativa que se concentra mais no crime, na sua banalidade e no seu impacto no funcionamento de uma cidade. E isto para mim é ótimo.
P.S: Foi uma oportunidade bacana poder escrever sobre True Detective para o Série Maníacos esta semana. Não apenas por gostar da série e de fazer conteúdo para o site, mas por saber que o Gabriel terá de ajustar as coisas e talvez revisitar alguns acontecimentos destes episódios semana que vem.
PS.2: Essa intro é maravilhosa e o twist de mudarem alguns versos toda semana é ainda melhor.
PS.3: Tirarem o bigode do Velcoro foi o maior erro que esta série já cometeu em toda a sua série. Ele ficou parecendo um Simpson e perdeu todo o estilo.
PS.4: Ainda não comprei um, haha. Infame, eu sei.















