Ganhando em objetividade.

Nic Pizzolatto mostrou durante a primeira temporada de True Detective ser um showrunner muito mais preocupado em trabalhar cuidadosamente seus personagens e as relações entre eles do que em acontecimentos explosivos e reviravoltas duvidosas. Por conta dessa característica, sua criação acaba injustamente sendo taxada de lenta, pelos que não conseguem enxergar desenvolvimento em diálogos orgânicos. Mesmo assim, em alguns momentos, a série precisou focar-se em sua investigação e deixar seus personagens de lado, para evitar a criação de uma bagunça narrativa posteriormente. É com esse pensamento que surge Maybe Tomorrow, que deixa os protagonistas em segundo plano para concentrar-se de maneira competente na história que motiva a temporada.

É verdade que essa estratégia interrompe um momento importante no estabelecimento das funções de Ray, Ani, e principalmente Paul e Frank. Se em Night Finds You víamos True Detective procurando se aprofundar nas motivações de seus personagens através de diálogos interessantes, aqui vemos a série abandonar essa abordagem, limitando seus protagonistas a alguns poucos momentos relevantes no que diz respeito a suas vidas. Embora isso não chegue a prejudicar o andamento do episódio, certamente causa estranheza por interromper um ritmo narrativo que vinha sendo estabelecido desde o season premiere.

Mesmo assim, Maybe Tomorrow é um capítulo muito bem conduzido, em termos narrativos, por Janus Metz, praticamente um estreante no comando da uma câmera na televisão. Aos poucos, somos apresentados a uma série de novos desdobramentos em relação ao assassinato de Caspere, trabalhando em múltiplas frentes sem causar confusão no espectador. Dessa forma, vemos Ray, Frank, Ani e Paul obtendo novas informações para que nos aproximemos do verdadeiro culpado sem que fiquemos de fato de cara com ele, uma vez que não chegamos nem mesmo à metade da temporada. É curioso como True Detective é capaz de construir a imagem de sua vítima de forma tão cruel, praticamente nos deixando contentes de nunca termos visto Caspere vivo, por conta da sujeira de sua existência.

Aliás, é esse o mote dessa segunda temporada. Desde os primeiros teasers, a frase “We all get the world we deserve” ecoa, e Pizzolatto faz questão de nos posicionar exatamente dessa forma. Quando vemos cada um dos personagens agindo de maneira escusa enxergamos falhas em cada um deles, mesmo nos que são, supostamente, os mocinhos. A recusa por parte da série em recair em um aborrecido maniqueísmo é interessante, já que cria um universo em cada ser humano é fundamentalmente repleto de problemas. Ou seja, ainda que vejamos Ani e Ray como os heróis da história, o envolvimento de ambos com fatores externos como a influência de seus chefes funciona mais como obstrução da justiça do que algo que poderia ajudar, deixando o assassinato de Caspere em segundo plano.

Podemos ver essas características na cena em que Ray e Ani visitam o motorista que se demitiu do estúdio de gravações. Após uma competente sequência de perseguição, Velcoro salva a vida de Bezzerides mesmo estando machucado, quando sua vida certamente se tornaria mais fácil se a líder da investigação não estivesse mais presente. Pizzolatto tenta trabalhar a relação entre os dois como um jogo de gato e rato silencioso, em que ambos tem motivos para não confiar um no outro, mas ao mesmo tempo começam a se identificar através de suas conversas.

Infelizmente, a série não faz o mesmo com a relação entre Ani e Paul. Se em Night Finds You mencionei que o showrunner adora utilizar viagens de carro para desenvolver diálogos relevantes, em Maybe Tomorrow vemos o mesmo recurso ser utilizado para estabelecer conexões entre os dois personagens. No entanto, se McAdams e Farrell dividem a cena com grande naturalidade, a atriz não se sai tão bem com Kitsch. O único momento em que os dois ficam sozinhos acaba rendendo um diálogo que parece extremamente deslocado. Nesse aspecto, aliás, Metz não consegue se sair bem, falhando na condução de seu elenco para a criação de cenas orgânicas. O retrato da família do prefeito de Vinci é um bom exemplo disso. Pintada de forma extremamente caricata, todos os integrantes não parecem fazer parte desse universo, transmitindo a impressão de que são completamente desnecessários.

No que diz respeito ao desenvolvimento dos personagens, True Detective novamente relega Ani ao segundo plano, utilizando a detetive apenas como apoio para outras histórias. Prefere mais uma vez dar grande destaque a Paul, que permanece deslocado em relação aos outros. O foco excessivo na sexualidade do policial é interessante, mas a série parece andar em círculos com esse assunto, o que faz com que essa característica de Paul se torne mais aborrecida a cada episódio em que vemos o roteiro seguir com a mesma linha, sem dar um passo à frente.

Da mesma forma, Pizzolatto continua com o martírio de Ray. Novamente, vermos o detetive perturbado pela ameaça da perda de seu filho é um belo contraste com a sua relação com figuras como Frank, mas a temporada não consegue ganhar em peso dramático se o vermos tendo a mesma briga com sua ex-esposa em todos os episódios. A conversa que vemos do lado de fora de sua casa é quase uma reprise do que vemos em Night Finds You. Além disso, True Detective deve ainda uma explicação plausível do motivo de as balas que atingiram Ray serem de borracha, já que em Maybe Tomorrow essa justificativa soa apenas como desculpa para se livrar do cliffhanger rasteiro que vimos na última semana.

Ainda assim, a cena que inicia o episódio, em que Ray surge no bar dialogando com seu pai, é extremamente relevante para o personagem. Primeiramente por conta do cenário em que acontece. Ao colocá-lo no mesmo bar em que o vemos repetidamente, Pizzolatto sugere que o lugar funciona como uma prisão emocional para Ray, de onde ele não consegue se livrar mesmo em seus sonhos. Além disso, coloca em xeque a relação com seu pai, que explica algumas das atitudes dele, como podemos ver quando suas mãos machucadas por conta de socos são comparadas com as de seu pai.

Finalmente, True Detective não chega a fazer um trabalho brilhante com Frank. Mesmo assim, é o personagem que mostra a maior evolução durante o episódio. Se na última semana o vimos sofrendo financeiramente para manter seu poder, aqui o vemos obcecado por resolver seus problemas através da força. A ausência de dinheiro o faz tomar medidas desesperadas, como cobrar duas vezes seus antigos parceiros e utilizar força bruta para vingar seu colega assassinado. Ao chegar em casa, no entanto, o vemos fragilizado, como se consumido pela falta de elegância de sua atitude.

Um pouco descuidada com seus personagens e competente na condução de sua investigação, True Detective continua entregando momentos inspiradores em suas cenas, mas segue extremamente irregular. Nenhum de seus episódios pode ser classificado como ruim, mas tampouco como excelentes. Vejamos se, em algum momento, a história irá finalmente decolar.

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