
Aquela que True Blood costumava ser.
Spoilers Abaixo:
Ninguém nunca permanece o mesmo, isso é fato. Embora estejamos vivendo numa era em que a maioria passa o tempo todo tentando reafirmar a própria personalidade com declarações estanques, como se ser forte e único fosse o mesmo que nunca mudar de ideia, como se ceder aos outros fosse sinal de fraqueza… Embora vivamos nesse mundo, não se pode negar o poder da ação do tempo, que causa mudanças físicas e comportamentais em todos nós.
Quando a convivência é muito intensa, claro que isso se reflete indiretamente. É bem diferente de quando encontramos alguém que não vemos há muito tempo e reparamos no quanto a pessoa está gorda ou envelhecida. Geralmente as mudanças interiores só podem ser percebidas por quem está conosco o tempo todo. Às vezes as mudanças vêm pro bem, e às vezes não. É aí que surgem as divagações sobre como está diferente, aquele que você costumava conhecer.
A metáfora funcionou em True Blood essa semana. Aliás, a metáfora funcionou pra tudo. Dentro e fora da série. Enquanto íamos assistindo os personagens descobrindo esse novo mundo, também nos perguntávamos por onde andava aquela série que costumava usar de artifícios alegóricos para falar da humanidade como um organismo infestado de hipocrisias e moralismos.
Talvez o fato do episódio ter a mão do ator Stephen Moyer na direção, represente um recuo no circo deplorável das últimas semanas. Ele, como alguns de nós, já deve ter percebido que True Blood parou de ser uma história sobre o mundo, para ser uma história do “outro mundo”. Não podemos dizer até que ponto ele exigiu um roteiro mais coeso para dirigir, mas de fato, a série respirou fundo essa semana, e se curou da diarreia criativa da qual estava enferma. Por enquanto.
Começamos com o teaser meio bizarro da namorada do Sam com Síndrome de Smeagol. Logo depois ela tem espasmos e vira o próprio Sam. Como o personagem já não anda muito bem das pernas, aplicar o conceito da semana nele seria complicado. Por isso, resolveram espelhar a imagem de Sam fisicamente, num recurso visual totalmente inútil para a trama (e que nem foi explicado) que pelo menos funcionou como alívio cômico. Impossível não rir de Sam nos braços de Sam, quase beijando a si mesmo.
A rebordosa dos efeitos do sangue emaconhado de Lilith, ainda está vigente. Eric ainda não sabe muito bem o que fazer com esse novo papel que lhe foi incumbido por uma visão, mas de fato sua função essa semana é confrontar Nora, que não é mais a mesma. Em retrospectiva, também podemos entender que Eric sofreu alguns efeitos da convivência com os humanos expansivos de Bon Temps, o que talvez tenha sido responsável por sua sobriedade repentina. Quando Nora e ele se enfrentam, nenhum dos dois reconhece um ao outro.
Do bando de Salomé, só mesmo Russel continua o mesmo. Claro que podemos dizer que o grupo apenas temia Roman e por isso seguiam sua cartilha, mas do ponto de vista conceitual, ficou muito perceptível que a série quer seguir pelo caminho do cataclismo, o que pode ser bom, mas também pode ser um tiro no pé. Guerras entre humanos e seres fantásticos não são nenhuma novidade e geralmente precisam de orçamentos melhores pra serem críveis.
Eu também não sei qual é a do Bill. Já não é a primeira vez na série que ele manifesta um comportamento ambíguo para depois sermos informados que era tudo uma farsa. Em seus dois bons momentos em cena, vemos o encontro com sua filha e seu plano maquiavélico para desestabilizar os integralistas. O conflito humanoXmonstro que lhe foi atribuído quando o programa começou sempre me foi mais sedutor que o assassino frio. No entanto, volta e meia ele retoma um olhar vilanesco para enganar seus oponentes. Fez de novo nesse episódio, para provavelmente no próximo, voltar a chorar por Sookie. Ao menos fica a possibilidade de que ele tenha realmente escolhido um lado, o que o tornaria parte do que costumávamos conhecer.
O plot de Alcide também saiu da catatonia. Ainda acho que todos aqueles lobos deveriam ser sacrificados e virarem casacos de pele na fashion week, mas pelo menos essa semana as coisas fluíram melhor. Alcide parece menos apático, saindo da zona de neutralidade na qual se enfia sempre, e indo pra luta. Com direito a sexo canino no melhor estilo suado e rosnado.
Aqui, na matilha, também vemos aplicado o conceito da semana, já que ao mesmo tempo em que Alcide escalou um degrau do que era antes, seus conterrâneos também ultrapassaram um estágio. Enquanto os vampiros caçam humanos pra se alimentarem, os lobos os caçam para se sentirem mais poderosos.
Outro bom momento do episódio foi entre Jessica e Hoyt, que pela primeira vez se viram como são de verdade. O conceito não se aplica diretamente neles, porque de fato, eles não poderiam dizer que um dia se conheceram. Jessica e Hoyt, mesmo no mundo fantástico de True Blood, são como qualquer casal da nossa realidade. Ela disfarçou quem realmente era por amor a ele, e ele fez concessões impossíveis de se administrar, em nome dela. Eram dois estranhos fingindo que se conheciam. Nesse reencontro, ela falou de verdade sobre esse impasse, e ele ouviu sem vingança.
Perdido no meio disso tudo está o plot de Sookie. Podem me amaldiçoar o quanto quiserem nos comentários (tô blindado), mas eu não engulo aquelas fadas daquele mundo meio “bordel francês”. É forçado, vazio e irritante. E também não aguento a história do sangue no band-aid. Muito menos o vampiro malvadão com voz de demônio aparecendo no banheiro dela numa onda meio O Grito que me entristeceu de tão ridículo que foi. Isso sem falar no flashback oriundo de uma junção de Stein com “uma teoria surgida do nada para ser usada com fins ainda mais duvidosos”. Sookie não vai bem nessa temporada… Embora ela tenha uma folga do interminável triângulo amoroso com Bill e Eric, sua história é a que mais insiste em permanecer sem emoções verdadeiras.
É curioso quando a gente para pra pensar que a True Bood que costumávamos conhecer sabia usar a mitologia dos vampiros a serviço da naturalidade. Um bom exemplo é a primeira cena da série, quando achamos que o vampiro é o cara esquisito e suspeito que entra na lojinha de conveniência, quando na verdade, o vampiro era o atendente gordo e desinteressante. Outro exemplo era o vampiro introvertido e enclausurado que era um dos clientes de Lafayette. Poucas vezes a série foi tão verdadeira a respeito da alma de alguém como foi com aquele personagem. Os vampiros, o sangue, o instinto… Tratados como parte de uma sociedade real, muito diferente do escoamento de motivações em nome da estética que andamos vendo desde então.
Tudo isso para dizer que foi especial o momento de Lafayette no carro, encontrando o estojo de primeiros socorros de Jesus e passando o sangue nos lábios para curá-los. Um momento pequeno, intenso e verdadeiro.
Aliás, por onde andava o Lafayette que costumávamos conhecer? Esse Lafayette debochado, divônico, mercenário, que vimos num vislumbre na cena em que foi procurado por Arlene? Eu gostaria de vê-lo mais vezes sendo tudo isso, e com o plus de usar seu dom para os meios mais sórdidos.
Quanto a Terry, um episódio sem Ifrit já é 40% melhor que qualquer outro. Tudo fica ainda melhor quando temos uma reviravolta decente para o tema. Agora o monstro de fumaça que dá risadinhas debochadas não precisa mais aparecer, ok?
Chegamos então ao ponto da review em que eu mostro que não sou uma pessoa orgulhosa, e admito: Sim, eu comecei a gostar de novo da Tara. Que graça a Deus, não é a pessoa que costumávamos conhecer. Tara renasceu para o futuro de uma personagem que realmente morreu. E já que não poderíamos lamentar essa personagem falecida – por motivos óbvios – mandaram para o episódio, uma representação desse passado. E Tara comeu essa representação. Cool.
Terminamos com uma grande quantidade de cliffhangers. E mais uma vez, com a promessa de uma melhora. Eu não acredito em melhoras permanentes. Desde a terceira temporada que True Blood tem “bons momentos”, perdidos num lamaceiro de esquisitices desnecessárias. Claro que temos que ceder ao fato de que essa esquisitice agrada muita gente. Peço licença a todos que gostam disso, mas eu não consigo embarcar. E não consigo por uma razão simples: tudo já foi melhor. Não vou continuar amando True Blood só pelo que ela já foi. Agora, eu tento perscrutar momentos dignos, enquanto desprezo o freakshow.
Vale lembrar que cada momento digno desse processo de incertezas que a série apresenta foi descrito nesse espaço com louvores, mesmo que a memória afetiva dos fãs da série impeça esse reconhecimento. No entanto, na maioria do tempo os roteiros são bagunçados, incoerentes, frágeis e inverossímeis. E não se pode fechar os olhos pra isso em nome do amor pelo programa. O amor é cego, mas o reviewer que vos fala está livre dele. Já deixei de amar True Blood como ela é, e vivo das expectativas do que ela foi. Mas não posso abandoná-la, do mesmo jeito que não se abandona o que não amamos mais, mas pelo qual ainda sentimos um imenso carinho. Entretanto, não amar pode ser libertador. Abre os olhos, expande a mente, revigora o bom senso.
Amem True Blood pelo que ela é… Continuem apreciando True Blood pelo o que ela foi… A gente se entende ali adiante, de algum jeito.
Fator Rh Positivo: Pam dando uma das melhores falas da história da série: Você ainda não me conhece bem. Minha cara de brava e de feliz é a mesma.
Fator Rh Positivo: Steve e Russel flertando é ótimo. Um pouco mais de espaço pra eles, e menos espaço pra Salomé e Nora (e sua infinita e tediosa pregação). Tá na hora de movimentar essa trama.
Fator Rh Negativo: Warlon, O Gasparzinho Nada Camarada.





















