Desencaixotando True Blood.

Spoilers Abaixo:

O pós-trauma é uma experiência dura… Todo mundo sabe. Não é preciso ser graduado pra entender que os efeitos psicológicos de uma situação-limite são muitos e intensos. Um desses efeitos é o autoconhecimento. Nada melhor do que viver o clímax de uma tragédia, pra entender nossa psique como nunca fomos capazes. É então que encontramos o período de mudança, onde se faz necessário abandonar o que nos fazia piores e abraçar o que de bom se tira do amadurecimento.

Podemos dizer, então, que depois de tantos traumas, True Blood talvez esteja se redescobrindo. Pelo menos é o que todos queremos. Que desde a insana terceira temporada, algo de verdadeiro voltasse a emergir dos poços de lama que afogaram toda a verossimilhança do programa.

E quando falo em verossimilhança não estou falando de enredo. Essa é uma série sobre um mundo que descobriu o fantástico e tem que lidar com ele, entendemos isso. Eu me refiro a verdade emocional, coisa que deixou de aparecer na série faz muito tempo. Em meio a tantos seres sobrenaturais e rituais de sangue e vísceras, não sobrava muita credibilidade para o sofrimento das pessoas, para suas motivações pessoais, para a força de seus desejos. Os gritos de medo se tornaram descrentes, e as declarações de amor, vazias.

Acompanhando a cronologia dos eventos, quando a temporada começou estávamos no meio de uma série de acontecimentos que tinham vindo do legado da temporada anterior. Geralmente os episódios iniciais são dedicados a resolver tudo isso. Nessa semana, contudo, as coisas se acalmaram para que os novos enredos pudessem surgir e se consolidar. O estranho é que a série, habitualmente, transforma isso num rito de passagem para um novo caos, e o que vimos essa semana foram dramas reais, de pessoas que passaram por muita coisa, e que entendem que é hora de mudar e reavaliar.

A quarta temporada, com o salto no tempo, poderia ter feito isso, mas mais uma vez prefeririam privilegiar a ação em detrimento da razão. Dessa vez, depois de toda a reviravolta com a Autoridade e a transformação de Tara, os roteiristas assentaram os personagens e pensaram de verdade, no quanto aquilo tudo refletia na história deles.

E falando honestamente, Sookie demorou foi muito pra surtar. Já era hora do peso de tudo que os outros passam por causa dela, surgisse e tombasse. E que ao contrário dos biquinhos usuais, ela ouvisse os argumentos e os digerisse. Sookie precisa ter sofrimentos psicológicos reais. Dessa forma, tudo de fantástico que a cerca, se torna mais crível. Crível como foi sua atitude cretina em seduzir Alcide depois de tudo que fez, apenas para sentir-se melhor consigo mesma. Bêbada ou não, sua super-vagina ainda é a única coisa que a faz sentir-se verdadeira poderosa. E olha que engraçado… Isso a aproxima do irmão Jason mais do que nunca.

Pam foi a segunda personagem que mais sentiu nesse episódio. Sua ligação com Eric é muito comovente, e foi legal vê-lo libertando-a pelos motivos certos. Apesar de todo o enredo sobrenatural, na hora de entender os dois, vale mais o drama verdadeiro de renunciar a uma união nociva para aquele momento. O sofrimento de Pam é sincero e traz Eric junto, num dos poucos momentos em que ele é sincero também. Ela alcança outro estágio, o de criadora (mesmo que suas lições para Tara sejam perigosamente pró-sanguinários), e foi muito inteligente não atropelar esse processo. Fazer com que ela e Eric parassem, refletissem e sofressem essa decisão.

Alcide também justificou sua participação com uma ótima sequência com os pais de Debbie. True Blood estava tão louca que as pessoas morriam como se fossem seres nascidos de um ovo, sem ligações e envolvimentos com o mundo. Quando alguém morre, tem sempre alguém que sofre em algum lugar. Valeu ver que alguém sente alguma coisa com essa perda.

O redescobrimento dos personagens continuou, quando Bill dividiu duas ótimas cenas. Uma com Tara, em que os dois conversam francamente sobre Sookie, sem exageros e sem os gritos de recém-nascida. E outra com Jessica, em que também fica claro que a personagem continua safadinha e transgressora, mas que alguma coisa de verdadeira surgiu do meio daquela personalidade lasciva.

Temos outros dois plots que podem gerar coisas bacanas, mas não temos como saber por enquanto. Um deles é o de Terry. No entanto, essa história parece mais deslocada e avulsa a cada semana.

O outro é o das fadas.

As fadas não fazem uma boa carreira em True Blood. É tudo sempre exagerado demais. Plantas de luz, fadas com cara de bruxa… E agora, aquele Moulin Rouge Fadesco. Tudo totalmente dispensável. Mas vamos ver onde vai dar… A coisa com os pais de Sookie e Jason pode render, mas não estou muito esperançoso.

Já o núcleo da Autoridade é delícia pura. Semana passada, Salomé. Nessa semana, A árvore de Judas.

Eu adoro que a série continue brincando com esses símbolos religiosos, e o melhor: usando-os a serviço do roteiro. Isso delega inteligência à trama. Ou não é bacana ver Nora citando como se ele nunca tivesse de verdade, aceitado seu destino? E ver a criança vampira sendo eliminada pela ponta da estaca feita com a árvore onde Judas teria se enforcado. Seguir pelas raízes do vampirismo é algo que o programa nunca tinha feito, e pode render muitas histórias interessantes. Sobretudo se a analogia religiosa continuar se mantendo presente.

Continuo satisfeito. O que parece, é que True Blood está se redescobrindo e fazendo isso junto com seus personagens. Redescobrindo a essência por trás da ação, o pzisismo que cerca tudo na vida… A força do diálogo, do drama, da fé, daquela parte do dia em que você pensa. Nem tudo é só luta. Há sempre a hora de pensar nos próprios erros e acertos.

Fator Rh Positivo: Pam tem caixão e pijamas cor-de-rosa. Como não amá-la?

Fator Rh Positivo: Não importa se seu amado é um vampiro ou se você acabou de assassinar uma rival lobisomem, uma hora ou outra você desce uma garrafa de Pirassurunga e faz a Heleninha. Isso é vida, True Blood!

Fator Rh Negativo: A entidade de Lafayette tem uma presença boa, mas eu não vou aguentar a obviedade de uma dupla personalidade.

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