Escolha de uma ótica segura e original faz a nova produção do Prime Video despontar como uma das melhores deste ano.
Se a premissa de Tremembé for dita em voz alta, ela tende a invocar duas reações contraditórias: essa é a melhor ideia que alguém poderia ter; e pode ser a pior ideia que alguém poderia ter. Sobretudo em se tratando de produções baseadas em famosos crimes nacionais, ficamos devendo muito aos fãs do gênero. Apesar de ótimos documentários como Pacto Brutal e Vale o Escrito estarem por aí, o trabalho da ficção até então se restringia a produções de péssimo gosto e execução como “A Menina que Matou os Pais” e “Maníaco do Parque”.
No meio de uma lista longa de crimes nacionais ficcionalizados, salvam-se poucos títulos que realmente descobriram o caminho para contar uma história não-tendenciosa e sem a pasteurização de uma “simulação de programa criminal”. Bons exemplos de sucesso são o ótimo O Lobo Atrás da Porta, baseado no caso A Fera da Penha; e o recente Ainda Estou Aqui, sobre o sequestro e morte de Rubens Paiva. Em ambos o recorte é o principal aliado. Em um, múltiplas versões dos mesmos eventos expandem a percepção do espectador; e no outro, a transposição do olhar do filho (observador dos eventos no livro) para o olhar da mãe, estabelece uma identificação mais emocional.
Ninguém poderia esperar que o recorte da série Tremembé (baseada no livro de Ullisses Campbell) seria tudo, menos convencional. Ou até poderia, uma vez que uma história reunindo Suzane Von Ritchthofen, Daniel Cravinhos, Cristian Cravinhos, Alexandre Nardoni, Anna Carolina Jatobá, Elize Matsunaga, Roger Abdelmassih e Sandrão, não poderia nunca ser encarada como passível de abordagens tradicionais. A ideia de contar a rotina desses criminosos na cadeia era tão surpreendente quanto imprevisível.
O trabalho de Vera Egito como diretora traduz o roteiro de Ulisses, Juliana Rosenthal, Thays Berbe e Maria Isabel Iorio, com uma linguagem que ela mesma também dita (Vera é uma das roteiristas). É uma linguagem bem organizada, com cada episódio começando com a reconstituição de um dos crimes famosos, para só depois adentrarmos as vidas desses bandidos como se olhássemos por uma lupa que só expande os detalhes que constroem o ridículo e patético das vidas de todos eles.
Mesmo que em apenas 5 episódios e com recortes temporais rápidos – e justamente por estar muito bem organizada – a narrativa não falha em estabelecer conexões e tensões; em deixar muito bem desenhada a linha que vai fazer os personagens irem de um ponto para o outro. Suzane sempre se aproximando de quem pode lhe garantir algum privilégio; Elize focada em negar a gravidade do que fez para se aproximar da filha; Nardoni insistindo pateticamente na teoria do “ladrão”; Jatobá tentando se convencer de que pode ser mãe de novo depois de ter tirado a vida de uma criança; os Cravinhos sendo levados sempre pelo desejo… Todos eles são muito bem caracterizados e os roteiros não se deixam seduzir pela ideia de defendê-los ou romantizar suas personalidades.
A zombaria é outro traço bem-vindo. Ao invés de olhar de maneira intelectualoide para aqueles monstros, Tremembé só está interessada no escândalo, no que pode fazer com que eles pareçam mais bisonhos e mais culpados. Forró, rock, brega e sertanejo ornam as cenas da série como se tirassem sarro da vida dos criminosos mais famosos do nosso país. Em determinado momento Christian Cravinhos pede que seu namorado na cadeia use uma calcinha; e a canção que começa a tocar diz “É o grelo. O grelo também é visão, vida”.
O que a equipe da série faz tem o mesmo pé no escárnio que Ryan Murphy tem na hora de abordar fatos reais, mas sem sua fascinação pela justificativa da monstruosidade. É como o que Tarantino fez com os crimes de Charles Manson em Era Uma Vez em Hollywood (sem mudar os eventos); uma licença criativa para zombar dos criminosos; para mostrar como suas vidas se tornaram arremedos pautados pela negação constante, narcísica e egocêntrica. A seriedade ainda está lá em alguns momentos, mas nunca para vitimizá-los e sim para mostrar como o crime nunca abandona a vida do criminoso.
O elenco também foi bem escalado. Marina Ruy Barbosa foi uma providência para manter tudo em evidência constante; e ela estaria sob intenso escrutínio depois da mista recepção ao trabalho de Carla Dias nos péssimos filmes sobre o caso. Contudo, Marina fez sua pesquisa e apareceu com uma Suzane bastante convincente. A prótese dentária foi uma decisão acertada para afastar a atriz da imagem de perfeição que costuma estar atrelada a ela. Mas, seu trabalho não é dependente desse recurso e ela passeia com segurança entre o charme e a paranoia de Suzane.
Os irmãos Cravinhos de Felipe Simas e Kelner Macêdo foram outro grande acerto. Felipe é bastante parecido com Daniel e incorpora perfeitamente sua obsessão por validar-se romanticamente. Já o Cristian de Kelner é infalível para a audiência por conta da relação homoafetiva que desenvolve com outro prisioneiro. Porém, Kelner esquece só um pouco de baixar os volumes e Cristian soa mais seguro do que a figura real parecia através da imprensa da época em que o crime aconteceu.
Carol Garcia e Bianca Comparato também fazem um bom trabalho com Elize e Jatobá, respectivamente. Mas, Letícia Rodrigues como Sandrão ocupa a posição de grande antagonista dessa temporada. A única presa que se tornou “famosa” depois de já estar presa resulta em uma personagem que aproxima Tremembé de Orange is the new Black, tamanha a quantidade de reações e exageros que a compõem. A série, de fato, aumentará mais ainda o interesse por tudo que lhe diz respeito, assim como acontecerá com outros prisioneiros não-famosos que a série retratou.
Para os aficionados por true crimes a série ainda oferece encenações interessantes dos crimes; todas elas apoiadas em teses de acusação. O mais interessante foi entender como eles fariam com o assassinato de Isabella Nardoni, visto que de todos os criminosos, Alexandre e Anna Carolina eram os únicos que se declararam inocentes. Os roteiristas tomaram a decisão de encenar o crime pelo viés da acusação, mas muito mais pela perspectiva de Anna Carolina, que se convence – e à família – que não matou a menina e apenas assistiu Alexandre jogá-la pela janela.
Tanto território foi coberto nesses 5 episódios que é difícil entender como continuar numa possível nova leva. A última cena foi considerada por muitos como um “cliffhanger”; contudo, pareceu bem mais que aquela foi uma manobra dos roteiristas para dar para Suzane um pouco do próprio veneno. De fato, mesmo que ainda haja acontecimentos para ilustrar outra temporada, todos os arcos foram fechados. Acompanhar os prisioneiros em suas vidas fora da prisão talvez fosse uma descaracterização severa demais; uma que não serviria aos propósitos caricaturais dessa produção. Calculadamente caricaturais, é claro.
Tremembé é uma das melhores coisas que o streaming já produziu no nosso território; porque ela consegue um feito: subverter em escárnio um cenário obscuro de verdadeiros criminosos e suas vítimas.
A série não se leva a sério, mas ela faz algo muito importante: ela leva os crimes a sério.






















