Da transsexualidade para a eutanásia.

 Eu só estou aqui para fazê-los felizes”

– Ed

Muitas coisas acontecem nesse episódio de Transparent. Voltamos para o presente, e todo o redemoinho de emoções que se esperava presenciar depois do show de talentos não ocorre. É tudo enterrado no fundo das mentes de cada personagem, inclusive de Maura. Sua mágoa profunda com a atitude dos filhos não aparece, nem mesmo quando ela os lembra explicitamente do que ocorreu.

Josh mais uma vez decide que dessa vez é sério, e se envolve mais profundamente com Raquel. Ali descobre que sua melhor amiga estava saindo com o irmão. Ali descobre que sua melhor amiga está a fim dela. Sarah deixa os filhos na casa de Len e acaba ficando por lá. No flashback, descobrimos a razão pela qual Shelly deixou Maura. Tudo isso, entretanto, é completamente ofuscado por um assunto inesperado, impactante e profundamente emocional.

Ed até agora pouco espaço teve dentro da série, e sua ausência durante um episódio inteiro foi o ponto de destaque do personagem. Ele sempre esteve lá, entretanto. E agora, repentinamente, a série decide olhar para ele e nos mostrar algo que estava acontecendo por debaixo das cortinas mas não era percebido: Shelly não aguenta mais, seus filhos não ajudam e a situação de Ed é irreversível.

Tudo aqui se torna mais pungente e doloroso em função da desconjuntada família Pfefferman. Em certos momentos é quase macabro. Ali, em seu estado de empatia agora misturado com a mágoa pela revelação de Syd, fica revoltada com a decisão da mãe. Ela, por sua vez, acerta aquele ponto nebuloso e conflitante do assunto: o sofrimento pelo qual a pessoa que cuida passa, principalmente quando ninguém se dispõe a ajudar. Ali, Sarah e Josh durante toda a temporada cuidaram de seus próprios assuntos, cada um em seu canto. E enquanto o último acha suficiente ligar de vez em quando, Shelly já atingiu seu limite emocional.

Você pode pensar que a decisão dela é cruel e desmedida, mas quem já passou por uma situação parecida com essa sabe que a eutanásia aos poucos vai se tornando uma opção não mais tão absurda quanto era antes. O esforço físico e psicológico, o sofrimento de ver alguém que você ama definhar e lentamente se esvanescer desse mundo e ao mesmo tempo a aparente infinitude desse tormento… Transparent não facilita nosso caminho, entretanto. Podemos até olhar com compaixão para a atitude de Shelly, mas os Pfefferman ainda são os Pfefferman. Entre discussões sobre matar ou não Ed surge o assunto do namoro de Josh com Raquel, e o meu sentimento ao ver a capacidade daquelas pessoas de partir de um ponto ao outro com tamanha naturalidade e falta de tato me deu certo nojo.

É esse contraponto que nos deixa indecisos em relação a Shelly. Sim, ela está no limite, mas o modo como tudo acontece é seco e rude. Afinal, a eutanásia ainda é uma tremenda polêmica e quando Ali diz que sua mãe talvez esteja pensando mais em si mesma do que em seu companheiro nossas convicções balançam. Para coroar toda a estranheza, toda a família menos Ali discute com tranquilidade as preparações para um shiva (festividade judaica em homenagem aos que morreram). E isso ocorre ao mesmo tempo em que presenciamos aquela que considero a cena mais emocionante de Transparent até agora. É como um lembrete final de que o assunto principal aqui não são os guardanapos que podem ser usados na festa. Estamos falando de um ser humano, e durante os minutos finais do episódio a série se dedica a olhar para Ed.

E que minutos. Uma cena ambígua, linda, LINDÍSSIMA, na qual Ed lentamente consegue sair de casa e apreciar tudo o que ele mais gosta nesses momentos finais de vida que ainda lhe restam. O céu, a água, os gansos… O que acontece no fim? Não é importante, não agora. Tranparent, ao contrário, nos mostra o que acontece no começo. Pela primeira vez vemos um Ed são, que conta uma piada para os filhos de sua nova namorada e que, dada a inexistência de comentários negativos sobre ele durante toda a série, é um cara legal que quer ser amigo de Josh, Ali e Sarah. É importantíssimo vê-lo antes da doença para podermos mensurar tudo o que ele perdeu com o tempo. E também para percebermos que, entre toda a discussão entre Shelly e Ali, a decisão pela eutanásia e a senilidade de Ed, tudo o resta dessa jornada é tristeza pura. A frase de Connie no episódio anterior agora soa muito mais sombria: somos apenas corpos, pedaços de carne sujeitos à deterioração e ao esquecimento.

Outras observações importantes:

– Afinal, Shelly se separou de Maura por causa da transsexualidade. Mas prefiro não ser tão exato. Temos indícios de que o relacionamento dos dois já era conturbado, e Transparent nos ensinou que o preconceito é apenas uma de muitas facetas dos problemas que envolvem a mudança de sexo.

– O relacionamento de Josh com Raquel me traz sentimentos muito ambíguos. Ora penso que ela poderá trazer algo de bom para a vida desconjuntada dele, ora sinto que ela deveria escapar dessa cilada enquanto fosse possível.

– Bianca, agora alojada na casa de Josh, para mim está parecendo uma verdadeira agente do caos. O comentário dela sobre a camisa de seu inquilino na frente de Raquel me pareceu deliberadamente maldoso.

– Pela segunda vez vemos uma explosão de empatia da parte de Ali, novamente em relação a Ed. Agora temos o tempero da mágoa dela em relação ao irmão, e essa mistura de emoções a deixa extremamente volátil e incapaz de discutir o assunto com maturidade.

– Percebam que lentamente as pessoas ao redor de Maura vão se ajustando à sua transsexualidade. A questão é que não se pode esperar uma atitude conciliadora e amiga da parte dos Pfefferman (com a exceção de Sarah, embora de forma um tanto torta), um real apoio dos filhos para que essa fase de transição que é particularmente dolorosa transcorra sem maiores incidentes. Maura poderá conseguir a aceitação, mas às vezes é necessário muito mais do que isso para que a pessoa se sinta bem.

– Tivemos finalmente um pouco mais de tempo de tela para Len. O personagem ainda me confunde em virtude daquela explosão transfóbica alguns episódios atrás, e gostaria de poder entendê-lo melhor. Mas temos a segunda temporada pela frente, e as possibilidades de expansão são interessantes e pertinentes.

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